7ª Arte

Os Óscares: Das elites para o grande público

Pelos últimos 93 anos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, localizada em Beverly Hills, Califórnia, tem vindo a organizar a maior premiação da cultura ocidental: os Óscares. Com um total de 24 categorias que permeiam as cinco ramificações da 7ª arte (atores, diretores, produtores, roteiristas e técnicos), os Prémios de Mérito da Academia (nome formal da estatueta dourada) não apenas celebram e homenageiam incríveis produções, como também ditam tendências e influenciam o mercado e a produção cinematográficos mundialmente.

Além do enorme prestígio ganho, é comprovado que qualquer filme vencedor na maior categoria da noite de premiação (“O Melhor Filme”, apresentada, desde 1972, por último) terá um aumento significativo do seu valor no mercado, assim como no número de exibições e no lucro final. Algo semelhante pode ser citado acerca dos atores e das atrizes que ganham, nas suas respetivas categorias, uma vez que os seus salários aumentam, indubitavelmente, pelo menos no ano seguinte à premiação. Estendendo ainda o seu campo de influência, a academia distribui, mesmo que não anualmente, prémios até mesmo humanitários, como o Prémio Humanitário Jean Hersholt, e científicos, dentre eles o Prémio Gordon E. Sawyer.

Renée Zellweger com o seu Oscar conquistado na categoria de “Melhor Atriz” pelo filme Judy: Muito Além do Arco-Íris, em 2020. Fonte: Sky News

A hegemonia que cerca a academia corresponde a diversos fatores, como, por exemplo, a centralidade da cultura norte-americana na sociedade ocidental. Contudo, não podemos deixar de lado o prestígio de quase um século que a academia construiu para si. Quando foi fundada, em maio de 1927, o seu objetivo principal era aprimorar a imaculada imagem da indústria do cinema, assim como as suas funcionalidades que estavam dispersas por todo o país na época. Ela funcionaria como um centro de debates e de inovação, concentrado em Los Angeles.

Foi o comité de prémios – um dos vários comités formados para a academia – que apontou a necessidade de haver uma premiação de mérito aos artistas e trabalhadores. A ideia que surgiu em 1928 era uma das soluções para tornar a 7ª arte e a sua indústria em algo mais renomado e sofisticado. Desejava-se criar uma elite respeitada ao seu redor. No final dos “Loucos anos 20”, o cinema – e a maior parte das expressões plásticas – não possuía o devido respeito e era visto como um mercado de imorais. Então, no dia 16 de Maio de 1929 realizou-se a primeira cerimónia dos Óscares no Hotel Roosevelt, em Hollywood, querendo quebrar estes estereótipos.

Foto retirada na primeira cerimónia dos óscares, em 1929. Fonte: Oscars.org

A premiação contou com 270 convidados que tiveram de pagar bilhetes no valor de cinco dólares, aproximadamente 69 dólares atuais. Muito longe do que vemos hoje em dia, a atribuição de quinze estatuetas, nas doze categorias diferentes, só demorou quinze minutos e não contou com nenhum tipo de cobertura da comunicação social. Todos já sabiam quem seriam os vencedores e a única pós-festa da noite, que aconteceu no Hotel Mayfair, foi organizada pela grande produtora, agora extinta, a MGM.

A nomeação dos candidatos foi feita por todos os membros da academia. Eram cinco grupos de jurados, cada um com os seus respetivos representantes das cinco áreas do cinema. Para decidirem os filmes das duas (não apenas uma) categorias principais, “Most Outstanding Production” e “Most Artistic or Unique Production”, foi formada uma mesa de cinco jurados que decidiram de forma unânime.

Este mesmo sistema de votação manteve-se quase que inalterado nos últimos 93 anos. A única mudança substancial foi que, à medida que mais categorias foram sendo incluídas – de forma a atender as necessidades do mundo do cinema –, os ramos e os seus profissionais passaram a eleger os vencedores apenas das categorias que lhes diziam respeito. A escolha do melhor filme do ano que passou a ser uma categoria única em 1930 continua a ser da responsabilidade das várias áreas. No entanto, agora todos participam da eleição e é o filme com mais votos que ganha.

