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O Príncipe de Massamá

A consciência de ser o que se é pode apenas ser quebrada pela noção de que nunca se é o que realmente se tenta ser. Pois não há a plenitude de nada, tampouco o excesso de alguma coisa. Nada é demais e tudo chega por menos do que a quantia necessária para que valesse algum esforço.

Até os dias são escassos. Falta nos dias o tempo. Falta a vontade. Falta a vida. E falta acreditar. Ninguém acredita. Eu não acredito, tu não acreditas. Estamos aqui os dois numa sucessão de ideias que não nos leva a lado nenhum. Tu perdes o teu tempo, eu tento manter-te a perder tempo. Porém, faço-o fazendo-te perder tempo. «O tempo é precioso», ensinaram-te. O mais que levas da vida é tempo, não te preocupes com isso.

A reflexão. O embuste do pensamento, do afundamento na essência de ti (de mim), de nós dois, unidos neste só momento em que te comunico e tu me lês, de linha unívoca, sem resposta, sem reação. Teus olhos vão correndo estes risquinhos e tracinhos que dedilham no teu ecrã um texto. Um texto que cresce. Que vais lendo, devagar, depressa, sussurrando puro e suave no teu ouvido. E agora já não me ouves.

Mas será que alguma vez ouviste?

Na ausência das ideias, quando tenho o pensamento mais vazio, vêm-me à cabeça umas histórias. Podia deitá-las todas para aqui, ou para papéis, ou para cadernos bonitos com folhas brilhantes. Engulo-as. Juro-te: quando me sobem aos dedos essas vontades de escrever, trinco as pontas e esqueço – faço por esquecer – essas ideias que me tentam deslocar do rumo. «Que rumo, Pedro?», perguntas. «Sei lá.», respondo.

Nisto não há vencedores ou derrotados. Há só os desiludidos. Eu sou um. Desiludido contigo. Não acreditas. E eu só queria que acreditasses em ti; que acreditasses nas tuas ideias, nas tuas forças, nas tuas liberdades. És livre, caramba! E no entanto… Enclausuras-te em ti. Fechas-te no âmago do teu ser e não sais de lá. Não sais de ti. E restas, como animal engaiolado, num esconderijo só teu, pernoitando à luz do sol.

Ia no comboio um dia. Enmimesmava-me à janela quando um velho que baloiçava aos golpes da linha se sentou ao meu lado. Puxei só a mochila para junto de mim e continuei vidrado no mundo que fugia em sentido contrário ao meu. Ia enfaixado em mim. No meio de um comboio cheio, isolado só em mim. Absorvi-me.

«Sabes», diz-me o velho, «esta é a estação mais luxuosa de toda a linha». O mundo – o meu mundo – estilhaça-se. De súbito, o velho que entrara agarrado a uma cana fina fazia parte do meu mundo. O impessoal, o estranho, o que não me pertence estava agora a falar comigo. «É verdade», replico com um sorriso. «E sabes porquê?», prossegue o homem paternalmente. «Sei». «Ora! Como sabes!?», admira-se. «Simplesmente sei». «Ninguém sabe simplesmente. Sei-o porque já cá vivo há mais tempo que o tempo conta. Ninguém sabe sabendo. Quem to disse?». «O senhor. Neste mesmo comboio, há umas semanas», devia eu ter-lhe respondido. Não o fiz. Sorri apenas e deixei-o prosseguir. «Aqui mora o primeiro-ministro. Quando recuperaram a estação, em sua honra, transformaram-na nesta gare palaciana que vês…». «É bonita», consinto. «Eh… tem a sua beleza. São Bento – conheces São Bento?», faço que sim com a cabeça, «São Bento é doutra categoria. Podiam ter feito melhor aqui também». E calou-se numa eternidade. Nunca mais o ouvi. Nunca mais o vi.

Uma certa raposa disse que quando cativas alguém, ficas responsável por ele. Não sei se te cativei, mas de algum modo, sinto-me responsável por ti. E sei que esperas de mim algo. Oxalá to pudesse dar.

Uma opinião, um grito, uma exaltação. Uma cor. Algo apenas.

Que percebo eu de política? Era essa a minha missão inicial: falar-te de política. Mas todos já dela falaram. E mais falarão. E espero que de mim não esperes o mesmo que esperas deles. Eles estão mais qualificados. Eu… eu vou só ser aquele espaço na tua consciência. Um recalcamento. Um momento da tua vida que não irás recuperar. Podes até te aborrecer, mas juro, nunca te vais esquecer.

Dias depois, soube-o, o velho morreu.

O Pedro escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990.

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