Música

“Se a minha música for verdadeiramente fixe e especial, ela há de chegar a algum sítio”: de Maria Bentes a Silly

A Magazine fez 14 anos e, para celebrar, no passado dia 15 de abril, recebemos a artista musical Silly para uma talk

Maria Bentes nasceu nos Açores, cresceu em Serpa no meio de cinco irmãs, e atualmente procura abrir caminho na cena musical portuguesa sob o nome de Silly. Lançou o seu álbum de estreia, Miguela, em fevereiro de 2024, ao lado do produtor dos Orelha Negra e Buraka Som Sistema, Fred, mas temos de recuar aos tempos críticos de Pandemia, a abril de 2020, para chegarmos ao seu ponto de partida. Foi nesse momento que decidiu lançar a sua primeira faixa, além, e deixar o seu nome entre o público português.

A artista não gosta de se catalogar em estilos musicais, mas podemos dizer que a sua música é fortemente inspirada no R&B, no Jazz, na eletrónica e no MPB. Com o reflexo das paisagens de São Miguel e do Alentejo no seu trabalho, consegue criar ambientes íntimos e introspectivos, ainda que com uma timidez assumida.  

Fonte: Dani K. Monteiro

Entrevista a Silly

Para ficarmos a conhecer mais sobre o trabalho da artista e os planos que guarda para o futuro, a Magazine recebeu-a na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS).

Beatriz e Henrique (B.H.): Queríamos abordar primeiro o teu último single, Labirinto. O que é que te fez sentir que, depois do Miguela, era preciso acelerar as coisas com UK Garage

Silly (S): Olha, na verdade isso foi uma conclusão muito rápida e muito precipitada, principalmente por causa dos concertos ao vivo. O Miguela é um disco muito íntimo e muito introspectivo e resulta bem em disco, em que tu escolhes os momentos em que o queres ouvir, mas nos momentos de apresentação ao vivo e de concerto fui tocando em sítios um bocadinho maiores do que aquilo a que eu estava habituada e fui entendendo que estava tudo, se calhar, demasiado flat e que seria importante, ou podia ser interessante, porque eu também tenho isso em mim, explorar um caminho um bocadinho o “mais dançável” e ocupar um espaço um bocadinho mais feliz e “a abrir”, diria. Na verdade, o Labirinto foi um exercício mais até para trazer uma música para o concerto ao vivo que desse ali um momento de trazer o concerto mais para cima e fui experimentando coisas com um beat mais acelerado e mais marcado. 

(B. H.): A ideia parte de ti ou parte do Fred? Ou achas que foi um sentimento meio conjunto? 

(S): Não, o nosso caminho juntos é um bocadinho difícil de definir, porque há muitas ideias que começo eu a fazer e depois vamos para o estúdio e começamos a trabalhar. O Labirinto foi uma delas, eu fiz o beat e o instrumental todo sozinha, depois fomos para o estúdio e continuámos a trabalhá-lo. A versão que ouvimos é uma versão já bastante diferente da primeira que fiz, mas, por exemplo, no Miguela acabou sempre por ser um misto entre as duas coisas. Muitas das ideias partem de mim e trabalhamos juntos, outras fizemos juntos em estúdio e outras são ideias que o Fred propôs e depois que eu fui trabalhando também.

Fonte: Dani K. Monteiro

(B. H.): Depois do Miguela, o que é que te desperta mais curiosidade de explorar musicalmente daqui para a frente?

(S): É fixe estares a fazer essa pergunta porque eu estou exatamente nesse lugar agora de me perguntar a mim própria o que é que vem a seguir. Já fez dois anos do disco e eu estou lentamente a mergulhar no processo do que é que vai ser o segundo disco e para mim é muito importante encontrar um conceito para desenhar as coisas que quero e da maneira que quero, seja esteticamente, seja sonicamente, seja naquilo que eu vou fazer – e estou nesse processo agora. Há coisas que eu gostava de experimentar, talvez encaminhar um bocadinho mais por “canção canção” e coisas mais tocadas, se calhar fugir um bocadinho do eletrónico, mas ter as músicas mais abertas e mais expansivas, talvez.

