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Matas-me o tempo?

Escrevo-te agora. Se é tarde demais? Sim. Mas o homem pode errar mesmo que tenha sido 10 anos depois do tempo. És e serás o meu primeiro tudo. Agora dormes como nunca o antes fizeste, em paz. Os miúdos estão bem, não te preocupes.
As paredes têm-me feito companhia, já conheço cada frecha, cada lacuna do tempo e do espaço. A mão já treme, também ela sabe que eu sem ti nunca encontro o chão, nunca estou seguro. Não posso estar.

O Fernando lá me liga (parece que burro velho aprende mesmo novos truques) de mês em mês para combinar uma almoçarada. Parece que sem a mulher ganhou uma nova vida: invejo-lhe o espírito, mas atraiçoo-lhe a sorte. Só quem nunca te teve pode querer ser agora o que nunca foi quando era suposto ser.

Agora já nem o próprio corpo reconhece, quanto mais a sociedade. Essa fugiu de nós enquanto era tempo. Com medo do fim, apagou a ponte e fechou os olhos. Se não fossem as pensões que lhes saem do bolso para pôr o pouco pão que tenho na mesa não sei sinceramente o que seria de nós.

Na verdade, e só a ti me permito confessar, não sei o que é de mim. Às vezes nem sei quem sou, tal é a desorientação. Depois o motor velho lá aquece e lembro-me mais desorientado que quando estava esquecido.

Os nossos pais ensinam-nos a ser bebés. A escola ensina-nos a ser crianças e adolescentes. A faculdade ensina-nos a transição para a idade adulta e o mundo profissional encarrega-se de nos ensinar a ser crescidos. Mas ninguém nos ensina a ser velhos. Ninguém nos diz o que é suposto fazer enquanto a morte está demasiado atarefada com outros, deixando “apenas” as dores para não nos esquecermos que, no dia de impostos, todo o povo acaba por pagar.

Acreditas que a Câmara veio agora com umas ideias do arco da velha. Não é que me quiseram convencer a aceitar uma peste infestada de hormonas em minha casa, para acabar com o pouco de sanidade que me resta?! Dizem que é um programa que pretende reduzir a solidão dos idosos. Sabem lá eles o que é solidão! Nem tu sabes, tiveste a sorte de morrer ainda viva, como foste tão afortunada. Até nisso és perfeita, raios te partam.

Sinceramente, achas mesmo que um puto que não deve estar sóbrio mais de 20 minutos por dia, ou lá o tempo que estes jovens dormem hoje em dia, me vai acudir?

Deixem-me para aqui com as paredes, elas ao menos não me apoquentam os nervos, dão-me aquilo de que eu preciso. Não fazem exigências e tem mais profundidade que qualquer miúdo que para aí me apareça.

Sim, eu já sei que achas uma boa ideia e que eu também vou com o tempo achar. Não vale a pena argumentar, não só porque não o podes fazer, mas também porque mesmo em paz sabes mais que eu aqui, perdido na vida.

Pronto, eu vou lá falar com eles e inscrevo-me; pode ser que consiga meter nem que seja um grama de juízo nessas cabeças de gente a que chamam futuro. Nós também já fomos o futuro, lembras-te? E muito melhor que este. Agora nem se olham nos olhos, sempre agarrados aquelas maquinetas, haja paciência.

Juro-te aqui, mulher, se me aparece um que não me fala direito, mando aquilo para a sanita, que é onde pertence!
Tenho outra novidade. Já não tenho os teus olhos para me dar energia, tive que recorrer ao café. Eu sei, gostavas de estar viva para ver isso. Olha, não querias mais do que eu. Que velho jarreta sentimental que para aqui ficou, valha-me Deus! Antes me valesses tu, sempre foste muito mais fiável. Enfim…

Bem, tenho que ir que a novela já está a começar. Sem ti a refilar com os escritores, enchendo a sala com pertinentes retificações de quem nunca aprendeu, mas sabe tanto, a televisão ficou mais pobre. Vai dando para matar o tempo. É uma expressão reveladora esta. Só se compreende quando se chega aqui, maldita sejas por o teu tempo ter sido precioso, e por me fazeres perder o valor do meu.

Escrevi-te agora. Se foi tarde demais? Talvez. Mas todos os homens erram e tens de perdoar este pobre velho. És e sempre serás o meu primeiro e último tudo. Vamos dormir os dois, em paz?

A poltrona faz-me companhia enquanto descanso os olhos da vida, já demasiado pesada para mim. O pensamento já treme, também ele sabe que sem ti nunca tenho o chão, quanto mais encontrá-lo. Seguras-me?

O teu Velho

O João Garrido escreve com o novo acordo ortográfico.

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