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Sausage Party

Depois das muitas gargalhadas proporcionadas com Superbad, Pineapple Express ou This is The End, a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg regressa com um dos filmes mais polémicos e chocantes de 2016 que tem dividido muitas opiniões, mas que curiosamente tem figurado para muitos como uma das mais geniais obras de comédia alguma vez produzida por ambos.

O que é concretamente Sausage Party (ou Salsicha Party em português – o Google Tradutor encravou a meio da tradução) poucos conseguirão dizer. Talvez apenas que se trata de um filme de animação muito pouco convencional, um pouco à imagem de Happy Tree Friends, utilizando desenhos dóceis e inocentes (neste caso de comidas e utensílios domésticos) com o intuito de se debruçarem sobre temas correntes e delicados com um toque de humor adulto e surreal. Será fácil traumatizar qualquer criança de dez anos que tenha achado que iria aprender as cores ou a roda dos alimentos nestes cartoons. Para terem uma ideia, o modo como o humor é trabalhado é polarizador. Oferece-nos cenas geniais e muito bem escritas, onde o tom cómico surge de modo subtil e inteligente. Mas também, momentos em que a barreira dos tabus é demolida e a audiência mantém um semblante neutro enquanto olha para o ecrã sem esboçar reação, questionando-se interiormente o porquê de terem escolhido ver este filme ao invés daquele que, apesar de ter adormecido toda a plateia a meio, recebera ótimas críticas por se basear num evento verídico com um protagonista inspirador, mas incapaz de romper o colete dos clichés do romance.

Voltando ao filme em concreto, ainda que inclua um lote de cenas extremamente brutais e cruas, Rogen e Goldberg conseguem incluir outros aspetos em Sausage Party que o personalizam e o tornam apreciável, pois privilegiam a crítica ao “fazer rir” forçado que muitos habitualmente colocam em primeiro lugar nos dias de hoje (sim, estou a referir-me a ti, Family Guy). É visada a sociedade moderna, onde se debatem questões do quotidiano como as diferenças étnicas, a religião – através da legitimidade dos fundamentos e crenças religiosas – e ainda um pouco das habituais questões existenciais acerca da averiguação do nosso propósito neste mundo. Temas controversos e introspetivos que geraram um habitual e esperado burburinho, mas que lograram o objetivo principal de abrir uma porta para o debate ao sobreporem a sagrada linha do conservadorismo. Além disso, o filme ganha uma inegável qualidade pela química e pelo à vontade de todos os intervenientes que emprestaram as suas vozes, tais como Seth Rogen, Kristen Wiig, Jonah Hill, James Franco, Craig Robinson ou Edward Norton, que, habituados a trabalhar em conjunto em filmes anteriores (realizados por Judd Apatow ou pelo próprio Rogen com Goldberg), transpõem as suas amizades e parvoíces para o ecrã e dão uma outra naturalidade aos diálogos, estes também fantasticamente compostos.

Antes de terminar a crítica, falta-me referir o trabalho desenvolvido pela equipa de animação composta por Conrad Vernon e Greg Tiernan, ambos já com uma ampla e vasta experiência neste ramo (Vernon foi responsável pela animação de outros clássicos como Shrek ou Madagascar, por exemplo), o que permitiu dar uma certa credibilidade à animação do filme, com uma excelente montagem de cenários e uma criação natural e simples de qualquer personagem que entrasse em cena (e que neste caso foram praticamente salsichas, pães, mostardas, e um ou outro taco pelo meio). A ideia de, de certa forma, prestar homenagem aos protagonistas dos filmes da Disney e Pixar ficou muito bem entregue a estes dois homens.

Sausage Party é um bom filme de entretenimento, rico em conteúdo e paródia, mas que estabelece um marco na história da animação (e quiçá do cinema). Como tinha dito, esta mixórdia de temáticas aliada a uma imaginação criativa singular dificulta um pouco a classificação concreta deste filme. É comédia e animação, sim, mas sou da opinião que vai muito mais além disso, pelo que deixo no ar a sugestão de denominar Sausage Party um ensaio crítico-cómico-experimental, algo acabadinho de inventar por mim. Penso que seja o mais lógico, afinal. Que venham mais ensaios crítico-cómico-experimentais!

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