(B. H.): Ainda sobre a Labirinto, para o single trabalhaste com o Francisco Ramalho. Essa camada extra que tu dás às músicas, neste caso visual, é algo que também te dá “pica” e te puxa? 

(S): Sim, claro que sim. Eu acho que, feliz ou infelizmente, vivemos num mundo muito visual e a música hoje em dia também vive muito daquilo que tu entregas no todo, não é?

O processo acabou por ser bastante natural porque foi através primeiro da produção e de uma produtora que eu depois fiz o vídeo com o Francisco e acho que o resultado foi muito fixe e também acabou por dar uma vida à música que ela não tinha. Por isso sim, acho super importante.

(B. H.): Por curiosidade, a parte da direção criativa parte de ti ou parte já do Francisco? 

(S): Foi um processo misto. Eu tinha algumas ideias e o Francisco também e foi assim sempre, um “vai para a frente e para trás”, em percebermos como é que as íamos concretizar. Foi sempre um processo muito dividido. Eu tenho muitos problemas em delegar ou entregar as ideias assim de mão leve… Não que não confie nas pessoas, mas porque também acho que tenho uma visão muito própria daquilo que eu quero e, por isso, obviamente quem trabalha comigo tem muito poder de decisão nas coisas, mas é sempre uma democracia.

(B. H.): Em 2022 conheces o Fred, que foi, sem dúvida, um dos pilares do Miguela. O que é que, ao trabalhares com ele, mudou na forma em como te vês enquanto artista e na tua música? 

(S): Mudou muito, foi um processo muito intenso pela positiva e de aprendizagem (e ainda continua a ser). Continuamos juntos e haveremos de continuar a trabalhar juntos também. No Miguela especialmente, e numa fase muito inicial, eu vinha de um lugar que ainda existe em mim, um lugar de alguma insegurança e timidez, e a minha música revelava muito isso. Eu vinha de um EP em que era muito difícil entenderes aquilo que eu estava a dizer e acabei sempre por me defender disso de uma forma muito estética, quase como se eu falasse para dentro e cantasse para dentro. No fundo, era muita insegurança acumulada e, portanto, foi importante trabalhar com uma pessoa como ele, em quem eu encontrei um espaço confortável para partir, para cantar de forma aberta e de (…) assumir a minha voz também como um instrumento. 

Aquilo que eu escrevo é muito importante para mim, e a palavra é uma coisa pela qual tenho muito respeito e muito cuidado e, portanto, também foi muito fixe perceber que agora era possível fazê-la chegar de uma maneira mais clara. Partilhámos muita música e fomos partilhando muitas referências juntos, mas a principal assim, em mim, acho que foi o lugar da voz e perceber como é que eu me poderia assumir de uma maneira diferente.

(B. H.): Ainda sobre o Miguela, tu és a Maria, tu dizes que quem fala no álbum é a Miguela, que é uma voz tua de criança… Onde é que entra a Silly nisto? É ela a ponte entre a escrita e a história? É ela a figura que diz o que a Maria não tem coragem de dizer? 

(S): Acho que a Silly está muito perto do que é a Maria e, por isso, para mim às vezes até é um bocadinho estranho. É quase como se estivesse a falar na terceira pessoa, mas está tudo muito próximo.

O Miguela é um disco muito pessoal e muito introspectivo e, no fundo, se eu tivesse de dizer, a Silly é apenas o veículo para poder partilhar isso, é quase uma persona não o sendo, porque não sou personagem em momento nenhum, mas é quase a forma que nasceu para eu poder falar, se calhar de uma forma um bocadinho mais desprendida e livremente daquilo que eu sinto.

(B. H.): Quem conhece a Silly fica a conhecer a Maria? 

(S): Completamente, sim!

Fonte: MIP Música

(B. H.): Já afirmaste que preferes dizer o que sentes numa canção do que numa conversa. Escrever é para ti uma forma de autodescoberta ou de proteção? 

