Opinião

O novo bastião da direita alternativa

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Este artigo é escrito ao abrigo do novo ortográfico

Confesso: sou um viciado no Youtube. É raro o dia em que não perco lá umas horas, a viajar pela secção dos “sugeridos”, a acompanhar channels de que gosto, ou autisticamente a ver vídeos que já vi meia dúzia de vezes. É um escape – afoga-me os sentidos e impede-me de ter alguns pensamentos não tão agradáveis. É, portanto, com enorme desgosto que vejo o Youtube a tornar-se na maior fonte de propaganda da chamada direita alternativa – uma ideologia política conservadora, mas que rejeita os tradicionais dogmas cristãos. Caracterizada pela islamofobia, pelas plataformas anti-imigração e pelo anti “politicamente correto”, esta nova direita é o último grito da moda.

Maluquinhos da conspiração como Alex Jones ou Paul Joseph Watson são mais influentes do que nunca – vídeos com meio milhão de visualizações e com um excelente rácio de likes/dislikes. Indivíduos que seriam motivo de chacota há uns anos são agora considerados grandes gurus políticos e/ou pseudointelectuais.

É verdade que tenho problemas com esta nova onda feminista e com a sua obsessão com as pequenices sociais, mas a ascensão desta direita alternativa é infinitamente mais preocupante: se por um lado temos uma excessiva preocupação com a utilização correta de pronomes pessoais, por outro temos indivíduos que pensam que a antítese do “politicamente correto” são o ad hominem e a mentira.

Este tipo de discurso está de tal forma naturalizado que Youtubers como JonTron papagueiam aquilo a que Trump brilhantemente chamou “factos alternativos” – sem números, estatísticas ou provas empíricas, a verdade que se sente é a verdade que existe.

Quando lhe pediram factos para confirmar as suas asserções racistas e xenófobas num debate com o Youtuber Destiny, JonTron respondeu: “Eu apenas sei”. É isto a direita alternativa. A emoção substitui a racionalidade, o sexto sentido triunfa sobre o empirismo, o senso comum vence a filosofia, e os factos alternativos sobrepõem-se aos factos.

O mundo é agora uma esfera invisível recheada de muçulmanos extremistas, violadores mexicanos, feministas serial killers e de uma Suécia vítima de atentados. Um planeta em que o multiculturalismo é o vilão. Um mundo em que o porta-estandarte terráqueo, Milo Yiannopoulos, “não seria tão bom a fazer sexo oral se o padre da paróquia não o tivesse molestado”.

É esta a podridão audiovisual que permeia o maior servidor mundial de vídeos. Enfim… Dailymotion, aqui vou eu!

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