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Mein Kampf- A Minha luta e a Nossa luta

Todos nós estamos familiarizados com a expressão “A caneta é mais poderosa que a espada”. É uma verdade que muitos de nós aceitam e reconhecem pelos inúmeros exemplos que a história nos tem vindo a mostrar. Jornalistas, escritores, compositores, muitos têm sido aqueles que usam a escrita como uma arma violenta, mas não mortal; dura, mas justa. É uma questão de orgulho civilizacional, poder dizer que a diplomacia e o diálogo são superiores à força das armas e que o ser humano já se encontra noutro patamar evolutivo. Mas o que acontece quando a palavra escrita, aquela que deveria manter a espada na bainha, só serve para a afiar?

A propósito da publicação e venda do livro Mein Kampf- A minha luta (1925) numa revista semanal portuguesa, tive uma acesa discussão com uma colega e amiga acerca da idoneidade e do risco de colocar tal obra à disposição da população geral. Na sua opinião, este livro deveria ser contido e o seu acesso limitado a bibliotecas ou locais de estudo apropriados. O seu argumento: o livro contém informação e ideias demasiado perigosas para que estivesse ao alcance de qualquer pessoa. É verdade que se trata de um livro que não é igual aos outros, mas até que ponto é diferente? O que esta pessoa sugeria era, nas suas palavras, “não uma censura ou Index, mas um controlo apertado da sua circulação”. Estamos, portanto, a falar por eufemismos. Mas tais eufemismos são necessários, já que vivemos numa sociedade democrática e a censura é proibida e repudiada por todos. O que fazer, então, quando os interesses da sociedade democrática (a não disseminação dos ideais racistas, xenófobos e bélicos) colidem com os seus próprios fundamentos, como a liberdade de expressão e a livre circulação de ideias?

Foi aí que chegámos a um ponto fundamental da nossa discussão. Livros como o Mein Kampf só deveriam ser manipulados e lidos por pessoas com certo nível de instrução, uma vez que pessoas menos instruídas e cultas seriam mais permeáveis à ideologia nazi e, consequentemente, terreno fértil para a disseminação da mesma. Para ela, os livros perigosos deviam estar vedados a quem não estaria, supostamente, apto para a compreensão interpretação do conteúdo do livro. Tais livros deveriam ser colocados em locais procurados apenas por pessoas cultas e com estudos, como bibliotecas e centros de investigação, e tratados como objetos de alto risco. Agora, não estamos com isso a vedar o conhecimento às pessoas? Ao tentar proteger a democracia estamos a ignorar os valores que ela mais preza e pelos quais tanto lutámos, estaríamos a minar os fundamentos na qual esta foi edificada.

Os livros são um pedaço da história e da cultura e não podemos negar o direito de acesso àquilo que faz parte da nossa essência. Nenhum livro é mau, assim como nenhum cão é cruel- ele é aquilo que quem o orienta fizer dele. O mesmo se passa com os livros- o que fazemos com a informação contida nos mesmos é que importa e, para o bem e para o mal, a literatura tem um papel fundamental na construção do ser humano. A literatura molda-nos no sentido em que nos ensina novos conceitos; faz-nos sentir novos sentimentos; obriga-nos a refletir sobre o mundo; abre-nos novos horizontes. O poder da literatura está nesta facilidade com que nos consegue tocar: quem não se lembra do livro da sua vida e a maneira como ele nos transformou?

Temos, portanto, de combater o fogo com fogo. Devemos defender os nossos valores democráticos e usar a literatura e a cultura para combater a ignorância e intolerância. Temos de dar oportunidade às pessoas de se instruir, de conhecer, de ler, temos de cultivar nas pessoas um espírito crítico ativo e insatisfeito para que possamos criar uma sociedade mais culta e avançada. Censurar o mal para proteger o bem à custa da liberdade das pessoas não pode ser o caminho; devemos dar as ferramentas às pessoas para que elas próprias tenham maneira de se defender.

Afinal, quanto vale um livro? Um livro é uma arma, um livro é um escudo, um livro é uma ferramenta. Um livro destrói a ignorância, defende a liberdade, constrói personalidades. Assim sendo, a nossa luta é pelo futuro da humanidade, e a humanidade está escrita nos livros.

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