7ª Arte

Frances Ha: está tudo bem mesmo quando está mal

Com a licenciatura quase acabada, a verdade é que olho para estes três anos como três minutos.

Existem vários fatores que explicam isto. Por um lado, tive quase dois anos condicionado pela Covid-19, o que limitou toda a minha loucura (sim, porque eu sou bué louco… Foi a única coisa que me impediu – nada mais e nada menos) e também o facto de todos os momentos de felicidade que senti serem altamente desvalorizados por aquilo que eu achava que devia estar a viver e a sentir. Soa um bocado bizarro da minha parte dizer que a nossa vida é exageradamente afetada pelos tipos de media que consumimos, mas é algo que eu defendo firmemente. 

A nossa visão do amor, da tristeza, da violência, da juventude, da adolescência… A maneira como associamos emoções e partes da nossa vida a filmes que as retratam é bastante peculiar, mas acredito que uma parte das pessoas, eu incluído, escolhem achar que a realidade está errada, ao invés de admitirmos que temos apenas síndrome de personagem principal (sim, é mais uma doença que um elogio).

Fonte: chs.central301.net

O que eu quero dizer com este monólogo é que a romantização em filmes é algo que já tomamos como garantido. 

Não vamos ver um filme de faculdade em que são 90 minutos a contar a história de um grupo de adolescentes a terem ansiedade social e três quebras de tensão depois de experimentarem dro… substâncias lúdicas. E, acima de tudo, não estamos habituados a filmes que retratem as crises existenciais e sentimentos de puro medo e ansiedade que vêm com um fim de uma fase, em que sentes que todos têm rumo, menos tu. Ou, pelo menos, filmes que apresentem estes tópicos de uma maneira honesta. Pessoas ‘normais’ não têm uma crise depressiva seguida de um momento dramático, uma catarse emocional e uma conclusão mágica em que tudo fica bem. O processo de lidar com a vida não é linear e pode trazer o melhor e, quer queiramos quer não, o pior de nós.

É, por isso, refrescante que filmes como Frances Ha existam e partam o vidro cor-de-rosa que o cinema americano tem tendência a ter. O filme segue Frances enquanto esta lida com o facto de estar parada na vida, tanto a nível emocional como profissional. Tudo isto mais o afastamento da sua melhor amiga, cujo sucesso na vida adulta a fez mudar-se do apartamento onde viviam juntas e começar uma família, fazem com que entre numa fase de estagnação e solidão em que é forçada a lidar com a realidade de crescer.

Ainda que seja perturbante na sua maneira específica, o filme é no seu coração uma lição de amor duro e também uma maneira de desmistificar a ideia de que alguma vez alguém chegará a uma altura da sua vida em que encontrará paz e estabilidade permanente. O crescimento, tal como a vida, é um processo linear em que ninguém ganha e ninguém perde. Não existem limites de tempo para chegar a um ponto, e a melhor maneira de viver é saber os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas, e aceitar os maus momentos como parte de uma viagem, que, por muito que a sociedade nos diga o contrário, não tem regras. 

Frances (Greta Herwig) e Sophie (Mickey Summer)
Fonte: cinemafromthespectrum.com

No final do filme, Frances percebe que a vida da sua melhor amiga não é tão boa como parece e que um noivado e um apartamento melhor não são atalhos para a felicidade. Por outro lado, Frances ajusta os seus objetivos de se tornar dançarina profissional e aceita os seus erros e falhas como aspetos a melhorar, ao invés de os ignorar e viver em ilusões constantes como forma de escape.

O meu último ano de faculdade foi o melhor, em parte porque desisti de criar expectativas para o futuro e deixei de adaptar a minha realidade ao que os outros dizem que a minha vida devia ser. Tal como muitos de vocês, eu não sei muito bem o que vou fazer. Contudo, stressar e pôr um penso rápido não é solução. Eu sei que critiquei o escapismo e a romantização dos filmes, porém Frances Ha, de Noah Baumbach , é um dos vários que ilustram que a vertente influenciadora do cinema pode ser benéfica para desenvolvimento pessoal e decifrar os enigmas que inventamos para a vida. 

Fonte da capa: mubi.com

Artigo revisto por Inês Pinto

AUTORIA

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Natural de Mafra, este estudante de jornalismo ainda não sabe o que quer ou vai fazer mas pode garantir que vai procurar respostas nas artes visuais. Amante de cinema, gostaria de um dia trabalhar em algo relacionado com a área, mas tal como foi dito anteriormente, ainda é uma incógnita… Talvez descubra no próximo filme! Gosta do escapismo e identificação que a arte nos traz, e acredita na importância de contar histórias sobre pessoas, quer seja numa série ou numa reportagem.