Literatura

O caso peculiar da escritora que não deixou Stephen King pregar olho

“Não sei quem és, Paula Hawkins, mas mantiveste-me acordado a noite inteira!” – é assim que o “rei do terror” descreve aquela que foi apelidada como a escritora do “próximo Gone Girl”. De Harare a Londres. De The Money Goddess a The Girl On The Train. Afinal, quem é a autora que, em apenas um ano, vendeu mais de 11 milhões de exemplares do seu primeiro livro?

Lia livros de Agatha Christie quando era adolescente e desenvolveu um gosto acentuado pelo género criminal devido a The Secret History, de Donna Tartt. Hoje em dia, Kate Atkinson, Tana French, Harriet Lane, Megan Abbot e Gillian Flynn são as suas referências na literatura e, surpreendentemente, Paula Hawkins consegue ser humilde ao ponto de não se considerar per si um símbolo no panorama literário atual.

Trabalhou como jornalista durante quinze anos no The Times e, em 2006, aventurou-se nos meandros da escrita. No entanto, foi em 2014 que deu um passo em frente e, com o auxílio financeiro do seu pai, permaneceu seis meses em casa, dedicando-se exclusivamente à escrita daquele que considera ser o seu verdadeiro primeiro livro, já que não se identificava minimamente com a chick lit (género de ficção mais leve e divertido, direcionado ao público feminino, que tece um retrato das mulheres modernas e independentes) que escrevera anteriormente, sob o pseudónimo de Amy Silver.

A ESCS MAGAZINE esteve à conversa com aquela que já é considerada uma das maiores revelações literárias do séc. XXI.

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ESCS MAGAZINE: Nasceu e viveu no atual Zimbabué até aos 17 anos. Como é que isso moldou a sua personalidade e até que pontou influenciou a sua escrita?

Paula Hawkins: Eu acho que o facto de ter crescido no Zimbabué, e ter-me mudado para outro país, deu-me a perspetiva de uma forasteira, de uma intrusa, algo que é extremamente útil para uma escritora.

ESCS MAGAZINE: O seu pai foi professor de Economia e jornalista financeiro. Pode dizer-se que a Paula seguiu as suas pisadas?

Paula Hawkins: Até certo ponto – embora fosse algo que não pretendesse. O meu interesse pelo jornalismo surgiu devido àquilo que o meu pai e muitos dos seus amigos faziam – mas jornalismo financeiro não era aquilo que desejava fazer inicialmente. Pode dizer-se que foi uma atividade na qual tropecei.

ESCS MAGAZINE: Quando semudou para Londres, em 1989, sentiu que a sua adaptação foi muito complicada ou integrou-se facilmente?

Paula Hawkins: Foi difícil nos primeiros tempos. Constituiu um choque cultural e também tinha deixado para trás um grande grupo de amigos no Zimbabué e a sua ausência era terrível para mim. Até ingressar na universidade, não me sentia em casa vivendo em Inglaterra.

ESCS MAGAZINE: Estudou Filosofia, Política e Economia no Keble College, Universidade de Oxford. Acredita que essa Licenciatura a auxiliou a encarar o mundo através de outra perspetiva?

Paula Hawkins: Não tenho a certeza se mudou radicalmente a minha perspetiva ou se a consolidou. Escolhi as cadeiras que me interessavam, como Política Africana ou Filosofia da Mente.

ESCS MAGAZINE: Escreveu diversos livros sob o pseudónimo de Amy Silver, como The Reunion ou All I Want For Christmas. Passou de livros considerados chick lits mas complexos, para um thriller psicológico. Como é que se deu essa mudança?

Paula Hawkins: O primeiro livro que escrevi sob um pseudónimo foi encomendado – foi-me dada uma estrutura narrativa, bem como personagens, e pediram-me que expandisse esse material e o tornasse num romance. Foi uma forma bastante estranha de escrever um livro! Depois disso, continuei a escrever chick lits, mas nunca me senti confortável nesse género.

