7ª Arte

Os filmes do Caso Richthofen e os efeitos do cinema na percepção social

No primeiro de novembro de 2002, o Brasil inteiro foi tomado de surpresa com um terrível assassinato em São Paulo. As duas vítimas eram Manfred Albert von Richthofen – um engenheiro alemão e naturalizado brasileiro – e a sua esposa, a psiquiatra Marísia von Richthofen. O casal rico morreu no dia 31 de outubro, na sua própria cama, pelas mãos do genro, Daniel Cravinhos, e do seu irmão mais velho, Cristian Cravinhos. Como se o crime não fosse suficientemente polémico, descobriu-se ainda um terceiro envolvido: a filha mais velha do casal e namorada há mais de três anos de Daniel, Suzanne von Richthofen. 

UM FENÓMENO CRIMINAL

Olhos por todo o país se voltaram com indignação e curiosidade para o ocorrido. O interesse da população foi tão grande que a rede TV Justiça cogitou transmitir o julgamento, que só veio a acontecer em 2006, ao vivo. Mais de cinco mil pessoas inscreveram-se para ocupar os oitenta lugares disponíveis na plateia em tribunal, ansiosas por ver em primeira mão a narração dos envolvidos sobre a sua memória dos eventos. E, nestes dias de audiência, mais uma camada absurda foi adicionada à tragédia. Daniel e Suzanne contaram duas versões completamente diferentes da mesma história, contrariando até mesmo posições que tomaram nas semanas seguintes ao homicídio.

Nas duas estórias (e não as chamaremos de “histórias” por se tratar de duas visões que beiram a ficcionalidade) contadas perante o juiz, um júri, familiares, testemunhas, jornalistas e o público, nenhum dos dois nega o crime. Porém, ambos decidem culpabilizar o outro ao se autodeclararem vítimas de manipulação – seja emocional, física ou psicológica – por parte do parceiro. 

 Daniel Cravinhos e Suzanne von Richthofen quando ainda estavam juntos, antes do crime.
Daniel Cravinhos e Suzanne von Richthofen quando ainda estavam juntos, antes do crime.
Fonte: Twitter

Do seu ponto de vista, Daniel narrou como Suzanne, repleta de charme e sedução, o prendeu emocionalmente a ela até o convencer a matar Marísia e Manfred. Para a jovem, o ataque aos pais serviria tanto como vingança – por tudo o que causaram nas suas vidas –, como para que eles se pudessem relacionar em paz. Cravinhos defendeu que o casal Richthofen condenava o namoro por pensarem pouco dele, uma vez que fazia parte de uma classe social mais humilde, e também por acreditarem que grande parte dos comportamentos desviantes e rebeldes de Suzanne eram causados por conta da influência que ele exercia na vida dela. O pai tratava-a a ela e ao irmão mais novo, Andreas von Richthofen, de forma desrespeitosa e agressiva, o que a jovem usou a seu favor ao planejar o crime. A menina é descrita em sua estória como uma espécie de psicopata, demonstrando continuamente reações anormais e exageradas aos acontecimentos nos seus anos de namoro.  

Já Suzanne falou no tribunal sobre o relacionamento completamente abusivo que viveu com Daniel, no qual ele usurpava o seu dinheiro e se aproveitava do seu amor para a virar contra os pais, além de a forçar a fazer coisas que não desejava. Para ela, os pais proibiram o seu relacionamento porque a amavam, mas o namorado convenceu-a do contrário, ao denegrir a imagem que ela tinha deles com mentiras. Ela negou toda a agressividade e frieza do pai, apontadas pelo ex-namorado, e afirmou começar a perder de si mesma ao ter de suprir todas as necessidades que o narcisista Daniel exigia dela e, por isso, concordara em cometer medonho feito. O poder que ele detinha sobre ela era tão grande que a convenceu de que precisava de se desligar das amarras dos pais e que ela só necessitava dele para ser feliz. 

