Opinião

Ouvir música: a evolução de um hábito

(Ilustração por Rute Cotrim)

CRÓNICA - Ouvir música - Marcos Melo (corpo do artigo)

Nas últimas décadas, o hábito de ouvir música sofreu inúmeras transformações. A tarefa a que me proponho é desafiante: sintetizar trinta anos de consumo de música em meia dúzia de parágrafos. Se, para as gerações que nasceram após a viragem do milénio, um Walkman ou um Discman são, provavelmente, objectos estranhos, em contrapartida, nos anos 90, a possibilidade de ouvir milhões de músicas gratuitamente em plataformas de streaming era uma ideia que nem à ficção lembrava.

Nasci em 1984, o ano em que Madonna lançou o icónico “Like A Virgin”. Na penúltima década do século XX, ouvia-se música em cassete (ou k7) ou em CD (a novidade de então). Ao mesmo tempo, o vinyl entrava em declínio. Nesses anos, surgiu a noção de música portátil, com o aparecimento do Walkman (a tradução homem andante faz sentido, certo?), um leitor de cassetes portátil com headphones – qual iPod, qual quê! Os 80’s testemunharam, ainda, o nascimento do primeiro canal de música, a MTV (o YouTube só chegaria 20 anos depois…).

Passemos aos anos 90, a era de ouro do CD. Quando comecei a consumir música, não tinha dinheiro para comprar cassetes ou CDs. Perguntem-me: como é que ouvias música? O procedimento era quase artesanal. Ouvia-se rádio e quando começava a tocar uma música de que se gostava, ligava-se o deck da cassete da aparelhagem que tinha a opção de gravação. Portanto, as ‘playlists’ eram compostas por pedaços de músicas gravadas directamente da rádio. Eram poucos os lares que tinham um computador, por isso, não havia como copiar CDs. Então, pedia-se o CD emprestado a um amigo e gravava-se directamente para a cassete. Hoje, com mais de dez anos de distância, pergunto-me: isto de gravar músicas para cassete, a partir da rádio ou do CD, não era já, na altura, uma forma de pirataria? Não foram os próprios fabricantes destes aparelhos que fomentaram esses comportamentos? Na senda da música portátil, o Walkman deu lugar ao Discman, substituindo as cassetes por CDs.

A Internet chegou lá a casa no ano 2000. Ofereceram-me um modem de 56k, que fazia uma chinfrineira ao ligar a Internet. Os programas de partilha de ficheiros de música, como o Kazaa, começavam a surgir. A expressão mp3 entrava no vocabulário. Na altura, não se tinha a noção daquilo que era a pirataria. O importante era a possibilidade de, passados alguns minutos (por vezes, descarregar uma música de 3 minutos podia demorar 1 hora ou mais…), ter aquela música pela qual ansiávamos. Entretanto, a Apple provocou uma revolução, ao apresentar um objecto inspirado no Walkman e no Discman: o iPod, o mais famoso leitor de mp3 que permitia guardar dezenas (ou centenas) de músicas no bolso, sem ser necessário andar com K7 ou CDs na mochila. A era do digital emergia assim ao mesmo tempo que estourava a crise da venda dos CDs, sobre a qual ainda se discute hoje.

A partir daí, já estão mais familiarizados com o desenrolar da história. O império do digital assentou arraiais. O YouTube apareceu e transformou totalmente os hábitos da visualização de vídeos (os canais musicais, como a MTV, entraram em colapso). Curiosamente, o vinyl ressuscitou, sendo inclusive encarado como um objecto de culto. É um cliché, mas hoje está mesmo tudo à distancia de um clique. Se quisermos já nem precisamos de comprar música. Podemos aceder ao Spotify e ouvir gratuitamente todas as músicas de todos os artistas possíveis e imaginários.

Apesar de todas as vantagens do digital (sou um digital addicted, admito), confesso que sinto alguma nostalgia em relação ao que já lá vai. Dito isto, não quero armar-me naquele tipo de moralista que diz “no meu tempo é que era”. Não é isso. Mas afirmo que a minha geração experienciou coisas giríssimas, rituais de culto, que hoje quase nos parecem primitivos.

Para terminar, fica a pergunta: qual será a próxima novidade naquilo que ao consumo de música diz respeito?

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