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Indecisão

Não faço a mínima ideia sobre o que escrever. O deadline está-se a aproximar perigosamente e nada. Um vazio completo acerca-se à minha frente… Todos já passamos por isto, um momento (ou vários até) extremamente desagradável em que se acredita plenamente no falhanço. Sente-se a responsabilidade nas veias e a coluna retrai-se, num movimento instintivo, como um cão que se encolhe quando sabe que fez alguma e o dono está prestes a repreendê-lo.

Conseguem visualizar? Se estiverem com dificuldade o youtube ajuda-vos, é uma fonte inestimável de conteúdo desse tipo. Não é nenhuma crítica, é simplesmente uma constatação de um facto. Se bem que, na realidade, esse motor de busca de vídeos seja pródigo em quase todos os tipos de conteúdos (impressionante como estas plataformas praticamente se sobrepõem à memória, e há quem diga ao próprio pensamento). Não sou eu, obviamente, mas pessoas.

É engraçado como o ser humano usa expressões deste tipo para ganhar autoridade moral na defesa de um determinado argumento: há pessoas que afirmam que andar nu às 11:25 da noite previne o cancro. E se quiserem revestir ainda mais a vossa retórica acrescentem: há estudos que indicam que comer de cócoras promove a produção extra de massa muscular.

Ponto um, o facto de haver pessoas a afirmar não é garante de coisa nenhuma. Sabemos muito bem (outra forma de garantir credibilidade, o uso do plural “nós”, que, se formos a analisar, sugere uma leve esquizofrenia. Ou antes de proferir algum argumento andamos a perguntar às pessoas se concordam com um determinado ponto de vista e, se for esse o caso, se nos permitem adicioná-las ao grupo “nós” que andamos constantemente a utilizar? Ups, alonguei-me, é melhor voltarem quatro linhas acima senão perdem-se e não leem o resto. Sim, é um motivo totalmente egoísta) que a estupidez humana é uma doença incurável patente em todas as sociedades humanas da História, possivelmente mais até que a própria prostituição.

Eu próprio, assumo-o, já estive em estados de consumo após a validade recomendável, ou seja, o meu sangue já não era próprio para utilização (“cof” “cof” bebida), o que me levava a dizer coisas, querendo ser politicamente correto, estúpidas.

Ponto dois: o que realmente compõe um estudo? É preciso um objeto de análise, cientistas certificados e um método rigoroso? É que se for apenas uma observação repetida de algo sem rigor científico eu roubo uma bata da minha irmã, compro umas fresquinhas e convenço os meus amigos a produzirem a experiência número um. Se eles não tiverem cancro – constipações e pneumonias não interessam para o estudo em vigor – então já tenho um estudo para proclamar!

Agora a sério, longe de mim tentar retirar mérito a estudos científicos que roubam anos de vida e que propõem a descoberta do mundo que nos rodeia. A minha curiosidade é sobre esses estudos que toda a gente aparenta ter; eu também o faço, como é óbvio, os quais, decidi neste momento, vou começar a colocar em questão. Como? Perguntam vocês. Recorrendo a uma técnica antiga (e quando digo antiga quero dizer utilizada numa infância extremamente irritante, não para mim, mas para quem teve que me aturar) chamada “verificação factual das afirmações proferidas”, ou mais rapidamente, “e provas pá?”.

Sim, vou obrigar as pessoas a terem debaixo do braço, sempre que utilizarem este tipo de argumentos, uma compilação com os estudos a comprovarem o que estão a defender! Ok, talvez não o faça, mas não deixaria de ser engraçado; se calhar as pessoas, confrontadas com a necessidade de provas, não iriam investigar melhor e deixar de proferir sentenças vãs…

Bem já me desloquei um pouco do tema, mas dado que o tema era não ter tema pode ser que passe. Era suposto deixar agora uma mensagem de esperança ou um pensamento profundo. Infelizmente, foi exatamente por não conseguir que me propus escrever sobre indecisão e deu nisto. Portanto, se estiverem num momento em que o falhanço ou a indecisão parecem inevitáveis, assumam-no, e talvez o falhanço não seja um ato assim tão monstruoso como poderia parecer, e o resultado adjacente seja algo mais que uma derrota total. Até porque, como há quem diga por aí, “o que não tem remédio remediado está”.

Estranhamente,
Um homem com norte.

O João Garrido escreve com o novo acordo ortográfico.

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