Estão na imagem, da esquerda para a direita: Suzanne, Andreas, Marísia e Manfred von Richthofen.
Estão na imagem, da esquerda para a direita: Suzanne, Andreas, Marísia e Manfred von Richthofen.
Fonte: Cinemundo

Esses e vários outros detalhes da história de ambos – desde o início do namoro até o dia do crime – contradizem-se nos depoimentos. A forma como Daniel se relacionava com a sua própria família, a dedicação de Suzanne aos estudos, o envolvimento de Cristian no assassinato – e no namoro dos dois – e a participação de Andreas na vida deles são alguns exemplos. Desta inesperada reviravolta dos factos – ou pelo menos da forma como estes eram encarados – surgiu o plano de fundo perfeito para qualquer ficção ao melhor estilo (500) Dias com Ela ou Dom Casmurro. Ou seja, um projeto que traria a questão: que versão seria a correta, ou pelo menos a mais próxima da verdade? Assim, de um crime com três culpados, duas vítimas mortais e duas vítimas dissimuladas (com duas estórias interessantes) surgiram dois filmes: O Menino que Matou Meus Pais, contando a versão de Suzanne no tribunal, e A Menina que Matou os Pais, com o auto de Daniel.

No filme O Menino que Matou Meus Pais, a representação da chegada de Suzanne von Richthofen (Carla Diaz), Daniel (Leonardo Bittencourt) e Cristian Cravinhos (Allan Souza Lima), no tribunal, em 2006
No filme O Menino que Matou Meus Pais, a representação da chegada de Suzanne von Richthofen (Carla Diaz), Daniel (Leonardo Bittencourt) e Cristian Cravinhos (Allan Souza Lima), no tribunal, em 2006.
Fonte: Filmelier
Ambicioso projeto, infeliz resultado

Os filmes de drama policial brasileiros foram lançados, simultaneamente, no dia 24 de setembro deste ano, através da plataforma de streaming Amazon Prime Video. Ambos têm cerca de 90 minutos (1h30) de duração e são codependentes; ou seja, há episódios narrados em um dos filmes que só são vistos e explicados no outro, e só se tem a experiência completa com uma opinião formada acerca dos dois. Contudo, não existe uma ordem correta para as obras, ainda que o diretor, Maurício Eça, aconselhe os espectadores a assistirem à versão de Daniel (A Menina que Matou os Pais) primeiro, sem haver motivos para tal. Outro conselho dado por Eça é o de que os filmes sejam vistos um depois do outro, para que seja possível a comparação, com a memória “fresca”, dos episódios das estórias dos jovens que se contradizem . 

Compará-los é possível por conta da montagem dos filmes, que é construída de maneira a explorar os contrastes palpáveis em tribunal. A cronologia dos eventos é a mesma, com exceção das situações em que apenas um deles participou. Entretanto, a única cena que é rigorosamente igual em ambas as criações é a sequência inicial, na qual os policiais chegam à casa da família Richthofen, após serem chamados pela própria Suzanne, interpretada por Carla Diaz, e encontram os cadáveres. A partir disto e da entrada da menina e de Daniel – caracterizado por Leonardo Bittencourt – em tribunal, quase quatro anos depois do ocorrido, os episódios podem até ser os mesmos, com falas muito parecidas, mas a atuação, a coreografia dos atores, a trilha sonora e até alguns planos são diferentes. 

No filme A Menina que Matou os Pais, Daniel (Leonardo Bittencourt) janta à mesa com a família Richthofen.
No filme A Menina que Matou os Pais, Daniel (Leonardo Bittencourt) janta à mesa com a família Richthofen.
Fonte: G1 – GLOBO

Assim, repara-se que esta proposta é totalmente distinta daquilo que se vê normalmente em filmes do género. Ao invés de se apegarem às conclusões do caso ou até contrastarem as duas versões das personagens principais – Suzanne e Daniel (Leonardo Bittencourt) – com os factos coletados pelos peritos, os filmes procuram narrar as estórias deles de uma perspectiva ficcional. Deixou-se assim de lado qualquer resquício de documentário ou de biografia na obra e, se o público desejar, posteriormente, saber mais sobre o caso, vê-se obrigado a pesquisar a seu respeito – o que definitivamente aconteceu, já que se registou um grande aumento nas pesquisas no Google acerca do assunto.

