O caos interior de uma estrela que não dança

Lembro-me da primeira vez que ouvi a melodia nostálgica das nove faixas que compõem a mixtape de estreia de Abel Tesfaye – o qual o mundo todo conhece como The Weeknd – House of Balloons. Toda a letra, toda a composição instrumental, todo o ambiente daquela casa insuflável era perfeito, o que fez com que todos os que ouviram esta obra prolongassem a estadia por mais duas mixtapes: Thursday e Echoes of Silence. Kiss Land foi o primeiro álbum de estúdio do artista canadiano, que não se desviou muito dos sons aos quais nos tinha habituado, mas não nos convenceu totalmente.

Beauty Behind The Madness marcou o início de um novo Abel: um som mais pop, mais para as massas, que não desprezava a boa produção, mas deixava de lado o ambiente sombrio a que nos havia habituado. Os singles lançados foram todos bem-sucedidos, entre os quais se destaca “Can’t Feel My Face” e “The Hills”. Esta mudança não foi passageira, e, em 2016, vimo-lo a lançar a melhor música do ano – “Starboy” (com a participação dos Daft Punk), na altura em que anunciou um novo álbum com o mesmo nome. Ficamos com a sensação de que a liberdade artística de The Weeknd continua, mas condicionada pelo seu novo público que captou, visto que deve o seu estrelado ao mesmo. Neste universo de estrelas, Tesfaye já está no céu, mas não brilha com este álbum.

O álbum está longe de ser mau, mas é o pior trabalho do canadiano enquanto projeto de estúdio. É coerente, mas as suas dezoito faixas, que resultam em mais de uma hora de música, cansam o ouvinte, pois chegamos ao fim do álbum com a sensação de que ouvimos apenas uma ou duas longas músicas de down-tempo eletrónica: são mais as faixas que são indiferentes, do que as que se destacam pela positiva.

“Starboy” começa esta aventura. Com uma excelente produção, letra cativante e um refrão simples, mas icónico, torna-se, como já disse, uma das músicas que ficará na história de 2016. A primeira faixa é a melhor do álbum, e a segunda faixa é a segunda melhor: “Party Monster” inicia uma rampa em direção ao inútil que o álbum nos tem para mostrar, inutilidade que se inicia com “Six Feet Under” (em que Future ajuda com os seus vocais caraterísticos). Desde esta, que é a décima faixa, até à décima-oitava – “I Feel It Coming” (o álbum inicia e termina com a dupla francesa) – só a última se aproveita individualmente.

O álbum está recheado de faixas que têm tudo para se tornar singles de sucesso: “Party Monster”, “False Alarm” e “Rockin’”. Uma das melhores alturas do álbum é o único interlúdio, que conta com a participação fantástica de Lana del Rey. “Stargirl Interlude” é o principal motivo pelo qual vale a pena ouvir a primeira metade do álbum, e fazer o esforço para não adormecer com “True Colors”.

Dezoito faixas depois, ficamos sem perceber qual o legado que The Weeknd quer deixar como artista: se a fábrica de singles pedidos pela editora, ou se o songwriter inteligente que consiga colocar letras com luz própria em produções não previsíveis e que as saiba conjugar num álbum que brilhe. No auge da sua carreira, The Weeknd já não precisa de dar justificações a ninguém; porém, talvez precise de saber até quando não precisa de as dar. Se Starboy não convenceu, vale a pena continuar a ser uma estrela?

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