És completamente insignificante. E isso significa tudo.

Parámos de chorar. A sala parece ter ficado mais leve, também ela se livrou de um peso que mais não conseguia suportar. O peso da indiferença, da rotina baforenta que não estimula os sentidos, quanto mais a alma.

– Bem, vamos esquecer este assunto, que tenho de ir ajudar o teu pai na cozinha, senão já se atrasa tudo. Vê lá se não te escapas entretanto e fazes companhia ao teu avô, ele anda um bocado apático e preocupa-me que já tenha pouco a dizer com medo de que já ninguém o queira ouvir.

– Oh, que disparate, mãe. Sabes que, se há coisa certa neste Universo, são as estórias irresistíveis do avô. Acho que, mesmo que ele abordasse pessoas estranhas na rua, elas iam ficar horas a ouvi-lo – ele tem um dom.

– Sim, sim, mas chega a um ponto nesta vida – e eu bem sei, que às vezes já eu própria sinto isso, Deus me perdoe -, em que nos começamos a sentir um fardo…

– Como assim, mãe? Um fardo? Tu é que aguentas o barco, se não fosses tu já não havia casa sequer, muito menos família.

– Não é isso, meu filho, e obrigada pelo elogio… é só que começas a perceber que o mundo, aquele em que habitas e que te dizem que é teu, deixa de o ser. Vês os teus filhos e netos a tomarem conta dele, e o teu espaço fica reduzido, obliterado pelas novas ideias e sonhos, pelas tecnologias que valha-me Deus mexem tanto com a minha cabeça que às vezes não sei a quantas ando. Bem, percebes o que quero dizer? A velhice pesa, porque, embora estejas vivo, o mundo avançou sem ti, deixou-te no banco, passando-te de titular a reserva sem dó nem piedade. Ai, Jesus, se o teu pai me ouve a fazer analogias com o futebol! Disse bem, não disse?

– Disseste, mãe, mas não sei se concordo contigo. E escusas de me olhar dessa maneira, não o digo para te fazer sentir melhor – acho genuinamente que estás errada. Acredito que todos têm um papel a desempenhar no mundo, nem que seja só o seu, aquele que construíram, e que têm de continuar a construir diariamente.

– Isso é tão bonito, filho, mas é fácil para ti dizer. Estás na flor da idade, os teus sonhos ainda são certezas, caminhos por onde ir, coisas por realizar. Eu percebo que isto ainda não te diga nada, mas espera uns anos valentes e talvez consigas compreender melhor o que pretendo dizer.

– Talvez sim, talvez não. Só posso falar pelo agora, que é a única coisa que tenho, e vocês também. E, por isso, hoje te digo que é o facto de acreditares nisso que o torna verdade, porque ages e não ages em função desse “facto”, remetendo-te para canto, para contexto de um mundo que é feito de quase oito mil milhões de pessoas. Pensa nisso, mãe. Isso significa que há quase oito mil milhões de mundos criados, de perceções, de paixões e vontades, de desilusões e sofrimento. Por isso mesmo, por mais que queiras achar que o teu tempo já passou, eu digo-te que a existência é sempre relativa. Apenas te diz respeito a ti e, quanto muito, aos teus, pois, para o planeta Terra, para aquele que consideramos o nosso universo, não somos mais que um grão de areia, entre milhões que vieram e (esperemos) entre os milhões que ainda estão por vir. Assim, desculpa-me dizer-te, mas o mundo de que falas é um mundo percetivo, que tu criaste e que todos nós criámos para nos dar alento, mas às vezes só nos traz é sofrimento.

Continuei… Não podia parar agora, as palavras pediam para seguir o seu percurso normal, sem filtros, num caminho constante entre o cérebro e a ponta dos lábios, uma fluidez harmónica da linguagem que, se não fosse tão bela, podia ser só destruidora.

– És insignificante, é um facto. Agora aproveita o facto de o seres, porque isso significa que podes viver a tua vida sem necessidade de cumprires determinados comportamentos, como se a sociedade fosse uma norma absoluta em que validam ou não a tua existência; e, chegando à suposta velhice, agradecem os teus serviços e passam para o próximo, deixando-te ao abandono da solidão e muitas vezes do esquecimento.

– Não digo que não faças sentido, mas já me faltam as forças. Já não tenho em mim essa vontade de mudar o mundo, de lutar contra ventos e marés, de me achar especial.

– Mas mãe, talvez afinal não tenhas percebido… vou repetir: TU NÃO ÉS ESPECIAL!  ÉS COMPLETAMENTE INSIGNIFICANTE! Eu sou completamente insignificante, a tua vida vale o valor que tu própria lhe atribuíres. Portanto, não penses que tens de lutar contra o que quer que seja, ou que, por não cumprires o que é esperado de ti, isso automaticamente resulta numa forma de rebelião que só está ao alcance dos “escolhidos” ou então dos “fracassados”. A existência é nossa, é tua. O que fazes com ela é contigo, pois és tu que carregas diariamente as consequências dessas escolhas. Escolhe por ti, cada instante é teu, vive como se não houvesse um guião, porque as únicas palavras que estão previamente escritas são o início e o fim. E mesmo isso é bastante contestável.

Talvez tenha ouvido, talvez não, talvez o cheiro do jantar tenha falado mais alto ou talvez aí tenha percebido como tudo é uma construção, e como nós somos os nossos próprios engenheiros, construindo infelizmente as nossas vidas à imagem de algo ou alguém, com um molde pré-fabricado e definitivamente sem selo de qualidade. Se não ouviu, então há-de continuar assim, nesse limbo que nem é carne nem é peixe, uma situação tolerável e, por isso, insuportável da vida de todos os dias.

– Rapazes, o jantar está pronto. Despachem-se, senão fica tudo frio.

E fomos.

Artigo revisto por Mariana Coelho

Anexo:

Imagem 1:

  1. Legenda: És completamente insignificante. E isso significa tudo (Fotografia: Unsplash)
  2. Slide link (link da página da imagem): https://unsplash.com/photos/Vo52cKzOxMY
  3. Créditos: Joshua Ness
  4. Ligação (igual ao anterior): https://unsplash.com/photos/Vo52cKzOxMY
  5. Licença: CC0
  6. Ligação da licença: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/

Imagem 2:

  1. Legenda: És completamente insignificante. E isso significa tudo (Fotografia: Google Images)
  2. Slide link (link da página da imagem): https://www.onthegotours.com/blog/2016/09/visit-uyuni-salt-flats-from-la-paz/
  3. Créditos: Desconhecido
  4. Ligação (igual ao anterior): https://www.onthegotours.com/blog/2016/09/visit-uyuni-salt-flats-from-la-paz/
  5. Licença: CC0
  6. Ligação da licença: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/

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