Colocando nestes termos, vemos, a princípio, um caráter muito mais artístico no planejamento inicial, em contraste com os típicos filmes criminais. Isso porque a ideia toda teve de se apoiar muito mais na execução do projeto – o que não seria possível numa simples obra documental –, baseando-se, rigorosamente, em factos. Digo isto nos seguintes termos: para representar as diferenças subjetivas que duas pessoas descrevem de um mesmo desenrolar de eventos no grande ecrã, o roteiro e a atuação têm de ser tão excepcionais que qualquer um conseguiria compreender a visão de ambos, por mais diferentes que fossem.A ideia ousada da produção era proporcionar uma situação muito comum na vida em sociedade, quando a única forma de recriar eventos é confiando na palavra das únicas duas testemunhas presentes. 

Assim, quase como seguindo à risca, os depoimentos, as atuações, as falas e interações, a trilha sonora e até a pós-produção são exagerados. Não consigo perceber se este era o objetivo desde o princípio – declarar, indiretamente, que a versão dos condenados era tão absurda que não poderia ser acreditada – ou se eles falharam de tamanha forma que este foi o produto final: dois filmes mal organizados. As atuações são péssimas, mecânicas, e os atores principais, que deveriam estar apaixonados, não conseguem passar nenhuma química. A trilha sonora é colocada de maneira forçada para criar ambientes que não surgem naturalmente, por culpa do roteiro e das atuações, e o mesmo acontece com efeitos colocados em pós-produção. Em várias situações de brigas ou surtos individuais, todas as trocas de planos e efeitos surgem como a única solução para a falta de poder de convencimento dos atores. 

Teria sido melhor se os especialistas e peritos que estiveram envolvidos no caso na época e participaram da produção tivessem ajudado os produtores a desenvolver o caráter informativo.

 Daniel (Leonardo Bittencourt) abraça Suzanne (Carla Diaz).
Daniel (Leonardo Bittencourt) abraça Suzanne (Carla Diaz).
Fonte: G1 – GLOBO
“Vítima” e Psicopata ao mesmo tempo

Sem uma base informacional forte e com o caráter subjetivo e artístico penalizados pelos falhanços da produção, num plano geral, as obras ficam com um objetivo meio enevoado e de difícil compreensão. Na verdade, um efeito triste que elas causaram foi o de facilitar o caminho de Suzanne na sua busca pela vitimização. 

O filme O Menino que Matou Meus Pais é um pouco mais feliz na representação do auto de inquérito da jovem Richthofen, o que o torna mais convincente. Entretanto, este é o que mais contraria a teoria atual de criminalistas e psicólogos de que Suzanne tenha manipulado Daniel e não o contrário. 

Acontece que a jovem já foi continuamente diagnosticada com reações características da psicopatia, assim como seus talentos de sedução e manipulação foram confirmados por testemunhas do caso e por presos e oficiais que conviveram com ela nos seus anos encarcerada. Ricardo Salada, perito criminal que trabalhou diretamente no caso, afirmou recentemente num podcast que, no filme narrado por Bittencourt, “pintaram Suzanne de uma forma muito mais extravagante do que aquilo que ela era”. Ele próprio, que teve algumas conversas com a jovem, confirma que ela não era “louca” ou impulsiva como é representada, mas sim calculista, apegada aos detalhes e recatada, o que aumentava o seu poder de persuasão. 