(S): Essa pergunta é boa… Eu penso que é mais de autodescoberta porque já me aconteceu algumas vezes. É bonito e parece se calhar demasiado romântico, mas é mesmo verdade que há coisas que eu já escrevi e só depois de escritas é que eu entendi efetivamente o que é que estava a sentir, e isso foi muito fixe. Não acontece muitas vezes, mas quando acontece é um sentimento fixe e, por isso, é muito de autodescoberta porque acabo por depois perceber «ah ok, então era isso que tu sentiste aqui». Acaba por ser também de proteção porque eu penso que quando nós somos honestos e quando somos sinceros – e, no meu caso, quando escolhemos partilhar isso com os outros de uma forma muito explícita -, acabamos por nos proteger também. Parece distópico, mas na verdade acabas por expor muito, mas também te estás a proteger porque escolheste esse sítio e assumiste-o. Quem ouvir o disco fica a conhecer-me, mas porque eu deixei, e isso é fixe para mim, para também me sentir com mais defesas pelo mundo.

(B. H.): A tua música é frequentemente descrita como um “manifesto sensorial”. Como é que paisagens tão distintas como as de São Miguel, as de Serpa e as de Lisboa coabitam na tua música?

(S): Eu antigamente tinha uma resposta quase pré-feita para isso, só porque era mesmo bastante óbvio para mim. Eu acho que os Açores me trazem muito a carga da natureza que é algo muito presente na minha música, mesmo até pela forma como eu escrevo, o facto de usar bastantes metáforas – a natureza ajuda muito nisso, e eu penso que isso vem dos Açores. Acho que alguma da passividade, tranquilidade ou serenidade também vem da calma do Alentejo e o vazio também, e Lisboa acaba por ser o sítio onde isso acontece. É o sítio onde eu vivo, é o sítio onde eu trabalho e é o sítio onde as pessoas que trabalham comigo também estão: é onde eu me apresento, por isso, acaba por ser um bocadinho desses sítios todos. 

(B. H.): Estas paisagens, como referimos, refletem imenso no teu trabalho, por exemplo, recordo-me agora da Vida a Mil que foi escrita numa viagem Serpa-Lisboa. No Viver Sensivelmente trabalhaste com o Pedro da Linha, com o Charlie Beatz, o Eu.Clides e os Deekapz.  Como é que este naipe de produtores se cruza no teu percurso? 

(S): Foram todos de forma um bocadinho diferente… O Charlie foi porque eu estudei na ETIC e um dos professores do meu curso era ele. Quando o curso terminou, continuámo-nos a dar; quando eu comecei a trabalhar nas minhas músicas e ia começar a lançá-las, convidei-o para me ajudar nesse processo; o Eu.Clides já era meu amigo de antes e fomos partilhando coisas e, obviamente, como fazíamos o mesmo os dois, acabou por entrar também numa das músicas – no Vida a Mil. Aliás, foi ele que produziu a primeira ideia e depois eu e o Pedro finalizámos; o Pedro foi através da produtora onde eu estava de uma agência do Porto, onde o conheciam. Eu não o conhecia e encontrámo-nos para tomar um café e pensar no EP (eu tinha o EP feito, mas sentia a necessidade de uma produção extra e de ouvidos de fora, de alguém que pudesse quase colocar aquilo noutro sítio que eu sozinha talvez não conseguisse); e os Deekapz foi um trabalho à distância, porque eles vivem em São Paulo. Foi também através da amizade deles com o Pedro e também porque eu gostava de sentir mais essa musicalidade do Brasil, e eles acabaram por entrar também num dos temas.

(B. H.): Tu mencionaste que tiraste produção musical na ETIC, mas tens um historial um bocado mais “clássico” – estudaste piano no conservatório e tiveste aulas de guitarra. Como é que surgiu Hip Hop no meio disto? 

(S): Eu estudei e fui sempre muito apaixonada por música e, vou-me voltar a repetir o que é um bocado triste, mas é a verdade: eu fui sempre muito tímida e muito insegura. Lembro-me de compor e de tocar algumas coisas ao piano e explorar muitas coisas na guitarra, mas sempre sem sentir que tinha a capacidade para cantar porque achava que não conseguiria ou não teria esse dom. Então, uma das formas que eu encontrei para me começar a aventurar nisso foi através da rima e do Hip Hop.

