Música

Open Mike Eagle – Anime, Trauma and Divorce

Open Mike Eagle está de volta aos álbuns de estúdio com o novo Anime, Trauma and Divorce.

Fonte: Open Mike Eagle via Twitter

Open Mike Eagle está de volta aos álbuns de estúdio com o novo Anime, Trauma and Divorce. O rapper que nasceu em Chicago, mas que atualmente vive em Los Angeles, Califórnia, não é um nome estranho ou desconhecido na cena underground de LA, devido aos seus contributos no sub-género “art-rap“. Não é o típico rapper de LA ou de Chicago. OME pode gabar-se de ter a sua própria identidade neste vasto universo musical: com o sempre presente sentido de humor, umas vezes absurdo e negro, outras vezes autodepreciativo; com a sua forte capacidade para criar momentos emotivos, enternecedores, frustrantes e nostálgicos; e com a facilidade com que o ouvinte consegue relacionar-se com o rapper.

OME viveu, durante a sua infância, em Robert Taylor Homes, um bairro social em Chicago, que acabou por ser demolido em 2007 – demolição esta que, 10 anos mais tarde, serviu de inspiração para o criticamente aclamado Brick Body Kids Still Daydream. Dez anos que serviram para o rapper contemplar as suas memórias infantis e os efeitos da gentrificação na comunidade negra, aprofundando as emoções que o acompanharam durante esses dez anos e que culminaram no projeto mais emotivo do rapper.

Neste novo projeto, encontramos um OME igualmente introspetivo, com uma bagagem emocional cada vez mais pesada e representada de uma maneira mais direta do que aquela a que o rapper nos habituou, mas cujos momentos emotivos não atingem a mesma profundidade emocional que o seu projeto anterior.

O trauma do seu divórcio, o cancelamento do seu programa humorístico na Comedy Central, a pandemia e as suas consequências financeiras constituem um constante desafio para a estabilidade emocional de qualquer humano e OME não é exceção.

A primeira faixa, intitulada “Death Parade“, dá-nos conta da natureza cíclica dos traumas que o rapper enfrenta. Com uns beat e delivery inicialmente easy-going, a tensão presente na faixa vai aumentando progressivamente, culminando com a queda que o trauma causa: “Took a bad fall, bad fall, / Look, but we had nothing to land on“.

Segue-se “Headass(Idiot Shinji)“: desta vez, a personagem Shinji Ikari de Neon Genesis Evangelion serve de fonte de inspiração. OME invoca as características desta personagem extremamente introvertida, ansiosa e emocional para a sua própria caracterização. Apesar do tema mais pesado, evidenciado em rimas como “It ain’t a secret, I overthink it / I over-analyse and tweak it, ’cause that’s my weakness“, o rapper não se prende às suas fraquezas (ao contrário talvez de Shinji) e deixa-nos com a sua punchline de humor negro: “I need that shield, it’s getting chilly and there’s shrinkage / A perfect time to rhyme with Peter Dinklage“.

Sweatpants Spiderman” tem como tema central a crise que acompanha a meia-idade, cabalmente representada pelo refrão – “Tattoos, haircuts, goldchains, anime” –, mas mais uma vez, apesar da empatia que suscita no ouvinte, o que prevalece é a perspetiva humorística do rapper.

Em “Bucciarati” encontramos um dos pontos altos deste projeto. Se, em “Headass(Idiot Shinji)“, OME é Shinji, em “Bucciarati“, é Bruno Bucciarati de JoJo’s Bizzare Adventure. Acompanhado por Kari Faux, todo o humor até agora presente dá lugar a uma faixa de tom mais introspetivo, em que os sentimentos de culpa, vazio emocional e isolamento governam. O beat, mais uma vez lowkey, acompanhado pelas leves melodias de saxofone, complementa as pesadas confissões dos dois – com destaque para a brilhante contribuição de Kari Faux em versos como: “As I grew older, void got bigger / Tryin’ to fill the hole with sex, maybe liquor / What’s the difference ‘tween a saint and a sinner? / Rather isolate myself ’cause I can beg you to differ” e também nos dois versos finais: “Escaped the box, now I’m pushing my barrier / So why do I still feel like a moral grey area?”.