 Carla Diaz à esquerda, representando a chegada de Suzanne (lado direito) ao tribunal, em 2006.
Carla Diaz à esquerda, representando a chegada de Suzanne (lado direito) ao tribunal, em 2006.
Fonte: VEJA

Acredito que o que torna a visão de Daniel no filme A Menina que Matou os Pais tão pobre é exatamente a forma caricaturada com a qual se constrói uma psicopata. Por outro lado, temos uma personagem muito mais simples e corriqueira, fácil de ser transposta para as telas, e que a maioria das pessoas reconhece na sua própria vida: um namorado abusivo. A personagem de Daniel na estória narrada por Carla Diaz não é tão profunda ou bem trabalhada, mas consegue-se acreditar que ela possa ter existido, contrariamente à Suzanne, puramente louca e movida por motivos banais, sem um desenvolvimento concreto. O que nos faz entender a mente e as atitudes de personagens com traços de psicopatia como Amy Dunne, de Garota Exemplar, ou Cassie, de Uma Miúda com Potencial, é a profundidade a que o roteiro lhes permite ir e o trabalho complexo exercido por Rosamund Pike e Carey Mulligan, o que não acontece de forma alguma nestes longas. 

Suzanne (Carla Diaz), no filme O Menino que Matou Meus Pais, fumando maconha.
Suzanne (Carla Diaz), no filme O Menino que Matou Meus Pais, a fumar marijuana.
Fonte: POPline

Numa análise cinematográfica comum, não se deveria comparar tanto a ficcionalidade proposta pela arte com a realidade que ela retrata. Eu, entretanto, trago esses pontos porque acredito que também seja responsabilidade da arte os efeitos que ela causa, nomeadamente aquela que é direcionada para o mainstream. Isto tudo porque, para alguns, por todo o Brasil, Suzanne von Richthofen (da vida real) deixou de ser uma criminosa culpada pela morte dos pais para se tornar numa vítima. Não culpabilizo inteiramente esta produção pelo ocorrido, mas tenho convicção ao afirmar que trazer esta história tão marcante de volta para a apresentar da maneira que ocorreu é bem problemático. 

Nas últimas semanas, Suzanne foi abordada milhares de vezes na faculdade que frequenta para cumprir a sua pena em regime semiaberto por pessoas querendo tirar fotos com ela. Ela chegou a ser comparada com Haley Abreu, uma professora (e verdadeira heroína) que deu a vida para salvar 28 crianças e três adultos de uma escola que pegou fogo a 5 de outubro de 2017. Passados quatro anos desta tragédia e com os filmes de entre os assuntos mais comentados, internautas apontaram ambas como pessoas que dedicaram a vida por causas maiores (que, no caso de Suzanne, seria a luta contra os seus opressores). Até mesmo clubes de fãs (os quais não divulgarei) foram criados em homenagem a Richthofen pela sua “luta” contra as violências física, psicológica e emocional. 

Narrando estes factos, não estou a construir um argumento de que a sétima arte nunca deveria retratar casos criminais verídicos. Sou defensora de que a arte, de forma abrangente, deve permanecer com o seu objetivo de veicular visões diferenciadas do mundo. Contudo, estes filmes e os episódios subsequentes são uma demonstração de como o cinema tem um enorme poder de influência, muitas vezes negativa. Ao assistir aos efeitos causados no Brasil, só me conseguia recordar de como especialistas, hoje em dia, apontam que a quantidade absurda de tiroteios em escolas nos Estados Unidos está diretamente ligada com a forma descuidada com que os meios de comunicação social e o cinema trataram o tiroteio em Columbine, transformando-o num fenómeno e num exemplo que, para muitos, deveria ser seguido e adorado.

Uma mulher que está a cumprir uma pena de 39 anos por matricídio e parricídio torna-se na vítima que sempre quis ser e, aos olhos de alguns, é uma heroína e uma representação de força. E tudo isto é reforçado por um projeto, infelizmente, mal executado… 

Fonte da imagem de destaque: Rolling Stone – UOL

Artigo revisto por Andreia Custódio

AUTORIA

+ artigos

A curiosidade e o questionamento são naturais desde que se lembra. Da História até às artes, sempre tomou gosto por se informar e por compartilhar com outros as suas descobertas. Assim, ao mesmo tempo que o conhecimento e a comunicação surgiam como um estilo de vida, os caminhos jornalísticos e pelo mundo da comunicação social se apresentavam como os melhores a se trilhar.