O Hip Hop surgiu na minha vida como provavelmente surgiu na vossa também. Fui ouvindo coisas e referências até mais lá de fora. Como estava a dizer há bocadinho, a palavra é super importante para mim, e o Hip Hop tem muito essa carga. Fui aos poucos tentando, porque gostava e achava que também tinha coisas para dizer, e foi através da rima que era uma coisa menos contida e talvez mais segura, uma cena mais marcada e mais quase spoken word. Foi assim que eu fui começando aos poucos até ganhar coragem para depois cantar.

Fonte: Dani K. Monteiro

(B. H.): No mundo do Hip Hop, quais são as tuas maiores referências no momento? 

(S): Se eu tiver de dizer um nome feminino e um nome masculino, acho que um nome feminino eu diria No Name, que é uma rapper de Chicago que eu curto imenso, e masculino, talvez seja bastante óbvio, o Kendrick Lamar. Ele foi sem dúvida uma pessoa importante muito até por causa também das raízes musicais que sempre usou muito, como o Jazz que também é muito importante para mim. São quase dois gurus que fizeram sempre parte da minha vida. 

(B. H.): Estás a falar de Jazz, e eu lembro-me de há uns anos ter visto uma cena tua com a Jazz Messengers, onde tu tinhas dito que um dos álbuns da tua vida era o Kind of Blue, do Miles Davis. De que forma é que álbuns como esse entram depois no teu trabalho? 

(S): Eu acho que é difícil perceber ou categorizar como é que as coisas depois te influenciam. É como meteres fruta para fazer um batido e depois sai uma coisa completamente diferente da que tu tinhas inicialmente nas tuas mãos. Obviamente, tudo aquilo que eu ouço acaba por, à minha maneira, se transformar e ser uma influência, e claro que discos como esse são muito importantes. Obviamente, eu não tenho linhas de trompete no meu disco tão geniais [risos] ou tão óbvias e diretas como as do Miles Davis, mas nem que seja às vezes até por questões de…

(B. H.): Personalidade?

(S): Personalidade. Para mim uma grande referência que eu tenho é a Patti Smith e musicalmente eu não me conecto muito com ela, mas é a ideia da personagem e do que ela é e do que ela representa, não necessariamente da música dela. 

(B. H.): Nota-se que te sentes confortável no espaço entre géneros, já o afirmaste, gostas de que as pessoas não saibam bem onde te colocar ou como te rotular… Essa resistência em seres definida é uma forma de protegeres a tua liberdade criativa ou é apenas o resultado natural de seres uma colagem de tantas referências diferentes? 

(S): Acho que disseste super bem. Não que seja uma coisa muito pensada, mas é em primeiro lugar uma forma de me manter livre sempre naquilo que eu faço, e acho que existe muito esse perigo, sempre achei, não só em relação ao meu trabalho, mas em relação ao de toda a gente – catalogar as coisas, seja na música, na vida em comum, na sociedade, em tudo. A mim deixa-me contente que seja difícil, porque quer dizer que eu fiz alguma coisa bem, que não tentei ser alguma coisa ou que não tentei ocupar um espaço que já existe, e isso é fixe porque a seguir vou ter esse espaço, essa liberdade para fazer o que me apeteça sem desfraldar muitas expectativas.

(B. H.): Cada vez mais a indústria exige conteúdo constante, vemos artistas ativamente a publicar nas redes sociais e a promover o seu trabalho. Contudo, tu és uma exceção. O que é que te faz fugir à regra? 

(S): Pois, sou uma exceção. Não sei se isso joga a meu favor. Levo muito na cabeça por isso [risos], mas acho que em algumas coisas na minha vida vivo com um certo romantismo, e gosto de acreditar que é muito fixe eu chegar e tu dizeres-me que gostas da minha música e que a conheces e que a ouves. E isso é especialmente fixe para mim, porque eu sei que não invadi o teu espaço ou não cheguei lá por uma cena de conteúdo constante e presença constante. Vivo sempre com esta ideia de que, se a minha música for verdadeiramente fixe e especial, ela há de chegar a algum sítio. Não preciso de ter uma cara ou saberem se eu sou alta, baixa, gorda, magra, loira, morena… eu vivo um bocadinho isso e sei que é difícil e não joga mesmo nada a meu favor, mas também prefiro ser um bocadinho mais fiel a mim mesma do que tentar ser uma coisa que eu não sou, e fazer vídeos sem grande contexto para mim.