Na tentativa de adequar a cerimónia aos padrões necessários para transformar a indústria cinematográfica numa fonte de conhecimento e cultura para a sociedade, mas nunca deixando de lado o seu requinte e elitismo, as mudanças não deixaram de ocorrer. Os nomes das categorias, por exemplo, tornaram-se muito mais práticos e diretos, menos figurativos, para atrair também os públicos que não tinham grandes conexões artísticas. À medida que as inovações foram ocorrendo, novos estatutos também começaram a surgir, o que podemos ver com clareza, nomeadamente nas categorias de “Melhores Efeitos Visuais” e “Melhor Filme/Curta-metragem de Animação” – esta última tendo menos de vinte anos. Podemos citar também a criação em 1947 da categoria de “Melhor Filme Internacional” para atender o público e a produção artística dos países com línguas que não o inglês. Progressivamente, a premiação passou do elitismo para a popularidade massificada. Um reflexo da maioria, mas respeitada pelos poderosos.

Alfonso Cuarón, realizador mexicano, segura os seus três óscares ganhos em 2019, dentre eles o de “Melhor Filme Internacional”. Fonte: Gulf Today

Em 1942, a cerimónia tinha se popularizado tanto que teve de passar a ser exibida no famoso Teatro Chinês na Hollywood Boulevard e deixou de ter público pagante, contando apenas com convidados da academia. Desde lá, ela foi realizada em teatros, migrando para locais maiores quando necessário. A partir de 2002, a apresentação tem sido feita no Teatro Dolby, em Hollywood, onde está a ser construído um museu dedicado unicamente à Premiação. Antes, porém, ela também passou pelo Marquis Theater, de 1948 em diante, e pelo Centro de Música do Condado de Los Angeles, de 1969 até o século XXI.

A entrada do Teatro Dolby a ser preparada para a Passadeira Vermelha da 87ª cerimónia dos Óscares, em 2016. Fonte: Forbes

A primeira transmissão televisiva dos Prémios de Mérito da Academia foi feita em 1953 e para a televisão internacional foi em 1969. Desde os anos 90, a noite de premiação conta, no mínimo, com 100 milhões de telespetadores por todo o globo, simultaneamente, e o custo da publicidade durante a transmissão pode chegar a quase dois milhões de dólares nos Estados Unidos.

Mas essa popularidade dos óscares no meio do grande público não é de agora. Os jornais já no fim da primeira década da cerimónia passaram a lutar pela sua cobertura. Em 1939, o Los Angeles Times, quebrando todas as regras de sigilo estipuladas pela academia, publicou uma edição especial horas antes da cerimónia com todos os nomes dos vencedores, numa ambiciosa jogada de vendas. Assim, a partir de 1940, a academia teve de deixar de divulgar os vencedores com antecedência para a comunicação social. Hoje eles são uma surpresa até mesmo para os membros da academia. Antes da cerimónia, apenas os membros da mesa de jurados de direção saberão o vencedor da estatueta de “Melhor Diretor”, por exemplo.

O sigilo atual é de tamanha forma prezado que nem mesmo se saberá o número exato de estatuetas a serem entregues todos os anos. A possibilidade de empates ou de múltiplas pessoas receberem os prémios leva a academia a manter um considerável número adicional de ‘Óscares’ no próprio teatro. Esta decisão foi ainda mais reforçada quando, no ano 2000, algumas semanas antes da apresentação, o carregamento com as estatuetas que são produzidas há quase meio século em Nova Iorque foi roubado. Ainda que a carga tenha sido recuperada, nada impede a academia de se assegurar de que todos os vencedores ganham a sua devida porção de mérito e honra na forma de um homenzinho dourado a empunhar uma espada.

