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‘Hospital Playlist’ não é mais um drama hospitalar

As séries hospitalares começaram a estar fadadas ao declínio com o evoluir das temporadas, nomeadamente a partir da sexta temporada de Anatomia de Grey, em 2010. Há temas que os argumentistas procuram amenizar e a resolução deles são envolvimentos sexuais excessivos nos quartos e romances forçados – pelo menos eu já acho que os médicos do Grey’s Sloan Memorial estão naquela fase da festa em que o que vier à rede é peixe. Com tanto melodrama associado às personagens – e falo enquanto fã da série –, acaba por se perder aquilo que, na minha perspetiva, era a essência: mostrar a conciliação da vida pessoal com o hospital e casos médicos inusitados. Sabem o quão difícil se está a tornar encontrar uma série uniforme do início ao fim? É que nem peço ao longo das temporadas, só na mesma.

Quando estava para largar as séries médicas, surge um raio de sol resplandecente e inovador na minha vida: Hospital Playlist. Não, Hospital Playlist não é como o House no que toca a casos inusitados. Na verdade, grande parte daquilo a que assisti ao nível médico não era de todo algo novo. Eram coisas que já conhecia. No entanto, não senti que nesta série os médicos estivessem mais preocupados com o facto de ir para os quartos de descanso para dar conta das suas necessidades amorosas do que com o facto de cuidar dos pacientes. E isso fascinou-me. Hollywood manchou a medicina, não sei se é isso que realmente se passa nas partes pouco conhecidas dos hospitais, mas, se for, prefiro acreditar que não. A tvN veio salvar o dia com esta série coreana.

Fonte: PopSugar

A história foca-se num grupo de cinco médicos, amigos de curso. Foram-se conhecendo e, eventualmente no meio do caos académico, criaram uma banda. Claro que a banda acaba assim que se tornam trabalhadores. E, passados alguns anos, trabalhando no mesmo hospital, surge uma proposta do obstetra Yang Seok-hyung (Kim Dae-myung) para voltarem. Os restantes integrantes têm também as suas peculiaridades: Lee Ik-Joon (Jo Jung-suk) é um médico de cirurgia geral e pai divorciado; Ahn Jung-won (Yoo Yeon-seok) é um pediatra e pretende tornar-se padre; Kim Joon-wan (Jung Kyung-ho) é um médico cardiovascular aparentemente rude; Chae Song-hwa (Jeon Mi-do) é uma neurocirurgiã e a diva do triângulo amoroso mais subtil que eu já vi. Sim, porque também há espaço para paixonetas nos hospitais.

A história foi milimetricamente criada para “se despir” lentamente: cada detalhe é revelado num ponto chave e apenas ligeiramente descoberto. Percebemos que era mais do que óbvio que tudo aquilo iria acontecer, mas apenas quando acontece. Porque os detalhes não são tirados como um tapete de uma só vez. Nesta série não há espaço para mortes despropositadas ou para melodramas amorosos. Temos o retrato de pessoas reais que exercem aquela profissão e, às vezes, temos tempo para devaneios. Vemos uma amizade que resiste a anos de encontros e desamores, com uma essência tão própria que dificilmente poderia ser criada. Os atores principais já não são principiantes e isso sente-se quando vestem um novo papel como se aquela jaqueta sempre lhes tivesse pertencido. Os argumentistas não deram só um trabalho de excelência à criação dos cinco principais: os secundários têm todo o cuidado e têm um papel essencial para que a carroça ande.

Numa tarde de verão finalizei esta série. Depois de 16 episódios, quase imploro à Netflix para que me dê mais.  E espero que 2021 não se demore a trazer-me mais um gostinho deste belo grupo.

Artigo revisto por Ana Janeiro

Fonte da foto de capa: Suara

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