(B. H.): Falando agora um bocado do teu processo criativo, como é que costumas compor uma canção? Começas pela letra, pela melodia, vai variando?

Fonte: Dani K. Monteiro

(S): Nunca começo pela letra, depende é que como é que eu começo instrumental: às vezes pode ser uma cena ao piano, à guitarra, às vezes pode ser cenas “sampleadas” que eu encontro ali um loop qualquer e depois fico a trabalhar nele; mas a letra é uma coisa que vem sempre depois. Normalmente eu gravo “iogurtes”, uma linha melódica qualquer em que depois vou encaixando palavras, e às vezes até digo palavras que depois me ajudam a construir o puzzle – e é fixe e vou um bocado atrás disso -, mas nunca aconteceu, até hoje, eu ter uma letra escrita e musicá-la.

(B. H.): Já entraste num trabalho do Papillon – no Johnny Driver -, dos NAPA e dos Soul Providers também. Intervir ao lado de artistas e procurar colaborações é algo que te tem puxado mais? 

(S): Não, não muito. Todas essas colaborações de que tu falaste já foram há algum tempo e foram, obviamente, momentos fixes para mim, porque estou muito habituada a estar sozinha e a trabalhar sozinha, então foi bom também estar nesse outro lugar em que já só entro numa música para escrever ou para cantar. Falando mais do disco do Papillon e dos NAPA, que foram os mais recentes, foram processos muito fixes especialmente porque foram diferentes para mim. Mas não é uma coisa que eu procuro muito, por exemplo, no caso dos NAPA foi um processo muito longo, porque eu estava com muita dificuldade em dizer que não, a minha primeira cena era logo dizer que não queria.

(B. H.): Porquê? 

(S): Pois, não sei porquê, acho que são os meus anseios e os meus receios de falhar ou de não corresponder, fico logo do género «como é que eu vou dizer que não?» ou quando recebo esse convite penso logo que é mais uma cena com a qual tenho de lidar. E ainda bem que não disse que não. Demorou, foi um namoro bué grande, mas acabou por acontecer e foi muito fixe. Agora no início do ano fizemos os Coliseus e foi mesmo fixe e fico contente. Lembro-me de ter este pensamento agora de «ainda bem que fizeste», porque depois isso resultou em momentos muito bons. Continua a ser uma coisa que não procuro muito, mas acho que devia trabalhar um bocado mais nisso. Se calhar no segundo disco gostava de colaborar mais e ter mais pessoas presentes e mudar isso em mim. 

(B. H.): No ano passado estiveste no Cool Jazz e há dois anos no Primavera Sound também no palco principal. Como é que foi a experiência de pisar o palco destes festivais? 

(S): Foi muito fixe, eu adorei. Foram experiências muito diferentes. A do Primavera Sound se calhar foi um bocadinho mais intimidante porque estávamos mesmo a começar a tour e a rodagem do disco novo – o disco saiu em fevereiro, íamos tocar em junho e tínhamos muitos poucos concertos ao vivo -,  e de repente fomos abrir o palco principal de um festival tão grande no dia da SZA. Eu cheguei ao palco e estava bué preocupada só a ver as cenas dela. Essa experiência de estar num sítio muito maior do que eu e muito maior do que o normal foi um dos melhores concertos em termos performativos, porque muitas vezes saio do palco e penso: «enganei-me naquela letra» ou «enganei-me naquela cena no piano», e por acaso o Primavera Sound foi um concerto mesmo limpo, adorei. O Cool Jazz também foi um concerto muito fixe, especialmente porque já foi muito depois do disco, ou seja, o disco teve tempo para maturar um bocado mais nas pessoas, e senti que muita gente já estava a cantar as cenas comigo e já me conhecia. Acho que também ajudou o facto de ser no dia do Slow J e havia ali algum público em comum, pessoas um bocadinho mais ligadas ao meu trabalho do que quem estava, por exemplo, no Primavera Sound. Foi muito fixe também essa noite.

