Num exame ou numa frequência, se ao invés de nos perguntarem qual das teorias da comunicação falava acerca do destinador e do destinatário, ou se nos pedissem para falar sobre partituras invisíveis, nos perguntassem o que era, de facto, ler, as respostas e as suas correções já não seriam tão lineares e rápidas de redigir.

Tal como quando nos perguntam, de rompante, qual é o nosso filme favorito, decerto que os nossos cérebros se transformariam em gelatina deixada demasiado tempo ao sol, sem saber o que responder (a menos que já tivéssemos a resposta estudada, ensaiada naquelas noites em que o sono não chega, mas que a necessidade de dormir é muita). Confesso que, se me perguntassem hoje qual é o meu filme favorito (apesar de já ter corrido mil vezes a lista de todos os que já vi, de alto a baixo), não saberia responder. No entanto, já divaguei sobre o significado de ler vezes suficientes para ter umas duas ou três afirmações na ponta da língua – ou do dedo, neste caso.

            Em primeiro lugar, creio que a resposta não será dada de forma igual duas vezes: cada um de nós irá responder consoante aquilo que o seu coração sentir. É algo subjetivo, pessoal, íntimo, quase secreto. Algo que revelamos a custo, com medo de que alguém nos roube o sentimento que é tão nosso, que não é de mais ninguém. Ainda que as palavras escritas sejam as mesmas quando lidas por pessoas diferentes, a interpretação que delas retiramos não é a mesma. Quantas vezes já li o mesmo poema e tantas quanto essas o entendi de forma diferente. Se isto me acontece a mim, certamente acontecerá a vocês também.

Fonte: https://visualhunt.com/photo2/15237/open-book-with-coffee-cup/

Ler é um refúgio. É uma máquina do tempo. É um bilhete de ida e volta para o mundo paralelo em que só entramos nós, porque só nós é que temos a chave. É sentir na pele o que o autor escreveu com as suas mãos, como se este nos tocasse no braço, nas costas, no pescoço, no rosto. É saber que, algures no mundo, há esperança de um futuro melhor e memórias de um passado gostoso. É um sentimento sem nome, sem tamanho, sem descrição. É magia, ainda que esta não exista. É meu, é teu, é nosso. Mas não é o mesmo para todos.

            Não sei se a minha resposta estaria correta se a transcrevesse para a folha de ponto. Não sei se a de alguém estaria, aliás, ou até mesmo se este é um daqueles casos onde não há respostas corretas ou erradas. Sei apenas que ler é…

Artigo revisto por Carolina Cacito

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