Moda e Lifestyle

E se Salgueiro Maia tivesse usado maquilhagem?

*Este artigo foi redigido no âmbito da edição especial de Abril “Liberdades Mil”*

A sociedade encontra-se em constante evolução, bem como a maneira como a vemos, fruto do desenvolvimento de valores emergentes em revoluções que hoje nos conferem uma vida mais justa. Exemplo disso é a revolução de abril, que em Portugal trouxe uma “lufada de liberdade” no ano de 1974. Liberdade é hoje um dos valores primordiais da nossa vida, valorizada em vários aspetos, sendo que na moda ainda continua a haver muito que fazer.

A moda – e com moda queremos dizer tudo aquilo que vocês possam imaginar, desde cabelos a vestuário, acessórios e maquilhagem – tende a acompanhar a evolução da sociedade e tem vindo a distinguir vincadamente o que é “para ele” e o que é “para ela”. No entanto, em pleno século XXI e no qual tanto se tem lutado pela aceitação da diferença e pela aceitação da liberdade do outro, desde que isso não comprometa a nossa, talvez uma distinção já não faça o menor sentido.

A moda não é só para o mundo feminino; a moda engloba todos nós e as diferenças de género já não têm de existir. Recuemos um pouco nos anos: na Grécia antiga, os homens usavam regularmente um “Quiton”, isto é, uma túnica presa nos ombros, bastante idêntica à da mulher, diferindo apenas no decote e na forma como era presa ao nível da cintura. Não havia uma distinção extremamente vincada, nem havia quem dissesse que uma “túnica”, uma peça de roupa bastante parecida com um vestido, era uma peça de roupa de mulher. Naturalmente, há peças de roupa que assentam melhor no corpo de um homem que biologicamente é diferente do corpo de uma mulher e vice-versa. Lembras-te da Conchita Wurst? Ele é o exemplo perfeito de que um homem pode deslumbrar com um vestido. Porém, maltinha, isto também acontece entre mulheres e entre homens, uma vez que dentro do mesmo sexo também se verificam diferenças físicas (até porque, se fôssemos todos iguais, isto de viver em sociedade seria extremamente aborrecido). 

Conchita Wurst. Fonte: poposugar

O facto é que, com o avançar dos anos, surgiram as lojas só de moda masculina e só de moda feminina e muitas famílias incutiram nas suas crianças que tudo o que seja maquilhagem, desde um batom a um simples corretor de olheiras, foi feito para mulheres – faz parte do mundo feminino que muitos dizem “não compreender”. E, por sua vez, uma menina que gostasse de usar um boné para trás e não quisesse usar um vestido cheio de folhos era, automaticamente, apelidada de “Maria-Rapaz”. O certo é que estas distinções que foram sendo feitas ao longo dos anos acabam por contribuir para inúmeros episódios de discriminação e gozo que comprometem a liberdade de nos apresentarmos como queremos, independentemente de sermos mulheres ou homens. Afinal de contas, o 25 de abril não serviu só para partilharmos cravos – ainda que esse tenha sido um gesto muito bonito – mas também para que hoje tanto nós, que escrevemos, como tu, que lês, nos possamos apresentar ao mundo como queremos. 

Para falar deste tema, escolhemos alguém que se encaixa numa imagem excêntrica e livre de rótulos, sem medo do que os outros possam pensar. Duarte Assunção, mais conhecido como Du (ou Thatsdu, no Instagram), sentou-se à conversa com a ESCS Magazine para dar a conhecer não só a sua personalidade, como também o seu percurso como maquilhador profissional. 

O Du tem 19 anos e, apesar da sua tenra idade, lançou recentemente a sua marca de cosméticos “Darte cosmetics”, que tem como mote “A maquilhagem é um espaço de liberdade”, onde não existem rótulos ou géneros. Ainda que tenha a noção de que, nos dias de hoje, as pessoas se limitam muito ao que se diz numa embalagem (por exemplo, “sombra de olhos” é necessariamente para aplicar nos olhos), o desafio do Du passa precisamente por “desconstruir essa mensagem, produzindo cosméticos que não nos trazem um rótulo”. Acreditando, também, que o resultado dos seus trabalhos criativos e diferentes é fruto da sua visão mais abrangente que o permite não olhar para a maquilhagem de uma forma redutora.

O Du numas das fotos no lançamento da marca.  Fonte: instagram @thatsdu

Esta forma de estar na vida deve-se, em grande parte, aos valores que os pais lhe transmitiram «sempre fui uma pessoa muito livre em termos daquilo que eram as minhas ideias e os meus pais sempre me protegeram dentro dessa liberdade. Nunca me disseram “tu não podes ir ter aulas de dança, porque isso é para meninas”». 

