EuroCine Parte V – O Cinema Britânico

Após um breve hiato, o EuroCine está de regresso com mais sugestões para uma sessão de tempo de lazer. A viagem pela Europa cinematográfica prossegue e nem a pior das intempéries vai impedir a rubrica de chegar ao próximo destino, a Grã-Bretanha. Famoso pelo seu humor singular, o cinema britânico estende-se para além da sátira e boa disposição. A qualidade nos argumentos, diálogos e construção de personagens são uma prova da herança deixada por William Shakespeare, que, paulatinamente, expandiu-se do palco para o grande ecrã. A seguinte lista representa, portanto, a essência da cultura britânica. Do chá à paixão pelo futebol, há espaço para vários elementos brilharem em simultâneo, sem nunca se atropelarem. Recomendo que assistam num pub bem quentinho, de caneca na mão.

 

Monty Python and the Holy Grail (1975), de Terry Gilliam e Terry Jones

Um dos filmes que melhor ilustra o célebre British Humour é a obra criada pelos icónicos Monty Python, na demanda pelo cálice sagrado. Baseado nos contos das lendas arturianas, mas com um twist satírico, quebrou recordes de bilheteira no seu ano de estreia e foi aclamado pela crítica. Juntamente com The Life of Brian, é o filme que mais notabiliza o grupo encabeçado por John Cleese e Terry Gilliam e uma ilustração do nonsense britânico pelo qual nos rendemos. É, assim, um ponto de referência na história mundial da comédia que perdurará durante anos a fio. Esperemos.

 

Trainspotting (1996), de Danny Boyle

Porque não há formas de descrever a obra adaptada do livro de Irvine Welsh, faço minhas as palavras de Renton, o protagonista, proferidas na introdução: “Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a great movie. Choose Trainspotting.”

 

Snatch (2000), de Guy Ritchie

A vida urbana, a violência e o crime. Três ingredientes para um bom policial não faltaram à chamada numa das obras que marcaram a carreira de Guy Ritchie. Snatch tem uma narrativa enigmática, mas repleta de ação, composta por um elenco de grandes figuras cujas representações ensejaram robustez ao guião. Cru, rude e gráfico, Snatch assemelha-se a uma produção de Tarantino, só que made in Britain. Obteve o estimado rótulo de filme de culto, o que dignifica o audacioso trabalho desenvolvido por Ritchie.

 

The Cornetto Trilogy (2004, 2007 e 2013), de Edgar Wright

Entre Shaun of the Dead, Hot Fuzz e The World’s End, não conseguia deixar um de fora. Portanto, incluo a trilogia na íntegra. The Cornetto Trilogy, assim denominada pois o protagonista é visto a deliciar-se com um gelado da marca em cada um dos filmes, é dos trabalhos mais conceituados de Simon Pegg e Nick Frost. Coadjuvados pelos dotes técnicos de Edgar Wright, conceberam três dos mais divertidos e irreverentes filmes de comédia das últimas décadas, repleto com o melhor que a Grã-Bretanha tem para oferecer. É, como dizem os fluentes em inglês, British humour in a nutshell. Para um fim-de-semana repleto de gargalhadas, recomendo a visualização dos três filmes de seguida. Coisa fácil. Difícil é escolher qual deles o melhor.

 

This is England (2006), de Shane Meadows

O retrato da Inglaterra dos anos 80 pelos olhos de um rapaz hostilizado pelos colegas e que encontra novo alento junto de um grupo de skinheads. Shane Meadows leva-nos a uma viagem no tempo que promete mexer com a nossa forma de pensar. O realizador elabora um ensaio político e patriótico que serve de crítica e reflexão de valores, agindo como documento de estudo para o hooliganismo britânico. Amplamente aclamado pela crítica internacional, This is England foi considerado um dos melhores filmes de Terras de Sua Majestade na década transata, ainda que a sua projeção em Portugal tenha sido parca.

 

The King’s Speech (2010), de Tom Hooper

https://www.youtube.com/watch?v=pzI4D6dyp_o

Vencedor de quatro Óscares, entre os quais o de Melhor Filme, The King’s Speech conta a história da relação entre o Rei Jorge VI e o seu terapeuta de fala, Lionel Logue, na demanda para curar a gaguez do monarca. Muito elogiado pela crítica internacional, o filme de Tom Hooper é uma verdadeira obra-prima que combina um excelente guarda-roupa à fotografia exímia com representações transcendentes do elenco. Ainda que acabe por cair em alguns exageros para efeitos de dramatização, é uma ótima fonte para uma sessão de entretenimento.

 

Dunkirk (2017), de Christopher Nolan

Um dos filmes que esteve em destaque durante 2017. Nolan é um mestre a fazer cinema e demonstra toda a sua sapiência em Dunkirk, que retrata a tentativa de saída das tropas britânicas de território francês no início da 2.ª Guerra Mundial. Com escassos momentos de diálogo, são a fotografia e a música de fundo que pautam a ação e emoção da narrativa. O elenco é bastante equilibrado e todos têm direito ao seu momento de destaque, não havendo ninguém que sobressaísse mais que outro. Vale a pena ser visto mais que uma vez, principalmente pelos aspetos visuais e técnicos aplicados pelo cineasta.

Quando se fala de cinema britânico, fala-se numa panóplia de filmes que podiam tornar esta lista num registo interminável. Mas, como tudo tem que ter um fim, esta ficou-se pelos sete, ou nove, se leram bem até à sua conclusão. Assim sendo, pode estar para breve uma continuação da presente lista – inclusive deixei de fora Love Actually, que blasfémia – pois sinto que é uma indústria à qual não devemos parar de fazer vénias, nem de glorificá-la. A sua identidade forte torna-o dos cinemas mais gratificantes e de maior qualidade na atualidade, com tendência a permanecer tal estatuto durante muito tempo mais.

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