O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO E A OBRA-PRIMA DE SARAMAGO

Saramago é, para todos nós portugueses, uma referência no que toca à literatura. Se há quem adore a sua obra, também há quem não entenda a sua essência, a sua forma única de escrever.

A falta de pontuação e a coloquialidade com que escrevia são, sem dúvida, os seus pontos mais caraterísticos. Uma obra de Saramago não é uma obra para “passar o tempo”. É, sim, uma obra que dá trabalho a ler: temos de voltar a ler o parágrafo confuso, de interpretar as suas frases como um diálogo constante – ainda que não esteja assinalado como tal – e imaginarmo-nos à sua frente, como se de uma conversa de domingo à noite se tratasse.

 Confesso que, no 12º ano, quando me foi apresentado o “Memorial do Convento”, detestei. Não consegui gostar da forma como a história se contava. A sua moral não me convenceu e a única coisa que lhe dava pontos era realmente o seu caráter satírico. No entanto, como adoro literatura, decidi dar mais uma oportunidade ao prémio Nobel no verão, lendo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”.

 O caráter satírico continuava presente e, tratando-se de uma história com a qual já estava familiarizada (a história de Jesus Cristo), consegui entender o seu caráter coloquial e, com isso, apaixonar-me pelo livro. Não o conseguia largar: acordava e lia, a meio do dia voltava a ler e, à noitinha, deixava-me adormecer a pensar na narrativa.

 Saramago conseguiu pegar numa história tradicional e transformá-la numa obra prima. Criticada por muitos, apelidada de heresia, mas, ainda assim, magnífica. O fio condutor da obra é a vida de Jesus Cristo, mesmo antes deste ter nascido. A moral (pelo menos a que me ficou mais presente) é que os erros que cometemos (ou  que são cometidos por quem partilha o nosso sangue) têm sempre forma de nos encontrar. Se os remediamos ou se aprendemos simplesmente a viver com eles já é uma escolha nossa. Para além disso, o autor também enfatiza a ideia de que a História está sempre a repetir-se – exemplo disso é a crucificação de José, no início, e a crucificação do próprio Jesus Cristo por Pôncio Pilates.

 No entanto, não adianta estar a defender algo tão mágico se quem me está a ler agora ainda não conhece: tem de se “ler para crer”. Posto isto, darei mais uma oportunidade ao “Memorial do Convento”. Talvez a maturidade que tenho agora e que não tinha na altura me façam olhar para a obra de uma forma diferente. Afinal, é tudo uma questão de perspetiva.

Fontes da fotografia “thumbnail”:

Créditos: Eu Sem Fronteiras; Retirado do link: https://www.eusemfronteiras.com.br/filmes-baseados-na-obra-de-jose-saramago/

Corrigido por Liliana Pedro

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