O Du a maquilhar o José Castelo-Branco. Fonte: instagram @thatsdu

No entanto, nem sempre todas as pessoas à sua volta aceitaram com naturalidade a sua maneira de ser. Aos 15 anos, o Du veio estudar para uma escola artística, muito conhecida pelos seus alunos com estilos excêntricos e totalmente livres: a Escola Artística António Arroio

E sente que foi quando começou a escolher o seu próprio percurso, sem medo das opiniões alheias, que se viu livre daquele que foi o lápis azul da sua vida. Ao longo do ensino básico, sofreu bullying e muitos daqueles que na altura o criticavam são quem hoje lhe dizem que é uma inspiração. (“talvez porque se sentem conscientes daquilo que fizeram”, afirmou o Du). A vinda para Lisboa foi o salto da sua vida para os nossos pequenos ecrãs, onde começámos a conhecer o Du como maquilhador.

Nessa fase da sua vida, em que ingressou no mundo da maquilhagem profissionalmente, não se deixou levar por preconceitos, assim como em todas as outras fases: “Eu nunca tive preconceito comigo mesmo, porque nunca me dei oportunidade de pensar que maquilhagem era para mulheres”. Infelizmente, nem todas as pessoas são como o Du. Nos dias de hoje, ainda muitas acreditam que a maquilhagem e o mundo da moda em geral é algo estritamente feminino, havendo uma tendência para separar as coisas de um lado e de outro, não havendo misturas. Sobre isto, o Du destacou ainda uma situação que lhe aconteceu quando era mais novo em que foi advertido por ter dito “obrigada” em vez de “obrigado”. Esta questão permanece na sua cabeça, pois até na língua portuguesa se verificam estas diferenças. 

Du numa sessão. Fonte: sapo.pt

Se tivesse vivido na época do 25 de abril, o Du acredita que teria sido uma das pessoas que gritava e que, sem qualquer dúvida, se teria movimentado para a mudança, pois considera-se um jovem ativista e revolucionário que desde sempre foi uma pessoa muito livre. Talvez por esta razão, quando lhe falámos da Revolução dos Cravos, ele nos disse que vê este dia como um grito, associando automaticamente este dia a “esse grito, essa liberdade, essa explosão”. Afinal de contas, o 25 de abril e todos os que naquele dia gritaram e lutaram foram quem nos trouxe hoje a oportunidade de escrever o que queremos, de nos maquilharmos como queremos, de dizer o que queremos e, ainda, de lermos o que queremos. Sem que nos julguem ou oprimam!

E é extremamente importante que se valorize este momento para sempre, pois, de facto, como nos disse o Du, este é “um momento lindíssimo de se comemorar, precisamente pelo aglomerado de pessoas que gritou por esta sensação tão bonita que é a liberdade. Nesse dia souberam construir a mudança”. Por vezes, adormecemos sobre este assunto e esquecemos as conquistas do passado, caindo no comodismo. E isto faz com que pareça que “andamos para trás, porque nem toda a gente sabe construir a mudança e muita gente tem medo de a construir”. Mas nós, que somos jovens, “é que temos de construir a mudança e transformar o futuro. Se nós queremos mudança, temos de a saber construir” – disse-nos o Du, frisando ainda que tenta ser um contributo para essa mudança na Internet, educando com naturalidade todos aqueles que o seguem. 

O viver em sociedade pede-nos, obviamente, que existam regras. São estas regras que determinam como devemos atuar em diversas situações e como nos devemos comportar, de modo a que não exista toda uma confusão. É óbvio que há determinadas coisas que precisam de ter os seus rótulos; afinal de contas, como nos disse o Du: “Uma polpa de tomate é sempre uma polpa de tomate”. Porém, isto não é abrangente a todos os aspetos da nossa vida e a moda, a maquilhagem e até mesmo os nossos gostos pessoais não têm de, nem devem, ser regrados por condutas criadas por outros. 

Cantar “Grândola Vila Morena” como se essa fosse uma canção banal não foi o grande objetivo do 25 de abril. As conquistas conseguidas naquele dia serviram para que hoje tenhamos uma sensação de que somos pombas brancas que voam livremente e emanam a paz. Ser livre é uma sensação agradável e a liberdade de nos vestirmos e maquilharmos como queremos acaba por estar “a ser construída diariamente, nos nossos telefones” e as nossas revoluções não são hoje feitas com cravos, nem com armas que podem matar, mas com uma simples coisa: a Internet. É na Internet que vemos pessoas extravagantes e únicas, como o Du, que não têm medo de mostrar aos outros que são diferentes e que têm uma voz com garra que ecoa por aí e grita liberdade por todo o lado que passa.

Artigo escrito por Alice Lopes e Luísa Rosário Montez

Imagem de capa: Pinterest

Artigo revisto por Lurdes Pereira

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