Opinião

Não é só meter uma cruzinha

No passado dia 1 de outubro, votei pela primeira vez na condição de cidadão deste país à beira-mar espojado, à espera de que um tsunami o livre deste triste fado. Já tinha votado na condição de cidadão sportinguista e, apesar de ter ficado um pouco pretensioso na altura, não se compara à força do sentimento no momento do meu voto nestas autárquicas.  Meter aquelas cruzinhas fez com que eu pensasse ter, por algumas horas, um doutoramento em Ciências Políticas: “Claro que candidato x obteve x por cento dos votos; então ele não fez isto, aquilo e aqueloutro? Por isso é que blá blá blá”, afirmo, apaixonadamente, enquanto são divulgados os resultados.

Para além disso, esse momento foi-me “vendido” como uma espécie de batismo, de legitimação da minha maioridade e responsabilidades adjacentes a essa condição. Aliás, fez-se questão de que eu fosse votar logo de manhãzinha, acompanhando os meus avós e outra veterania. Percebi a intenção, mas não se fez muito caso disso.

De qualquer maneira, fiquei relativamente orgulhoso por ter votado, porque senti que cumpri um dever enquanto cidadão. Isso, em certa medida, é tranquilizador, pois, apesar de o meu voto ser só um, fiquei com a ideia de que o resultado das eleições seria diferente caso não tivesse cumprido o   meu dever.

Contudo, há quem tenha a opinião de que pode prescindir-se do direito ao voto quando tal for conveniente; não como forma de protesto (algo que é, até certo ponto, relativamente legítimo e compreensível), mas como desculpa por ser-se preguiçoso. Há membros da minha família que não votaram por esse mesmo motivo, sendo que um deles não vota há pelo menos dois anos. Como forma de se justificar, disse que não votar também é um direito. Compreendo e concordo com esse ponto de vista, mas, por certo, este familiar não votou como forma de protesto, até porque sei que não sabe o suficiente para o legitimar. Eu também tenho de admitir que o meu voto não foi muito bem planeado. Por isso, peço desculpa. Peço desculpa também por ser um idealista e um hipócrita, na medida em que, na minha opinião, quem não tiver grande noção sobre em quem votar deve abster-se de fazê-lo. O problema é que, caso assim fosse, quase ninguém votaria. Da mesma forma, o nível de self-awareness (autonoção em português, algo que soa mesmo muito mal), que os portugueses precisariam de ter para que algo do género acontecesse é inalcançável. Nem mesmo se o Éder nos desse o Mundial isso aconteceria. Somos demasiado orgulhosos.

Independentemente do motivo pelo qual não se vota, não votar é, por si só, mau, especialmente quando quem vota não o faz por meio de divina reflexão— o que faria essa pessoa perceber que não faz ideia nenhuma de quem vai a votos.

Além disso, embora o momento do voto seja algo individual, uma vez que eu voto por mim mesmo (à partida), o percurso que me leva a chegar à decisão de votar no candidato x é sempre algo dependente de fatores externos: quer seja por uma dica deixada pelos familiares (que dizem para votar naquele candidato porque é “bom rapaz ou rapariga”), quer seja por aquilo que ouvimos o comentador mediático y dizer, ou, até mesmo, pelos argumentos apresentados pelos candidatos durante aquelas peixeiradas descomunais disfarçadas de “debates”. De igual modo, pensamos muito enquanto rebanho e, como tal, se soubermos que um amigo vai votar em determinado partido é provável que também votemos, sobretudo se estivermos indecisos. Não quero dizer que isso aconteça obrigatoriamente: entre jovens acredito que seja menos frequente, mas é prática corrente entre gente mais velha. Os meus avós são exemplo disso.

Com isto quero dizer que, se o voto for combinado entre muitas pessoas, o efeito “bola de neve” poderá ser tão grande que existirá a possibilidade de levar a resultados inesperados e indesejados.

O resultado das eleições americanas do ano passado ilustra bem esta ideia. A candidatura de Donald Trump começou por ser um meme, e não foi levada a sério. Na qualidade de conhecedor da mentalidade de quem gosta de um bom meme, sou da opinião de que muita gente votou em Trump pensando que ele iria ser dizimado nas primárias republicanas. Mas Trump ganhou as primárias. No seguimento desse raciocínio, a esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social americanos, ao nunca ter levado a sério a candidatura de Donald, foi dando Hillary Clinton como vencedora das eleições, por larga margem. Isto, certamente, passou a ideia de que a vitória de Clinton era um dado adquirido e fez com que muitos eleitores se tivessem dado ao luxo de não votar, confiantes na vitória da candidata democrata. “Virou merda”, como dizem no Brasil.

Em jeito de conclusão gostaria de reiterar o facto de que votar é algo de extremamente importante, em particular quando o eleitorado está bem informado. Assim sendo, peço-vos que não votem num certo partido só porque tem piada, senão um dia acordam com o PNR como terceira ou quarta força política. Só não digo primeira porque, para isso, os mais velhos teriam de gostar de memes, ainda que, provavelmente, alguns votassem nesse partido sem reconhecer ironia ao ato. Se o André Ventura teve 20 por cento dos votos no meu concelho, até eu era eleito para um qualquer cargo. Mas ser eleito não depende de mim. De resto, stay woke, comam sopa, etc. Quem comete o erro de ler as minhas coisas já sabe quais são as minhas falinhas mansas. Será que mudo de discurso no próximo artigo? Não percam o próximo porque eu também não, visto que sou eu que escrevo. Devia ter vergonha de fazer publicidade num artigo de opinião. Triste!

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