Opinião

Imortalidade da memória

Escrever não é fácil e muito menos quando se escreve acerca de conceitos subjetivos como a morte, por exemplo. Talvez a morte não seja o mais importante, mas o que dela provém: a morte dos mortos. A morte dos mortos é um conceito duplamente complexo e torna-se assustador quando percebemos que é aplicado pelos vivos. A questão que automaticamente nos surge é: o que fizemos nós vivos? Nada. Não fizemos nada. Deixámos que os mortos se elevassem mais do que a própria memória. Não falo de imortalidade terrena (viver para sempre seria impensável), mas de imortalidade da memória.

Luís de Camões cantava muito mais do que os feitos lusitanos. Camões cantava a imortalização do povo português, dos participantes na viagem marítima e do rei, cantava também, n’Os Lusíadas, sobre aqueles que da Lei da Morte se libertaram – aqueles que se mantiveram vivos mesmo após a própria morte. É reconfortante pensar que existe vida após a morte, é reconfortante pensar que a memória é a chave para a imortalidade.

Muitos alcançam mesmo a eternidade apesar de ser um estado extremamente difícil de atingir. Como é que a alcançam? Pensam, provavelmente, os mais gananciosos. Talvez seja através de feitos louváveis que são imortalizados pelas pessoas na memória, ultrapassando a própria vida.

É quase como um jogo entre os conceitos. A memória é como um candeeiro: pode ser ligado (através de feitos gloriosos) ou apagado (através do esquecimento), porém, para brilhar é necessário que alguém acenda a luz (através da imortalização desses mesmos feitos).

A verdade é que a morte desenha as regras da vida, a morte é a maldição humana. Quebrar leis diz-se ser eticamente incorreto, mas, se respeitá-las significa cair no esquecimento ou na inexistência eterna (lei da morte), prefiro deixar a ética de lado, desrespeitar o que é efémero e viver para sempre na cama de eternidade que é a memória.

Artigo revisto por Constança Lopes