Opinião

Entrar no mar

Perder o medo é um processo gradual. Posso dizer-vos que normalmente sou uma mariquinhas de plantão. Deixo mares de coisas por fazer por ter medo de tentar. Seja porque acho que me vai doer ou porque penso que talvez não seja tão boa ideia quanto parece na minha cabeça.

Recentemente, comecei a perceber que perder o medo é como entrar no mar: inicialmente, a água parece demasiado fria. Claro que depois há sempre duas soluções óbvias: ou nos atiramos e entramos na água naquela corridita de quem sabe claramente que vai custar, mas vai valer a pena, ou tentamos entrar pé ante pé.

A verdade é que, quando partimos para a opção do devagar devagarinho, as chances de decidirmos que afinal aquela água é demasiado fria para o nosso corpo são grandes. No entanto, quando mergulhamos, parece que, apesar do choque térmico que causa um arrepio na espinha pouco agradável, é mais fácil manter-nos na água.

Ainda a falar sobre o mar e o verão: depois de algum tempo ao sol, começa a vir aquela vontade desesperante de voltar ao mar. E parece que de cada vez que lá voltamos custa um pouco menos. Sobretudo quando vamos a banhos numa sequência de dias – no último a água já não nos parece nada fria. Mas, se essa sequência for quebrada, o retorno custa tanto. Talvez ainda mais, porque depois sentimos que a água já não está tão quente quanto estava na primeira vez.

Tive um longo período de negação em relação à COVID-19. Atenção: inicialmente, quando surgiu o surto em Wuhan, eu percebi que aquilo não ia ficar no lá longe e preocupou-me; mas nunca achei que ia ser o que foi e é – provavelmente ninguém imaginou as proporções.

Como sou uma pessoa bastante cética, fiz com o vírus o processo contrário do que costuma acontecer com o mar: inicialmente, achava que as pessoas se estavam a preocupar em demasia pelo estado de Itália; uns dois dias depois, já pensava que se calhar era melhor condicionar movimentos, mas nada de muito extremo; quando a primeira universidade deixou o presencial, já estranhava; quando confinei achei que em inícios de abril já teria voltado ao normal. Atentem que esta última fase deve ter sido o meu auge de negação: não podia de forma alguma passar os meus 20 anos trancada em casa.

Ao mesmo tempo, por esta altura já não me sentia confortável para sair. E foi aqui que me acostumei à areia e o mar deixou de ser apetecível. Admito que chegava a ter medo de sair de casa e de ter de me deparar com estranhos novamente. Cada vez que pensava numa sala de 30 pessoas vindas de todos os lados ou num supermercado mexido por todos, sentia a ansiedade a apoderar-se de mim. Então prolonguei o meu confinamento. Até que soube que teria de fazer um exame presencial. E aí comecei a mentalizar-me de que teria de voltar a conseguir voltar ao mar de gente. Não com um mergulho, mas a ganhar mais coragem a cada dia.

Admito que continuo a sentir-me ofegante cada vez que vejo a fila para os transportes ou alguém a sentar-se ao meu lado no autocarro, mas vou usar a desculpa da máscara para não parecer muito maricas. No entanto, habituei-me a esta posição amedrontada e confortável de fazer entradas faseadas e de não me atirar de cabeça por uns tempos. Até me relembrar da adrenalina do desconhecido. E é aqui que eu volto a ser a Mariana que a dez passos do mar começa a correr feita louca, porque sabe que quer mais sentir o fresco da água de forma duradoura do que se ir molhando aos poucos e ficar com aquela sensação chata que as ondas e a brisazinha aquática proporcionam: tão depressa sentimos frio pela água, como sentimos o frio pelas ondinhas que descem e o vento que nos toca na pele ensopada.

Porque da mesma forma que ninguém gosta daqueles chuviscos que não valem a pena o chapéu, mas vão calmamente encharcando, eu também não gosto da sensação de olhar para o mar e perceber que podia ter entrado.

Artigo revisto por Ana Cardoso

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