Fonte: Open Mike Eagle via Youtube

Chegamos à quinta faixa do álbum, “Asa’s Bop” – outro momento forte do novo álbum de OME. Apesar de todas as dificuldades que seguem o rapper de Chicago – como o divórcio, o cancelamento do seu programa, as suas dificuldades financeiras –, o seu filho, Asa, parece ser uma pedra de suporte na sua vida: “And right when I’m about to tap out tho / And hear my kid skipping through the house all loud go / Bon geddy go”. No entanto, no refrão cantado pelo seu filho, o beat não nos dá uma sensação de conforto ou de suporte emocional; aliás, deixa bem claro o estado em que o rapper se encontra, havendo, mais uma vez, espaço para o seu humor autodepreciativo em versos como: “Thought we had it all, hell nah, but we haven’t yall / After all, he had to put his kid on the rapping song”, fazendo alusão aos seus problemas financeiros.

Chegamos ao final da primeira metade do álbum com “The edge of new clothes”. Infelizmente, é uma das faixas que menos impacto tem neste projeto. O rapper escreveu no Twitter, que esta foi a primeira canção que escreveu para este álbum e que expressa a necessidade de demonstrar a sua frustração, sem saber por que razão se sente frustrado. No entanto, esta demonstração acaba por ficar aquém do que seria esperado – torna-se uma faixa sem direção e com pouco desenvolvimento.

Everything Ends Last Year” é uma canção que, dificilmente, outro rapper escreveria; pelo menos da perspetiva completamente vulnerável de OME. E sejamos francos: é uma das características do rapper que atrai os seus fãs. Debruçando-se mais uma vez sobre o ano de 2019, encontramos um OME completamente exausto emocionalmente. Um beat composto por melancólicos acordes de piano, ocupando lentamente o espaço interior de OME, que, por sua vez, suspira ao microfone o seu estado emocional: “It’s October and I’m tired.

The Black Mirror Episode” é, certamente, a faixa mais bizarra deste projeto. O rapper conta-nos como um episódio da série da Netflix quebrou por completo o seu casamento. Ainda que não tenha sido a única razão pelo desmoronamento do mesmo, como ele afirmou numa entrevista à New York Times, não deixa de ser uma situação bizarra e hilariante, de tão caricata que é. Toda a faixa tem um ambiente quase destrutivo, acompanhado por uma entrega mais agressiva e por um beat caótico que atinge o seu expoente máximo no refrão – “Black Mirror Episode ruined my marriage” – e no verso “Shit shoulda came with a content warning”.

Em “Wtf is Self Care” ouvimos, talvez, uma das faixas menos convencionais deste álbum, mas também uma das mais interessantes.  Com um beat simples e quase esquelético, OME mostra a importância que a delivery tem para a comédia através de tentativas absurdas de definição do conceito de “self care“, sem nunca conseguir perceber exatamente o que é – “I think I kinda get it, you know what I mean, but like, what is it?”. Ironicamente, percebemos como a comédia tem um papel vital para o rapper, tanto para a sua personalidade artística como também para a sua maneira de lidar com os seus traumas.

Já em “I’m a Joestar (Black Power Fantasy)”, OME volta à sua própria caracterização, desta vez anunciando-se como um Joestar de JoJo’s Bizzare Adventure – sendo este Joestar o equivalente às personagens principais deste anime. O rapper descreveu esta faixa como uma das suas fontes de força que pretende evidenciar o seu próprio valor e como está nas suas mãos vencer as adversidades. Letras como “I’m tryna tell you I’m a Joestar / I will never be a co-star, no” ou “And it’s me, Mike Eagle, I’m the protagonist/ And it’s set in south-central Los Angeles /’Cause goddammit it, it’s my turn, it’s my saga / It’s a special edition of Open Mike’s manga” suportam a descrição.

Fonte: openmikeeagle360 Bandcamp

No entanto, apesar da clara intenção do rapper, encontra-se, mais uma vez, vítima da falta de profundidade emocional que atacou algumas das canções deste álbum, incluindo as duas últimas músicas “Airplane Boneyard” e “Fifteen Twenty Ocean Nah”, que pouco acrescentam às outras faixas do álbum. Open Mike Eagle apresenta-nos um bom álbum, expondo-se corajosamente e sem filtros sobre acontecimentos ainda bastante recentes na sua vida. Talvez seja mesmo por isso que este álbum não tenha atingido a consistência e o pico do seu álbum anterior, Brick Body Kids Still Daydream. Talvez OME ainda não se consiga exprimir de forma detalhada e aprofundada. Já dizia Fernando Pessoa – “uma obra deve ser feita não no momento de emoção, mas no momento da recordação dela“.

Fonte: Spotify

Artigo por: João Santos

Artigo revisto por Andreia Custódio

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