O lado “B” dos Cara de Espelho
Dois anos após o lançamento do seu homónimo, Cara de Espelho volta a colocar a música de intervenção na ordem do dia. Editado a 30 de janeiro, pela Locomotiva Azul, B, é o segundo álbum do supergrupo.
A banda, formada por grandes nomes que marcaram e continuam a marcar a música portuguesa – Carlos Guerreiro, Luís J Martins, Maria Antónia Mendes (Mitó), Nuno Prata, Pedro da Silva Martins e Sérgio Nascimento –, foi uma das grandes surpresas de 2024, dando a conhecer, mais uma vez, as incríveis composições de Pedro da Silva Martins, com críticas sociais afiadas, utilizando o humor e a sátira, e mostrando um universo sonoro com muita margem para a experimentação, onde a música tradicional portuguesa se encontra com o rock.
Muitas vezes, o “Lado B” foi visto como o lado mais experimental, alternativo ou não comercial, um espaço menor devido à sua falta de sucesso, por norma.
No entanto, o novo álbum dos Cara de Espelho vem mostrar-nos que este não é um espaço menor, mas sim um “território” onde o discurso do supergrupo ganha a sua nitidez mais crua, fazendo-nos refletir acerca dos comportamentos, discursos e contradições do nosso quotidiano, enquanto dançamos ao ritmo das dez faixas que o compõem.A voz de Mitó continua a ser um dos eixos centrais do projeto. Em B, ganha ainda mais espaço para explorar nuances emocionais, oscilando entre a doçura, o sussurro cúmplice e a confrontação. Não impõe verdades, mas conduz o discurso com uma clareza que amplifica o impacto das palavras.
Este retrato mordaz do presente foi gravado no Estúdio Louva-a-Deus, em Lisboa, e as suas canções movem-se entre personagens reconhecíveis e imagens que expõem a normalização do absurdo. Há aqui uma atenção particular à linguagem, ao que se diz e ao que se repete, como se o álbum funcionasse também como um espelho de um país que se escuta a si próprio sem se ouvir verdadeiramente. Falam de “nós” e falam muito bem.
Faixa a Faixa
Há quem “aceite e seja parte d’A Seita”, há sempre um Gigantone que se gaba alto, espalha o caos e depois finge não ver o que fez, e quem viva preso à Roda de Crédito que nunca para.
São colocadas várias questões sobre AI, na faixa que aborda o seu uso: “Num mundo em que esta coisa vai fazer/ tudo melhor que nós /O que será de nós assim / Se nada nos valoriza /… é o fim”.
Bem-Vindo convoca a ideia de um país posto à venda, peça a peça. É uma canção que fala sobre a euforia nacional alimentada por capitais estrangeiros (recursos que, por detrás do “brilho”, escondem especulação, inflação e crescentes desequilíbrios sociais), “quem uma esmola nos der / será bem-vindo”.
Em Cara Podre, a banda apresenta, com ironia, o retrato de figuras que recorrem à negação e a discursos auto-justificativos para relativizar tudo, mesmo o que é evidente. Sem precisar de nomes ou lugares, a canção desenha um retrato claro de quem fala alto, desvia o olhar e transforma a palavra em escudo.
A sétima faixa é Buraco e mostra a recusa e indiferença do “tu” a direitos e conhecimentos que lhe foram oferecidos, como a cultura, a ciência, o humanismo e a liberdade, por ser “mais fácil”: “Puseste a cabeça aí / nesse buraco / Escolheste o abismo só porque sim / Porque era fácil”.
Abordando a realidade nacional, sobre um olhar atento, temos D De Denúncia. A letra percorre um universo de personagens fictícias – “Fulano A, Fulano B, Beltrano C e Sicrano X” – que, entre cargos e ligações familiares, espelham mecanismos de poder e influências que moldam a sociedade.
O Pica-Miolos encarna a agressividade discursiva, a desinformação e a obsessão conspirativa. As teorias são lançadas “como tijolos”, não para construir pensamento, mas para ferir, confundir e impor ruído.
A encerrar o disco temos Aldeia Fantasma, que fala acerca do impacto do poder político e do capital: autarcas falam de riqueza e lítio, investidores prometem turismo e infraestruturas, associações propõem “conceitos criativos”, mas nada disso responde às necessidades reais, como emprego ou saúde. Promessas grandiosas que contrastam com o abandono estrutural e a solidão do “eu”.
Cara de Espelho ao Vivo
Após a estreia ao vivo do disco, a 20 de fevereiro, no Cineteatro Louletano e a 5 de março na Culturgest (Lisboa), seguem-se apresentações a 28 de março na Casa das Artes de Famalicão, a 11 de abril no Teatro Aveirense e a 2 de maio em Castelo Branco, no Cineteatro Avenida.
José Mário Branco cantava que “A Cantiga é uma arma”, e os Cara de Espelho fazem dela munição para desmontar mitos e ilusões de um país cada vez mais polarizado, onde a ascensão da extrema-direita se torna cada vez mais visível. Nunca foi tão urgente transformar em música aquilo que a sociedade precisa de ouvir. É um convite a refletir e questionar.
Lado B pode ser ouvido em todas as plataformas digitais, em CD e em vinil.
Fonte da Capa: João Mariano | Cara de Espelho
Artigo revisto por Constança Paixão
AUTORIA
A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e, após um ano como redatora de Música, aceitou o desafio de ser editora no mesmo ramo, mas não se ficou por aí! No futuro, espera vir a unir o gosto pela escrita e pela música à Publicidade e ao Marketing, mas, por enquanto, é Vice-Diretora da melhor revista de Benfica, a ESCS Magazine.




