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O fetiche pelo úbere bovino

O ser humano começou a consumir o leite de outros animais há cerca de nove mil anos, quando iniciou a prática de domesticação da vaca e da cabra e delas quis aproveitar o máximo de recursos possível, incluindo aquele bem necessário à sobrevivência adulta: o líquido que, segundo a ordem natural da vida animal, serve para nutrir crias até que elas sejam capazes de digerir outros alimentos. Mas o ser humano adulto não consome o leite proveniente de seres da sua própria espécie: ele precisa mesmo é daquele que as vacas e as cabras dão ao mundo e precisa até mais do que os filhos delas, por isso não só explora as mães para o obter como afasta as crias a todo o custo do precioso líquido sagrado, para que nem uma gota se gaste nos bezerros e cabritos e o humano não morra à sede ou malnutrido.

É compreensível então que este fetiche por tetas de outras espécies esteja já tão enraizado na maioria das culturas humanas que atualmente uma pessoa que não beba leite seja chamada extremista pelas que literalmente “gostam de mamar nos peitos da cabritinha”. No entanto, as últimas pessoas podem usufruir de alguma informação sobre a forma de processamento do leite, para talvez compreenderem melhor a decisão de quem não o consome.

As fêmeas de qualquer espécie de mamíferos produzem leite só quando estão grávidas e por algum tempo depois, de modo a poderem alimentar as suas crias recém-nascidas. Desta forma, os 250 milhões de vacas que são produto da indústria de laticínios na atualidade têm de estar na condição de leiteiras o máximo de tempo possível, visto que é necessário sustentar a média do consumo de 108 kg de leite anuais por pessoa. Para isso, os humanos: engravidam-nas artificialmente (o processo de procriação natural é lento e falível demais para a urgência de que o ser humano sofre de beber leite bovino); deixam-nas parir e põem a seguir ligeiramente de lado o recém-nascido; retiram, numa técnica cuidada, o líquido valioso de cada uma das vacas duas a três vezes por dia; e, aquando do esgotamento do estoque, repõem-no ao colocar delicadamente mais um pouco de outro líquido branco no orifício iniciador do processo, que se repetirá até, ao fim de cerca de cinco anos, o ser produtor cair e servir então aí não de escravo mas de sacrifício.

Mas reflita o caro leitor agora sobre o facto de o animal viver cinco anos. Sem dados adicionais, a reflexão pode tornar-se uma divagação profunda; não sendo isso favorável à mente de qualquer indivíduo que necessita de concentração nas suas atividades quotidianas, nem à rentabilidade do sistema que as tais atividades servem, vai cair aqui no meio da página… 20… o número médio de anos de vida de que uma vaca não explorada usufrui.

Querendo o artigo ajudar na reflexão: esta diferença deve-se principalmente ao facto de as vacas da indústria de laticínios: serem violadas no seu primeiro aniversário – ao lhes ser inserido na vagina um tubo com sémen (obtido através da violação do boi), enquanto o seu ânus é dilatado com a mão de um ser humano trabalhador na quinta, de forma a facilitar a fecundação; estarem repetidamente grávidas – o que leva à exaustão e ao envelhecimento prematuro; e serem ordenhadas duas a três vezes por dia – o que leva a infeções no úbere e a doenças dolorosas, como mastites.

Ao fim dos cinco anos de escravatura, a vaca é morta pela indústria da carne, para se juntar ao bitoque do almoço de que o jovem da secundária desfruta no restaurante da rua da escola enquanto aguarda pela aula da tarde.

Talvez se tenha o leitor questionado entretanto sobre o que, depois de tanta e imensa gravidez, acontece aos resultados da reprodução das vacas. É do conhecimento deste artigo – direcionador do leitor nessa descoberta da verdade laticínia -, por intermédio de fonte anónima, que as crias recém-nascidas são separadas de imediato da sua mãe, para que não bebam uma única pinga da mama de ouro, cujo objetivo é gerar pequeno-almoço para as famílias humanas: as únicas em que os progenitores sentem afeto pelo seus filhos e falta deles aquando da sua ausência. Foi também divulgado à Agência Musa que as vacas comummente tentam ir atrás dos seus bezerros enquanto eles são levados para outro sítio e mesmo que algumas choram por dias após o acontecimento; os criadores de gado afirmam não terem encontrado ainda explicação para tais comportamentos por parte das vacas.

Após o afastamento da mãe, as crias são divididas em macho e em fêmea, sendo que a maioria das primeiras é morta, para que possa ser saboreada na forma de carne de vitela; as segundas seguirão os passos que todas as fêmeas das gerações anteriores tomaram. A indústria dos laticínios, como bastantes outras, mas focando-me nesta: pega em animais de outras espécies, aproveita a sua razoavelmente fácil submissão e usa-a para os escravizar e obter lucros – à custa da morte de nove mil milhões de vidas por ano (só nos EUA). Ou seja, um animal pega nuns outros quantos que conseguiu domesticar (ou seja, fazê-los aproximar dele, o que inclui sentir afeto por ele) para os usar em seu próprio proveito, prejudicando atrozmente a qualidade de vida deles; pior: faz nascer, propositadamente, milhões de seres por dia, com a única intenção de os manter dentro de uma jaula e traumatizá-los emocional e fisicamente de modo a obter matéria de que não necessita.

Por isso, saiba o caro leitor que quando bebe do copo com leite antes de ir para cama está a beber do copo da exploração, da zoofilia, do capitalismo, da escravidão e do holocausto. (Caso o leitor esteja interessado em obter mais conhecimentos sobre alguns dos danos da indústria pecuária, pode ler este meu artigo http://escsmagazine.escs.ipl.pt/custa-demasiado-nao-matar/, tal como procurar informações noutras fontes que desejar)

Beatriz-Gusmão-o-fetiche-pelo-ubere-bovino-Opinião (2)

A Maria Beatriz Gusmão escreve com o novo acordo ortográfico.

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