Pela liberdade, um artigo sem rosto

Escrevo este artigo por medo. Porque acredito que se as coisas continuarem a seguir o rumo que estão a seguir talvez não possa manifestar este tipo de opinião daqui a alguns anos. Acredito que qualquer um que se debruce sobre o mesmo assunto consegue chegar à mesma conclusão. Mas agora vou guiar-te pela minha cabeça. Não vou usar a persona do Carlos. Ou qualquer outra. Este vai ser o meu monologo para ti. Que lês isto através de um ecrã. Em casa, num transporte, no trabalho ou numa aula. Bem, aulas agora só à distância, mas isso nem é o mais importante. 

Proponho que comecemos pela história, pode ser? Sou uma amante da matéria e talvez seja suspeita por começar por aqui. Tenho ouvido no curso que começar pela parte histórica não é uma boa política. Mas vou fazê-lo.

A liberdade é entregue para a mão de figuras austeras sempre que o desespero aperta. Vejamos, foi assim quando a Europa entrou numa crise lá no século XX. Lá longe, não é? Aceitável seria pensar que o que aconteceu no passado nada dita no futuro. Não sou lá muito apologista desta história. 

Vê bem, as ditaduras fascistas foram uma praga que mataram mais do que qualquer epidemia. Vivia-se com medo. E opto por não falar na Alemanha, na Itália ou na Rússia. Falo-te da Quintinha de Salazar. Porque o nosso país não foi uma exceção. Em Portugal, querendo dar-lhe o nome de fascismo ou não, porque sei que é um tópico delicado e que gera confusão, foram ceifadas muitas vidas. Desde as prisões, na metrópole e além mar, à guerra. Porque houve sangue para defender o que nunca foi nosso.

A ditadura não é um mito urbano, criado para assustar as criancinhas e fazer com que elas se deitem a horas decentes. Se calhar a minha visão da ditadura esteja influenciada por aqueles que me criaram. Venho de uma família humilde com as raízes lá no Alentejo. Avós que começaram a trabalhar quando tinham pouco mais de dez anos. No campo, de sol a sol. Sabem o que é ter uma casa onde cabe sempre mais um, mesmo que o mais um signifique sete irmãos, os pais e, talvez, tios. Passava-se fome. Os professores tinham o direito a dar as conhecidas reguadas e eram “respeitados”. Melhor, temidos. Mas acima de tudo. Eles lembram-se perfeitamente de um detalhe: não se podia falar. 

O populismo não é algo novo. Foi uma expressão cunhada lá para o século XVIII.  Mas não sobreviveu só nesses tempos longínquos. Foi a palavra do Ano em 2017. Vá-se saber porquê. Do Trump, só posso falar das atrocidades que surgiram ao longe. Do que se ouve nas notícias. Mas morava no Brasil quando o nome de Bolsonaro começou a pairar. E lembro-me vivamente como é que ele começou a entrar na cabeça das pessoas. Como as primeiras entrevistas polémicas se tornaram virais e como o nome dele chegou quase como uma aparição de um messias de alguns. Mas só na imaginação. Porque o desemprego aumentou, o real perdeu mais valor, estão a morrer milhares numa pandemia por inconsequência de um presidente e a fome, assim como a corrupção, só crescem. Pé ante pé é ceifada a liberdade. E não só nos média. E o Brasil não faz esta caminhada sozinho, mesmo estando uns passitos à frente.

Não minto: tenho medo de ditaduras. Falo demais e temo viver numa sociedade em que possa perder esse direito. Hoje, quando fui dar o meu passeio noturno pelo Twitter, vi um nome de um político nas trends. Achei que seria mais uma polémica. Que na verdade era. Mas hoje não por ter dito algo na Assembleia. Há quem acredite que alguém o “censura” . Será que sequer viram a AR TV? Aquele homem não precisa que o “censurem”. Ele anda a fazer afirmações inconstitucionais há imenso tempo. E ninguém o parou. A quantidade de pessoas que acreditou nisso só demonstra que a lavagem cerebral está a ser um sucesso.

Este é um artigo sem rosto. O nome não está escrito. Mas a ideia está implícita. E acredito que chegaste lá. Qualquer um que consiga deitar a cabeça na almofada, com tranquilidade, enquanto defende o causador deste atentado aos direitos humanos e às leis pelas quais nos regemos, pinta as suas mãos com sangue. Sangue de uma liberdade roubada.  Longe de mim pensar que estou certa sobre tudo o que penso. Confiar que a minha visão se sobrepõe a qualquer outra que possa surgir.

Artigo por Mariana Serrano

Artigo revisto por Mónica Harris

Fonte da imagem em destaque: Manual do Usuário

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