Envelopes, com os vencedores de cada uma das categorias, lacrados e organizados para a cerimónia de 2015. Fonte: KPCC

E, já agora, citando a grande estrela desta premiação, ele próprio tem uma história de nascimento invulgar. O responsável pelo design do Prémio de Mérito da Academia foi Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM, que participou da direção artística de clássicos como “Gaslight” e “O Feiticeiro de Oz”. A lenda urbana conta que ele teria feito o primeiro esboço do prémio numa toalha de papel na casa de banho de uma casa de festas! Desenhada com uma forte influência do estilo Art Decó, a figura representa um cavalheiro a empunhar uma espada (ao estilo dos cruzados), de maneira a proteger os cinco ramos do cinema. Estes ramos estão representados na base em que o cavalheiro se ergue, uma vez que ela é um rolo de filme que tem, anormalmente, cinco raios na sua circunferência. O formato original da peça só sofreu uma alteração ao longo dos anos, quando em 1945 se incluiu o pedestal de ouro acima do rolo de filme.

A estatueta. Fonte: Architectural Digest

A alcunha carinhosa foi-lhe atribuída de maneira totalmente desproposital. Na verdade, nem se queria atribuir um nome ao cavalheiro defensor da 7ª arte, uma vez que deveria ser como um espelho de todos os vencedores. Não se sabe ao certo quem teria escolhido o nome Oscar, mas isso não impede o grande público de criar especulações. A teoria mais conhecida é atribuída à secretária executiva da academia, Margareth Herrick, que, ao ver a estatueta, teria comentado que ela se parecia com o seu tio Óscar. Outras versões incluem também a atriz Bette Davis, que teria dado esta alcunha ao prémio quando o conquistou em 1936, e Walt Disney, a pessoa que mais coleciona estatuetas na história da premiação.

Independentemente de como ganhou o seu nome, o importante é que ele se popularizou e adicionou uma outra camada artística ao prémio, funcionando como uma espécie de pseudónimo. Contudo, diferentemente do que muitos pensam, e sonham, ele não é feito de ouro. A sua composição é composta sobretudo por estanho e cobre e são utilizados quase quatro quilogramas de ouro para folheá-lo. Isto não tira, entretanto, o valor – tanto cultural quanto no mercado – desta peça icónica.

A estatueta a ser secada com um jato de ar depois de um banho de ouro. Fonte: New Greenfil

De uma pequena e elitista cerimónia, os Óscares transformaram-se na maior e mais vista cerimónia do mundo, influenciando continuamente milhares de pessoas. A sua influência é inegável e o seu poderio em definir as tendências cinematográficas não deve ser ignorado. Inclusive, esta era a real intenção dos primeiros fundadores da academia. L.B. Mayer, cofundador e dono da grande produtora MGM e um dos primeiros participantes da academia e do comité de premiações, afirmou uma vez em entrevista sobre a cerimónia: “Eu vi que a melhor forma de lidar com os produtores de filmes era pendurar medalhas neles. Se eu lhes desse taças e prémios, eles matar-se-iam a produzir exatamente aquilo que eu queria.” (tradução livre)

Ainda com a boa intenção, divulgada de maneira oficial pela academia, de criar um ambiente de valorização da arte, verificamos que esta vertente quase ditatorial da premiação, infelizmente, existe. Muitos, até hoje, criticam a cerimónia pela forma como escolhem os vencedores, construindo padrões e limitando o acesso de novas ideias. É impossível negarmos que correntes novas entrarem na cerimónia sempre foi extremamente difícil e as produções foram repetidamente esquecidas, ou negligenciadas, por não seguirem o ‘protocolo caça-oscar’.

Utilizemos, primeiramente, o exemplo das animações. Estes filmes, extremamente populares, com uma vasta qualidade técnica e que marcam o cinema há mais de meio século, só foram devidamente incluídos na premiação em 2001. Muitos foram aqueles que criticaram a demora no reconhecimento, mas nem se pode comemorar o feito de maneira plena, uma vez que a categoria de “Melhor Filme de Animação” só fora criada naquele ano para premiar o filme “Shrek”. Os membros da academia, na ocasião, perceberam que não poderiam deixar a produção da DreamWorks de fora, porém não acharam adequado incluí-la na categoria de “Melhor Filme”, mesmo que muitos a considerassem digna de tal.