(B. H.): Por falar nos teus concertos ao vivo, nós queremos notar uma coisa que é: tu apresentas-te sempre da mesma forma, com aquele corta-vento branco. Que simbolismo é que isso tem para ti? 

(S): [Risos] Queres que eu esteja mesmo sincera? Eu tenho uma resposta, mas é mesmo muito pouco fixe e muito sincera. É para eu não ter de pensar em mais nada, porque para mim resultou na primeira vez que o usei, e a partir de agora vou sempre igual. As minhas irmãs cascam imenso a dizer que tenho de mudar e que estou sempre igual [risos]. 

(B. H.): No Primavera Sound foi o único em que foste diferente, levaste aquele lenço e fato, mas sim, o fato também era branco na mesma.

Fonte: Dani K. Monteiro

(S): Sim, o fato branco na mesma [risos]. Eu acho que agora vou mudar, porque agora também não tenho mais concertos e as coisas vão mudar. O disco novo há de trazer outro outfit novo. Mas foi mesmo porque, para já, apareço muito pouco e pensei «se aparecer sempre igual, se calhar é um bocadinho mais memorável»; ou alguém podia pensar «já sei, ela vai aparecer de branco ou de fato treino», mas na verdade é mesmo porque me ajuda muito a não ter de pensar no que é que vou vestir, estou a ser mesmo franca.

(B. H.): Como é que te sentes ao ver, por exemplo, rádios como a Antena 3 a passar a tua música? 

(S): É um reconhecimento muito fixe e é uma sensação que não acontece muitas vezes – entrar no carro, ligar e estar a ouvir é fixe. Acho que é uma valorização do trabalho que tu fazes, porque eu poderia ser hipócrita e dizer que não era muito importante ou que não ligava muito a isso, mas na verdade é, porque quando eu faço e quando eu tomo a decisão de partilhar para fora, obviamente eu gostava de que essa música chegasse ao maior número de pessoas. Ver esses meios a ajudarem-te nisso e a apoiarem-te nisso e a acreditarem na tua música é muito gratificante para mim, mesmo.

(B. H.): Principalmente em tempos em que cada vez menos passa música portuguesa na rádio. 

(S): Acho que a Antena 3 tem feito um trabalho super, super importante mesmo. Acho que dava panos para termos aqui uma discussão e falarmos sobre rádio em Portugal e sobre música portuguesa nas rádios e tudo mais. Eu não gosto de entrar muito nesses fundamentalismos, mas é importante também louvar quando as cenas são bem feitas, e a Antena 3 faz uma curadoria muito fixe do que se está a fazer em Portugal e dá palco a pessoas como eu. 

(B. H.): Para terminar, achas que estás cada vez mais perto de ter uma rua com o teu nome, como tanto ambicionavas em 2018 [risos]?

(S): [Risos] Não, não, não. Acho que estou muito longe, acho que tenho de comer muita sopa, fazer muitos discos. Acho que neste caminho, havendo ou não rua no fim, se for tendo presentes como este, em que vocês têm o prazer de falar comigo e eu tenho muito prazer também em estar presente, ou conhecer pessoas que nunca vi na minha vida e que ouvem a minha música, então vale a pena. Para mim é importante, é um combustível mesmo. 

Fonte da Capa: ESCS Magazine

Artigo revisto por Eva Guedes

AUTORIA

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O Henrique tem 20 anos, é Editor de Música e está no segundo ano da licenciatura de Audiovisual e Multimédia, aqui na ESCS. Foi através da ESCS Magazine que soltou cá para fora o seu gosto pela escrita, onde chegou a escrever para a editoria de Cinema e Televisão - da qual, entretanto, saiu de cena - e atualmente explora sobretudo o panorama da música nacional, procurando incentivar os leitores a explorarem os artistas portugueses.

A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e, após um ano como redatora de Música, aceitou o desafio de ser editora no mesmo ramo, mas não se ficou por aí! No futuro, espera vir a unir o gosto pela escrita e pela música à Publicidade e ao Marketing, mas, por enquanto, é Vice-Diretora da melhor revista de Benfica, a ESCS Magazine.