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O Esplendoroso Iñárritu

Foi preciso esperar mais de 60 anos para que um realizador voltasse a levar para casa a estatueta da Academia por um segundo ano consecutivo. Em 2016, na 88.ª edição dos Óscares, Alejandro González Iñárritu foi o homem responsável por esse feito, com um notável trabalho em The Revenant, repetindo a galardoação que já havia conquistado em 2015 com Birdman.

Nascido a 15 de agosto de 1963, na Cidade do México, Iñárritu não teve uma juventude fácil. Foi expulso da escola antes dos 16 anos e logo de seguida decidiu trabalhar como marinheiro para se poder sustentar. Contudo, apesar das circunstâncias que levaram o realizador a optar por este emprego, as viagens que fez ao continente europeu e africano ficarão para sempre marcadas na sua memória, uma vez que lhes atribui uma influência nuclear na sua carreira como realizador e no modo como prepara os cenários das suas produções, muito graças às paisagens icónicas que vislumbrou. Após deixar o seu trabalho como marinheiro, Iñárritu entrou na Universidad Iberoamericana, na sua cidade natal, onde estudou comunicação, acabando o seu curso em 1984. Nesta altura também exercia funções de disc jockey na maior estação de rádio mexicana, compondo várias playlists que, segundo ele, espelhavam uma narrativa não linear e que o levaram a ganhar interesse por contar histórias.

Esse mesmo interesse foi capitalizado no início da década de 90 com a criação dos estúdios Z Films, juntamente com Raúl Olivera, onde ambos produziram dezenas de curtas-metragens e filmes publicitários. O sucesso dos Z Films foi de tal modo notório que levou Iñárritu a realizar o seu primeiro filme para o grande ecrã, no ano de 2000. Amores Perros, assim chamado, foi uma colaboração com o produtor Guillermo Arriaga, com quem estabelecera uma relação de amizade nos seus tempos de DJ, e que alcançou reconhecimento além-fronteiras – aclamado pela crítica aquando da sua estreia no festival de Cannes e nomeado para Óscar para melhor filme estrangeiro na edição de 2001.

Amores Perros serviu de catapulta para a internacionalização do seu nome. Em 2003 regressou com mais uma longa-metragem, 21 Grams, onde tornou a colaborar com Arriaga, voltando a receber críticas positivas pela sua realização. Esta dupla voltou a demonstrar as suas qualidades criativas quando em 2006 lançou Babel, filme que contou com um elenco de luxo (Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal) e que foi nomeado para sete categorias dos prémios da Academia, incluindo o de Melhor Realizador para Iñárritu (e o de Melhor Argumento Original para Arriaga). Contudo, a relação de trabalho entre os dois mexicanos não era das mais saudáveis, dado que Iñárritu, por várias ocasiões, impediu que Arriaga estivesse presente nas filmagens para Babel, o que veio ditar um inevitável ponto final nas suas colaborações, pouco tempo depois da estreia do filme.

Iñárritu continuou a produzir a solo, e em 2010 foi novamente elogiado pelo seu trabalho em Biutiful, o seu primeiro filme totalmente em espanhol desde Amores Perros. Biutiful, que contou com Javier Bardem no papel principal, valeu-lhe a segunda nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, e ainda uma nomeação para o Palme d’Or do festival de Cannes. É a partir da segunda década deste século que Iñárritu verdadeiramente salta para a ribalta, graças à sua inovadora realização em Birdman, onde a narrativa é transmitida ao público quase sem cortes, acompanhada pelos sons de uma bateria, e à fantástica cinematografia em The Revenant, onde Iñárritu torna a procurar formas de romper as barreiras da realização tradicional de Hollywood. O resultado destes seus trabalhos já vos foi dito na introdução deste artigo – dois Óscares de Melhor Realizador garantidos de forma consecutiva.

Iñárritu vincou a sua posição como um dos melhores e mais inovadores realizadores da atualidade e tendo em conta a forma como tem revolucionado o mundo da 7.ª arte com a sua magnífica e esplendorosa realização é quase certo que o seu próximo filme vai agradar à crítica e espantar audiências mais uma vez. É esperar para ver, mas o que já é garantido é que Alejandro G. Iñárritu veio para ficar.

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