ESCS MAGAZINE: Dividiu o The Girl On The Train em POVs (points of view). Acredita que essa estratégia cativou os leitores porque, contrariamente à divisão tradicional através de capítulos, obrigou-os a pensar e interligar todos os conteúdos e memórias?

Paula Hawkins: Eu acho que permitir que os leitores vejam o mesmo incidente a partir de diferentes perspetivas os puxa para dentro da história, porque têm de ter uma visão: têm de decidir em quem acreditar e em quem confiar. Necessitam de realizar algum trabalho de investigação por si mesmos, digamos assim.

ESCS MAGAZINE: O seu livro é um fenómeno mundial. A Paula foi capaz de colocar uma mulher aparentemente frágil como personagem principal e que, no fundo, acabou por criar uma gigantesca rede de interações com todas as outras personagens. Pensar em cada detalhe da história constituiu um processo exaustivo ou tudo fluiu naturalmente?

Paula Hawkins: Algumas partes da história fluíram naturalmente, outras tiveram de ser trabalhadas e desenvolvidas ao longo do tempo. A estrutura do livro é bastante complexa, por isso, tive que me certificar de que as coisas encaixavam perfeitamente, de uma forma que não iria confundir os leitores e essa tarefa foi árdua.

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Figura 1 – Edição Inglesa             Figura 2 – Edição Portuguesa

ESCS MAGAZINE: Já afirmou noutras entrevistas que não esteve envolvida na adaptação cinematográfica do livro, no entanto, sente-se plenamente satisfeita com a mesma?

Paula Hawkins: Sim. É uma adaptação cinematográfica fiel ao livro. As performances – particularmente, as da Emily Blunt e da Haley Bennett – foram muito boas.

Trailer oficial

ESCS MAGAZINE: Está a escrever o seu segundo livro: os seus leitores podem esperar muitas surpresas e uma “montanha-russa” de emoções como em The Girl On The Train?

Paula Hawkins: Espero que sim! É um livro muito diferente – tem muitas mais personagens e centra-se mais nas relações familiares e num senso de comunidade. Mas é um romance de suspense, com muitas voltas e reviravoltas e, creio, personagens que deixarão os leitores intrigados e que desafiarão as suas expetativas.

ESCS MAGAZINE: Habitualmente, é comparada a Gillian Flynn e, Rachel Watson, a Amy Dunne. Considera essa analogia adequada ou prefere distanciar-se dela?

Paula Hawkins: Sou uma grande fã do trabalho de Gillian Flynn. Penso que as pessoas escolheram estabelecer paralelismos entre o Gone Girl e o meu livro porque ambos possuem como protagonista uma mulher difícil, desafiadora e duvidosa. Mas, na verdade, Amy e Rachel não poderiam ser mais distintas. Amy é manipuladora e desonesta, puxa todas as cordas. Rachel, por outro lado, não controla nada.

ESCS MAGAZINE: Ao ler The Girl On The Train, uma determinada banda sonora formou-se  na minha mente, incluindo músicas como a “Heartless” dos The Fray, que acabou por surgir no trailer oficial. Enquanto escrevia o livro, existiram algumas músicas que a acompanharam?

Paula Hawkins: Nem por isso, gosto de escrever em silêncio.

ESCS MAGAZINE: Que conselhos daria a jovens escritores e jornalistas que aspiram a uma carreira nos universos dos media e da ficção?

Paula Hawkins: É um negócio extremamente difícil – a maioria dos escritores nem consegue ganhar o suficiente para viver. Então, precisas de estar preparado para isso. É uma coisa chata de se dizer, mas trabalho árduo e perseverança são as chaves para o sucesso. Tenta escrever algo todos os dias. Lê muito e vorazmente. Se puderes, vai a festivais e fala com outros escritores. Mostra o teu trabalho a alguém em quem confies: não podes fazer isto sozinho.

ESCS MAGAZINE: O que é que ainda lhe falta fazer?

Paula Hawkins: De momento, tudo o que quero é terminar de escrever o meu segundo livro…!

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