Never Have I Ever – uma comédia que cumpre o seu dever

Eu Nunca” chegou à Netflix a 27 de abril deste ano. Composta por dez episódios de duração entre os 22 e os 30 minutos, é uma comédia juvenil que tem, efetivamente, piada. Depois de nos habituarmos ao tipo de humor, damos por nós a esboçar sorrisos constantes. A ação decorre no ensino secundário, pelo que muitos dos acontecimentos nos são familiares. Talvez por isso seja fácil estabelecer uma conexão entre a série e o espectador.

Devi Vishwakumar (retratada por Maitreyi Ramakrishnan) é a personagem principal. Filha de pais indianos, nasceu nos Estados Unidos da América. Apesar de respeitar algumas tradições indianas, não esconde a californiana em si. Aos 15 anos, vive o primeiro dia de aulas do 10º ano. A sua vida não tivera sido fácil até à data: no ano anterior, o seu pai, Mohan (por Sendhil Ramamurthy), que idolatrava, sofreu um ataque cardíaco enquanto assistia ao concerto da banda de Devi. Infelizmente, não resistiu. Com o choque, as pernas de Devi paralisaram, o que a prendeu a uma cadeira de rodas durante um trimestre.

A protagonista passou a ser a miúda indiana cujo pai morreu na escola, em frente a toda a gente, e que, pouco tempo depois, passeava pelos corredores de cadeira de rodas. Qualquer pessoa que já tenha testemunhado o que é frequentar o ensino secundário sabe o quão difícil terá sido. A chacota está sempre presente, assim como a maldade dos adolescentes. Excluída e no polo oposto dos ‘populares do liceu’, encontra o apoio necessário nas suas melhores amigas: Fabiola Torres (por Lee Rodriguez) e Eleanor Wong (por Ramona Young). Deixo-vos, para já, o trailer.

            Para compensar a tragédia que foi o ano que passou, Devi elaborou um plano: está na hora de serem consideradas populares. Para tal, teriam de mudar a personalidade e, acima de tudo, arranjar namorados. Esta cruzada ocupa os primeiros episódios e demora a dar frutos, mas acaba por resultar, à sua maneira. A questão é que Devi não quer um namorado qualquer. Há muito tempo, o seu coração tivera sido roubado por Paxton-Hall Yoshida (por Darren Barnet), o rapaz mais bonito da secundária de Sherman Oaks. Sonhos modestos, portanto.

Fonte: Netflix/Divulgação
Da esquerda para a direita, eis as três melhores amigas: Fabiola Torres (interpretada por Lee Rodriguez), Eleanor Wong (por Ramona Young) e, claro, Devi Vishwakumar (por Maitreyi Ramakrishnan).

Para além das bff’s, a terapeuta Jamie Ryan (por Niecy Nash) também ajuda a apanhar os cacos. Os diálogos entre as duas são particularmente engraçados. Chega até a dar pena vermos tão pouco das sessões de terapia. Um dos assuntos discutidos nas mesmas é a competitividade inevitável entre Devi e Ben Gross (por Jaren Lewison), o seu arqui-inimigo. Há anos que ambos lutam para serem o melhor aluno da turma, acabando por ganhar uma animosidade fora da sala de aula.

A série foi criada por Lang Fisher e Mindy Kaling. Esta última é uma atriz, principalmente conhecida pelo seu papel em The Office. O seu crescimento inspirou parcialmente o roteiro da personagem principal, Devi. Os estereótipos asiáticos caem por terra e a representatividade tem uma presença assídua – quer em termos de orientação sexual, etnia ou até outros handicaps sociais. 

            Um dos pontos positivos de “Never Have I Ever” é o facto de cada personagem ser interessante por si só. Vamos conhecendo cada uma aos poucos e percebendo a sua forma de agir, como acontece com Kamala (por Richa Moorjani), a prima de Devi, que se muda para sua casa temporariamente, enquanto completa o seu doutoramento. Carismática e aventureira, Kamala traz uma alegria à casa que estaria em falta se esta apenas fosse habitada por Devi e a sua mãe, Nalini (por Poorna Jagannathan).            

Ao explorarem a relação quebrada entre Devi e a mãe, revelam mais uma das consequências da perda do patriarca. Em fases difíceis como a adolescência e a menopausa, a casa torna-se muitas vezes um campo de batalha. O desfasamento proporcionado pela cultura indiana (ou a falta dela) também propicia várias discussões. Não deixa, no entanto, de ser curioso podermos, ao ver uma série de comédia, ficar a saber mais acerca desta cultura. Desde casamentos arranjados ao hinduísmo, é o contraste evidente entre a cultura ocidental e a cultura indiana, quando menos esperávamos. 

Fonte: Netflix/Divulgação
Há todo um episódio focado na cultura indiana, no qual decorre o Ganesh Puja, o festival hindu em honra do Deus Ganesh (com cabeça de elefante).

            Os episódios são narrados por John McEnroe, um ex-tenista norte-americano, que atingiu o auge da carreira nos anos 80, chegando a ser o número um mundial. Para não ser considerada uma adição aleatória, incorporaram-no na história: era o tenista preferido do falecido pai de Devi. Assim, a sua voz acaba por ser um elemento familiar. Contudo, a razão principal prende-se com Mindy Kaling, pois os seus pais eram grandes fãs de ténis e deste tenista em particular. Há um episódio, porém, que é narrado por outra pessoa: Andy Samberg, protagonista de Brooklyn Nine-Nine. A meu ver, a sua voz enquadra-se mais no contexto da série que é.

            Em suma, é uma série bem disposta que não se torna monótona nem cansativa (também devido à curta duração dos episódios), com uma boa banda sonora e que traz um sentimento de nostalgia. É como se estivéssemos a viver a nossa adolescência novamente – exceto a típica experiência de High School americana, como as festas em casarões. A 1 de julho, “Never Have I Ever” foi renovada para a segunda temporada, embora ainda não tenha data de estreia definida. Podemos contar com mais desgostos amorosos, momentos vergonhosos e constrangedores e, acima de tudo, muitas gargalhadas.

Artigo revisto por Ana Rita Sebastião

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