Artes Visuais e Performativas

Quando o palco encontra o algoritmo

Arte ou algoritmo? 

Entre código e criação, as fronteiras da arte estão a desaparecer. 

A inteligência artificial (IA) está cada vez mais a entrar no território das artes performativas e visuais, não apenas como ferramenta, mas como parceira criativa. Entre o entusiasmo e a desconfiança, artistas e público são confrontados com uma nova pergunta: afinal, quem cria? 

A ideia de arte esteve sempre ligada à expressão humana, à emoção, à intenção e à experiência. Mas essa definição começa a tornar-se instável. Com a entrada da inteligência artificial no campo criativo, as fronteiras entre quem cria e o que é criado tornam-se cada vez mais difusas. Hoje, os algoritmos já não são apenas ferramentas invisíveis: participam ativamente no processo criativo, gerando imagens, sugerindo movimentos, escrevendo textos e até influenciando decisões estéticas. A criação deixa, assim, de ser um gesto exclusivamente humano para se tornar um processo partilhado. 

Nas artes visuais, um dos casos mais conhecidos é o coletivo Obvious, que ganhou notoriedade com Edmond de Belamy, um retrato gerado por inteligência artificial e leiloado pela Christie’s. A obra tornou-se um símbolo do potencial e da polémica da IA na arte. Mais do que o valor de venda, o que marcou foi a questão que levantou: se uma máquina participa na criação, quem é realmente o autor?

Fonte: Christie’s – leilão de Edmond de Belamy (2018)

No campo das artes performativas, esta transformação é mais subtil, mas igualmente significativa. Coreógrafos e criadores começam a trabalhar com sistemas capazes de gerar variações de movimento ou de responder em tempo real ao ambiente e ao público. A performance torna-se menos fixa, mais aberta, quase imprevisível – um diálogo entre corpo e código. 

Mas esta transformação não acontece apenas lá fora. Em Portugal, o artista Mario Klingemann (com forte ligação ao circuito artístico português) tem explorado inteligência artificial para criar obras que questionam a própria noção de autoria. O seu trabalho cruza arte generativa, redes neuronais e estética digital, colocando o algoritmo no centro do processo criativo. O seu trabalho não procura esconder a máquina — pelo contrário, Klingemann expõe-na, questionando diretamente a ideia de autoria e originalidade. 

Fonte: Obvious – projeto de arte com inteligência artificial 

Mais do que substituir artistas, a IA está a redefinir o seu papel. Em vez de criadores isolados, os artistas tornam-se curadores de processos, orientando sistemas que também produzem resultados inesperados. Mas à medida que estas práticas se 

expandem, surgem também novas dúvidas: até que ponto a arte gerada com IA é verdadeiramente original? E que implicações existem quando estes sistemas são treinados com milhares de imagens criadas por outros artistas, muitas vezes sem consentimento? 

Ainda assim, permanecem dúvidas: será isto criatividade ou apenas cálculo? E até que ponto estas ferramentas reproduzem estilos já existentes, em vez de criar algo

verdadeiramente novo? Tal como aconteceu com outras tecnologias ao longo da história, a inteligência artificial parece destinada a integrar-se no ecossistema artístico não como uma ameaça, mas como uma extensão das possibilidades humanas. 

Talvez seja isso que está a acontecer agora. A inteligência artificial não substitui a criatividade humana, mas obriga-nos a repensá-la. O artista deixa de ser apenas quem cria, para passar a ser também quem escolhe, orienta e interpreta. 

Num momento em que o código entra no espaço da criação, a questão deixa de ser apenas técnica para tornar-se também cultural. No cruzamento entre arte e algoritmo, não está apenas em causa o futuro da arte, mas também a forma como entendemos a própria criatividade. 

Fonte da capa: Fast Compamny Brasil

Artigo corrigido por Leonor Almeida

AUTORIA

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Sou a Matilde, acabei agora o meu 1.º ano de RPCE na ESCS. Nas horas vagas, o meu mood é mega básico: adoro ler, sou viciada em cinema e não dispenso o prazer de conduzir com a música aos berros.