Nem a morte os separa

Fernando Pessoa morreu e esqueceu-se de levar consigo Ricardo Reis. Pouco depois da morte do mestre modernista, um rapaz de 17 anos conheceu um médico poeta na biblioteca da escola industrial. O tempo também levou este rapaz. No entanto, o tempo trouxe-os a todos de volta. O encontro acontece no palco do teatro A Barraca de quinta a domingo.

Baseado no livro que José Saramago publicou não aos 17 mas aos 62 anos, 1936: O Ano da Morte de Ricardo Reis é um espetáculo sobre o último ano de vida de um dos mais conhecidos heterónimos pessoanos. A peça conta os principais acontecimentos históricos nacionais e internacionais do ano de 1936, que se cruzam com a vida do recém chegado a Lisboa Ricardo Reis.

Depois de saber da notícia da morte de Fernando Pessoa, o discípulo de Caeiro deixa o Brasil e instala-se no Hotel Bragança, em Lisboa. Mas, contrariando as expetativas, Pessoa não descansa no cemitério dos Prazeres. Ninguém cala Pessoa, nem a morte. Muito menos quando o poeta sabe do desvio de personalidade da sua criação.

Este é um Pessoa diferente. A timidez, solidão e melancolia com que habitualmente é retratado foram postas de lado, dando espaço a um lugar desconhecido da personalidade do poeta múltiplo. No espetáculo de Hélder Mateus da Costa, Fernando Pessoa (Ruben Garcia) é nervoso e irritante. É repetitivo e mecânico. É exuberante, excêntrico, irónico e arranca mesmo umas gargalhadas ao público.

Ricardo Reis (Adérito Lopes), que saiu dos papéis de Saramago e que ganha vida no palco, conquista autonomia em relação ao seu “pai”. Esta emancipação é especialmente notória na relação que a personagem desenvolve com as figuras femininas. Reis enlaça mais do que as mãos com Lídia (Sónia Barradas), uma criada de quarto de hotel, que dá lições de dignidade ao senhor doutor.

Com a mesma despreocupação que dirige às relações românticas, o médico monárquico abre e fecha jornais, liga e desliga a rádio. Este é um ano de muitos acontecimentos. Dentro de casa há uma mão de ferro calçada com uma luva de veludo, apagam-se as velas ao 28 de maio, os vizinhos têm uma guerra civil à porta e outro conflito armado ainda maior está em gestação no ventre da Europa.

“Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do ceticismo elegante. Desfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria…”, diz Saramago a Pessoa e o teatro recorda ambos com um brinde à imortalidade.

Esta peça está inserida num ciclo de homenagem ao nobel português da literatura. Para além de 1936: O Ano da Morte de Ricardo Reis, que está em exibição até ao dia 11 de dezembro, os atores da companhia “A Barraca” deram ainda vida ao romance Claraboia e ao Conto da ilha desconhecida, este último ainda em cena.

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