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O lápis de pomar e o ferro de chafes

ART - Andreia Filipa - 27 Janeiro - imagem corpo artigo 1

Quando a arte assume duas formas físicas, servindo o mesmo propósito, não existe qualquer aspecto passível de ser considerado um erro, uma imperfeição ou uma desconexão com a realidade. E é isto que o Atelier Museu Júlio Pomar – na Rua do Vale, em Lisboa – nos apresenta até dia 21 deste mês: a escultura e o desenho numa relação de confronto e, simultaneamente, de total harmonia.

Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar dá início a um programa de exposições do Atelier Museu cujo objectivo é cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas plásticos, de forma a «estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade».

A figura principal de toda a apresentação é o desenho, seja ele representado por linhas a carvão, grafite ou ferro, e o verdadeiro desafio é tentar compreender a forma como cada um investe naquele que é um diálogo acerca da realidade que nos rodeia.

A obra «Étreinte» (1979), de Júlio Pomar, que se traduz por «Abraço», apresenta o entrelaçamento dos corpos e a simultânea facilidade e dificuldade de conjugação dos mesmos – dificuldade representada pelos traços fortes e convictos e facilidade pelos traços leves, que demonstram este como um acto que está inerente ao ser humano.

«Étreinte», Júlio Pomar
«Étreinte», Júlio Pomar

Por outro lado, «As tuas mãos» (2013), de Rui Chafes, é apresentado em linhas de ferro tridimensionais, simulando a presença física de uma outra pessoa através de elementos que nos guiam no sentido da ligação e relação humanas – as mãos.

«As tuas mãos», Rui Chafes
«As tuas mãos», Rui Chafes

Rui Chafes, com 47 anos, formou-se em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em 1989, seguindo depois para Dusseldorf, onde frequentou a Kunstakademie, sob a direcção de Gerhard Merz.

Chafes sempre se interessou pela cultura e língua alemã, considerando-a «lógica, cristalina, precisa, clara», algo que acaba por se transpor para a sua visão da vida.

O escultor, cujo material de eleição é o ferro, já expôs em Portugal – em espaços como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu Serralves e o Museu Colecção Berardo – e no estrangeiro – em países como Bélgica, Espanha, Itália e Dinamarca.

Contudo, há que realçar a importância que têm, para Chafes, os nomes dados às obras. Estes são escolhidos de forma a criar um maior impacto no público e revelam a ligação que o escultor tem também com a escrita.

Por outro lado, temos Júlio Pomar, um pintor português nascido em 1926 e pertencente à terceira geração de pintores modernistas portugueses.

Pomar passou pela Escola de Artes Decorativas António Arroio, pela Escola de Belas Artes de Lisboa e ainda pela do Porto. Devido à sua atividade militante, esteve preso, juntamente com Mário Soares. Contudo, acaba por se afastar da atividade política e fixa-se em Paris.

Na sua obra, é frequente a referência ao erotismo, a figuras mitológicas e ainda a personalidades e situações literárias, sendo, na maior parte das vezes, com o recurso ao desenho, mas também à pintura, gravura, cerâmica, colagens e assemblage.

Já expôs um pouco por todo o Mundo e, actualmente, apresenta a sua obra no Atelier Museu Júlio Pomar. Este inaugurou no dia 5 de Abril de 2013 e possui um acervo de cerca de 400 obras.

Uma das obras do Atelier Museu Júlio Pomar
Uma das obras do Atelier Museu Júlio Pomar

Com curadoria de Sara Antónia Matos, a exposição Júlio Pomar e Rui Chafes: Desenhar apresenta, assim, um confronto entre as obras destes dois artistas, partindo de uma noção elementar: a arte, independentemente da forma como é apresentada, não é um retrato fidedigno da realidade, mas um questionamento da mesma.

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