Moonlight: “À luz do luar, os rapazes negros parecem azuis”.

“Moonlight: Sob a Luz do Luar”, do realizador Barry Jenkins, é uma narrativa em três atos que acompanha um rapaz negro dos subúrbios de Miami durante as diferentes fases da sua vida – infância, adolescência e vida adulta.

No primeiro ato, conhecemos Chiron (Alex R. Hibbert), um miúdo que tem a alcunha de “little” (pequeno) e é importunado por outras crianças da sua idade. Num dos episódios em que o pequeno Chiron tenta escapar destes bullies, acaba por conhecer Juan (Mahershala Ali), um traficante de droga. Neste primeiro ato, Juan funciona como uma figura paternal para o rapaz, visto que, em casa, a mãe de Chiron sofre de problemas com drogas, o que dificulta a relação entre os dois.

A personagem de Juan tem a particularidade de conseguir desmantelar os estereótipos em relação a homens negros adultos, principalmente àqueles que estão ligados a atividades criminosas. Juan não é um “bad boy”, é um homem que, apesar das suas falhas, consegue transmitir a uma criança o conforto de um bom ambiente familiar, deixando que este frequente a sua casa sempre que precise e apresentando-o à sua companheira Teresa (Janelle Monáe). É, aliás, entre Juan e Chiron que assistimos a um dos diálogos mais marcantes de todo o filme.

Chiron: o que é um “maricas?”

Juan: é uma palavra usada para fazer com que os homossexuais se sintam mal.

Chiron: eu sou maricas?

Juan: podes ser homossexual, mas não tens de deixar que te chamem “maricas”.

No segundo ato, Chiron (Ashton Sanders) é agora um adolescente. As dificuldades pelas quais passou em criança mantém-se e, de certa forma, agravam-se. O jovem atravessa a fase de autodescoberta típica da adolescência e continua a sofrer de bullying devido à sua sexualidade, além de ter cada vez mais problemas com a sua mãe. Sem uma vida familiar estável, Chiron vê-se sem um sistema de apoio e sofre bastante com isso. É apenas através de um pequeno romance com Kevin (Jharrel Jerome) que o jovem consegue experienciar uma relação afetiva.

É neste ato que assistimos à qualidade da realização de Barry Jenkins aliada à excelente fotografia de James Laxton – os planos próximos de Chiron deixam-nos cara a cara com o transbordar de emoções que o jovem sente, sem que este diga uma única palavra.

No terceiro ato, Chiron (Trevante Rhodes) já é adulto e tem a alcunha de “Black”. As primeiras cenas deste terceiro e último ato revelam a transformação de Chiron e a diferença na sua postura – já não é um jovem tímido e retraído, é um adulto forte e robusto fisicamente. É neste ponto que nos perguntamos: terá Chiron mudado mais do que a sua aparência?

A resposta é-nos dada quando Chiron, agora Black, visita a sua mãe. A cena entre os dois demonstra que Chiron continua a ter dentro de si um conjunto de emoções fortes e que não tem medo de as deixar transparecer. Mais uma vez, Barry Jenkins recorre à fórmula que utilizou para construir a personagem de Juan – Black é um negro adulto de postura firme, mas capaz de ter em si os sentimentos mais puros.

Na etapa final do filme, Chiron combina encontrar-se com o rapaz com quem se envolveu na adolescência – os dois passam tempo juntos e Chiron confessa nunca ter estado com outro homem. Não ficamos esclarecidos sobre o futuro da relação entre os dois, mas ficamos tão envolvidos na história de Chiron que acabamos por desejar que tenha o final feliz que merece.

Em Moonlight, o argumento é construído minuciosamente e a realização de Barry Jenkins utiliza isso da melhor forma. As cenas onde o diálogo é inexistente são prova de que a comunicação é tão ou mais expressiva quando não são proferidas quaisquer palavras. A banda sonora, composta por Nicholas Britell, embala a fotografia de James Laxton na perfeição. Moonlight parece-se mais com uma sinfonia do que com um filme e é por isso que nos envolve e permanece na nossa memória muito depois dos créditos rolarem.

A obra de Barry Jenkins arrecadou três das oito estatuetas para as quais estava nomeada: Melhor filme, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Ator Secundário (Mahershala Ali). A grandeza de um excelente filme não se mede especialmente pelos prémios que alcança, mas, no caso de Moonlight, a vitória é um marco importante para a história do cinema americano – é o primeiro filme a retratar um jovem negro como sendo homossexual e é o primeiro filme cujo elenco é composto apenas por negros, por exemplo.

Mas Moonlight não representa só uma minoria – representa aqueles que já tiveram problemas em sentir-se bem na sua própria pele. Moonlight representa-nos a todos.

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