 Podemos ver algo semelhante no caso do blockbuster “E.T. O Extraterrestre”, de Steven Spielberg. Esta grande obra que influencia pessoas ao redor do mundo por gerações e que foi um marco para os efeitos especiais estava a concorrer na principal categoria da noite em 1983, mas perdeu para o filme “Ghandi”, de Richard Attenborough. O produtor da biografia do líder indiano reconheceu mais tarde que o filme de Spielberg não só era melhor, como foi deixado, vergonhosamente, de lado na premiação, tendo merecido muito mais.

 Pelo que vemos, é quase como se por longos anos a academia temesse incluir filmes populares e que não sejam no formato tradicional: dramas históricos, musicais românticos, biografias impactantes, etc. Em Agosto de 2018 foi anunciado que uma nova categoria seria incluída na premiação: “Outstanding Achievemente in Popular Film”. A confusão do público foi tamanha que a decisão foi revogada, pois, afinal, o que impediria a academia de incluir estes filmes populares, e talvez mais apelativos, na premiação, se assim merecessem? É facto que certos tipos de filmes, nomeadamente os de terror e os de comédia, possuem sérias dificuldades em alcançar visibilidade na academia.

E assim vem acontecendo com vários filmes. Quão louco é pensar que um dos maiores filmes de sempre – “Citizen Kane” – nunca chegou a ganhar na categoria de “Melhor Filme”? Ou que Hitchcock, que, para alguns, é o melhor diretor da história da 7ª arte, nunca recebeu uma estatueta na categoria que lhe dizia respeito? Ou que Charles Chaplin, nos seus 75 anos de carreira, só recebeu dois prémios, ambos honorários, da academia. Estes, como muitos outros casos, são exemplos de como, muitas vezes, a academia não está pronta para os ventos das mudanças. Filmes, diretores, atores e guiões que só foram reconhecidos pela mesma anos depois, por não se encaixarem nos perfis e cânones já traçados.

Charles Chaplin com o seu Óscar honorário na premiação de 1972. Fonte: Cinema Clássico

Há anos, estes tradicionalismos da academia definem a maneira como a crítica cinematográfica deve ocorrer, irritando cinéfilos desejosos por uma espécie de revolução modernista. Reconhecendo estas cercas criadas, uma série de tentativas da academia surgiu, tanto à procura de diminuir a sua hegemonia, como para expandir o seu campo de análise. Antes, por exemplo, a frase dita na entrega da estatueta era “E o vencedor é…”, enquanto hoje se fala “E o Oscar vai para…”. Esta singela mudança foi feita quando a mesa de juízes percebeu o autoritarismo por detrás da primeira opção, como se apenas a academia tivesse voz nesta decisão.

Depois de anos de espera, os fãs do género de super-heróis puderam, finalmente, alegrar-se quando o filme “Pantera Negra” chegou à principal categoria no ano de 2018, algo que nenhuma outra franquia neste estilo, nem mesmo o renomado Batman, de Christopher Nolan, havia conseguido fazer antes. Este ano temos até mesmo a controversa comédia de Sacha Baron Cohen, “Borat – Fita de Cinema Seguinte”, que teve o seu primeiro capítulo esquecido pelas elites hollywoodianas no início do século, mas que alcançou o coração do público. E quão grande – e feliz – foi a surpresa dos críticos e do público ao ser revelado que um filme, de língua original não inglesa ganhou como “Melhor Filme” no ano passado! “Parasitas” quebrou fronteiras, físicas e cinematográficas. Um vento de esperança para aqueles produtores, roteiristas, diretores, atores e até mesmo amantes desta arte, que a veem como algo muito maior do que os típicos filmes americanos padronizados.

O realizador e roteirista sul-coreano Bong Joon-ho, com o elenco do filme Parasitas, a comemorarem a vitória do filme na maior categoria da noite. Fonte: Reuters

Um facto é que Os Óscares são a maior cerimónia do mundo cinematográfico, construída em anos de história e de prestígio, mas o tradicionalismo que o construiu nunca pode, nem deve, atrapalhar a sua contínua evolução, sendo o espelho de uma indústria cada vez mais múltipla e representativa.

Artigo redigido por Amanda Silva

Artigo revisto por Ana Rita Silva

Fonte da imagem de destaque: Reader’s Digest

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