Literatura

O lápis azul acabou

Atualmente defendemos a democracia portuguesa, celebramos a liberdade a que temos acesso. Tornou-se possível escrever, criar, encenar e simplesmente falar sem haver medo de represálias, algo novo após o famoso 25 de abril. Foi quase liberdade a mais para um povo que viveu tanto tempo sob um regime ditatorial – e Portugal não estava preparado para tal mudança, segundo alguns autores. Não houve apenas alterações na lei, algo que se refletiu no comportamento das pessoas, algo que nos remonta a observações do mestre Vitorino Magalhães Godinho: “Sejamos brutalmente sinceros: neste momento não existem em Portugal ‘bases’, seja em que sector for; existem maiorias impreparadas e perplexas, manejadas por grupúsculos cujo cérebro está atafulhado de slogans decorados e não habituados a pensar por si próprios.” (in Rêgo, R. Violência Inútil)

O regime não contribuiu para a formação do pensamento de uma grande parte da população, apenas exerceu uma Violência Inútil. Este é o título da coletânea de textos de Raul Rêgo, que nos relembra que não foi apenas durante o Estado Novo que o país passou por uma fase complexa. Os textos originam reflexões sobre o povo português após a revolução, expondo as fragilidades e os perigos de uma sociedade pós-ditatorial.

Violência Inútil, de Raul Rêgo. Fonte: Wook

Durante mais de 40 anos, as pessoas eram retiradas das suas casas com recurso à força, presas e torturadas sem que lhes dissessem sequer o porquê. Se até à data nunca passou por isto, imagine uma simples criança. Convido o leitor a visualizar na sua mente uma criança que cometa um erro, sem se aperceber, e que disso resulta uma penalização. Será que ela alguma vez corrigirá esse mesmo erro se nunca ninguém lhe disser a razão pela qual foi castigada? Seguindo a linha de pensamento dos textos, a resposta é simples (embora não contemplem esta analogia). Não se educa um povo através de punições sem que sejam dadas explicações, nem por meio da violência. Agir com violência é descer ao nível do infrator (ou pior ainda) e cultivar o ódio.

 É necessário contribuir para a formação de opiniões, de correntes de pensamento ou de lógicas de raciocínio, algo que não é possível apenas através de punições. A liberdade e a autoridade precisam de viver em equilíbrio, embora, por vezes, a linha entre elas se torne ténue. Existem debates constantes sobre os limites da liberdade – incluindo do humor, um tema bastante controverso. Será que, após o 25 de abril, passámos de um regime totalitário a uma liberdade total? Ou será que a falta de autoridade, num ambiente caótico pós-ditatorial, deu a ilusão de tal liberdade?

Portugal queria uma “perfeição imediata”, mas carecia de figuras de autoridade, leis definidas, um governo estável… O Movimento das Forças Armadas era notável no setor militar, mas sobrepor-se a outros na área política resultaria num elitismo. Nem sequer o ensino possuía estabilidade. Como seria possível combater a baixa literacia com estabelecimentos de ensino fechados e sem professores? Um povo reprimido, durante tantos anos, dificilmente se adaptaria a uma mudança tão drástica. Era preciso construir as bases e os pilares em falta, desde a política às escolas. A democracia assenta em vários pilares, sendo possível destacar, nas palavras do autor, a igualdade e a confiança, sendo possível realçar também a honestidade, nomeadamente através das eleições democráticas. A ditadura não se estabeleceu apenas por decreto nem apenas pelo poder de voto – caso tal tivesse acontecido não seria necessário o recurso aos conhecidos meios coercivos. Existia medo e não era apenas por parte do povo.

Atualmente esquecemo-nos um pouco do que significa este medo. Poderá ser um perigo? A perda de memória por vezes é acompanhada de passividade. Vivemos o presente, deixando para trás o passado e, com ele, a luta pela democracia. Talvez seja por acharmos que é mais fácil, mas recordemos o facto de que a democracia está em constante construção. O pensamento individual supera a violência física. O lápis azul acabou. 

Fontes consultadas:

Obra:

Rêgo, R. (1975). Violência Inútil. Publicações Dom Quixote.

Fotografia da capa da obra:

Wook. (s.d.) Violência Inútil, Livro 1 de Raúl Rêgo. Consultado a 02 de abril de 2022. Disponível em:

https://www.wook.pt/livro/violencia-inutil-raul-rego/71932

Imagem do artigo:

Unsplash. (2018, Abril 12). Consultado a 02 de abril de 2022. Disponível em: https://images.unsplash.com/photo-1523544473559-f94346f6221e?ixlib=rb-1.2.1&ixid=MnwxMjA3fDB8MHxwaG90by1wYWdlfHx8fGVufDB8fHx8&auto=format&fit=crop&w=871&q=80

Artigo revisto por: Ana Sofia Cunha

Fonte da capa: Unsplash

AUTORIA

+ artigos