Literatura

«Se Deus não tem unidade, Como a terei eu?»

A maioria das pessoas já ouviu falar de Fernando Pessoa, mas quem foi realmente? Ensinam-nos desde cedo que foi um escritor, um poeta, um filósofo… mas não foi apenas isso. Neste artigo, irei dar a conhecer um pouco mais da vida de alguém que é atualmente considerado um ícone da literatura portuguesa.

Vida de Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888 e faleceu a 30 de novembro de 1935, em Lisboa, não tendo vivido a sua vida inteira nesta cidade. Entre 1896 e 1905, viveu com a sua mãe na África do Sul e desde pequeno aprendeu inglês. Um dos seus primeiros projetos, ligados à Literatura, foi o jornal O Palrador, criado em 1902, quando tinha apenas 13 anos, onde escrevia algumas piadas, poemas e textos de opinião, em conjunto com outros redatores. Mantendo o seu interesse nesta área, estudou na Durban High School e, mais tarde, frequentou o curso de Letras, já em Lisboa, mas nunca chegou a terminar a referida Licenciatura.

Trabalhou como tradutor e colaborou em algumas revistas como A Águia, com artigos a que chamou A Nova Poesia Portuguesa, na Athena, na Renascença e na controversa revista Orpheu. Além dos trabalhos referidos, Fernando Pessoa também se destacou na área da publicidade, sendo o autor do conhecido slogan «Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se», utilizado no lançamento da campanha da marca Coca-Cola, em Portugal. Embora tenha sido escrito em 1928, a bebida só foi autorizada para consumo após o 25 de Abril de 1974.

À semelhança de outros artistas da sua geração, Pessoa viveu num período de acontecimentos históricos que sucedeu a queda da monarquia e a implantação da República; o governo provisório de Teófilo Braga; a ascensão do primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga; o Estado Novo… e vivenciou as consequências sociais e económicas desta época. Mas o poeta não se limitou apenas a observar tudo isto: escreveu vários textos sobre estes episódios, revelando-se, por exemplo, um apoiante de Sidónio Pais.

Fotografia de Daniela Filipa
Retrato de Fernando Pessoa, de Almada Negreiros

Modernismo e Geração Orpheu

Em 1914, Pessoa publicou na revista Renascença os seus poemas Ó sino da minha aldeia e Pauis. O primeiro tem como base o tema da saudade enquanto o segundo ilustra o Paulismo, uma corrente literária baseada na melancolia, no simbolismo, na subjetividade e na associação de ideias aparentemente desconexas, dando início ao que viria a tornar-se o Modernismo.

Incentivado pelo seu amigo Mário Sá-Carneiro, o poeta continuou a publicar poemas, recorrendo a um novo conceito de arte. A sua poesia começou a aproximar-se do cubismo, ligando o plano do sonho à realidade e originando, assim, o Intersecionismo. As novas abordagens artísticas foram também defendidas por outros artistas, além de escritores. Notabilizaram-se rostos como Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, Amadeo Souza-Cardoso, José Pacheco e António Ferro e nasceu a famosa Geração de Orpheu. Em 1915, estreia-se a revista Orpheu, com apenas duas edições, desenvolvendo aquilo a que hoje nos referimos como «ismos pessoanos»: o já referido Intersecionismo, o Sensacionismo, que dizia respeito à expressão das sensações, e o Futurismo, que pretendia transmitir uma nova visão dinâmica, que exaltasse a modernidade. Esta nova atitude por parte dos artistas escandalizou a imprensa e a opinião pública, tendo sido vista por muitos como uma autêntica loucura naquele momento, embora atualmente a mesma seja conhecida como um movimento revolucionário que enriqueceu a cultura portuguesa.

Fotografia de Daniela Filipa
Revista Orpheu: edições 1 e 2

Questão heteronímica

Mas quando nasceram os famosos heterónimos?

Algumas pessoas associam Fernando Pessoa a apenas três heterónimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, mas estes não foram os únicos criados pelo autor.

Desde criança, Pessoa gostava de imaginar personagens que vivessem no mundo real e a sua primeira criação foi Chavalier de Pas (cavaleiro do nada), quando tinha apenas seis anos, dando início ao seu incrível percurso no seu próprio mundo. Mais tarde, iniciou-se a criação de personagens com vidas escritas pelo poeta: os heterónimos e semi-heterónimos sucessivamente mais elaborados, desde Alexandre Search a Bernardo Soares ou a Álvaro de Campos, nascidos de acordo com os seus cálculos e calendários astrológicos, uma vez que, além da escrita, o poeta interessava-se bastante pela astrologia e pelo esoterismo. Cada nome correspondia a uma vida diferente, com data de nascimento (e alguns de morte) própria e uma linha de pensamento única que se refletia nos seus textos em prosa e em poemas cuja origem seria «o fundo traço de histeria» de Pessoa, tal como é referido na sua famosa carta a Adolfo Casais Monteiro, onde fala da sua criação heteronímica.

Na sua generalidade, acabaram por se destacar o poeta clássico, o poeta bucólico, o poeta da modernidade e o guarda-livros, sendo o último o que mais se aproximava do próprio Fernando Pessoa e nos relembra um pouco do estilo de Cesário Verde, bastante admirado pelo autor.

Fotografia de Daniela Filipa
Mapa Astrológico de Fernando Pessoa, na Casa Fernando Pessoa

Mensagem, Livro do Desassossego e poemas soltos

Falando de Fernando Pessoa, não podemos deixar de referir que, embora tenha escrito vários poemas e textos em prosa, assinados pelo próprio e pelos seus heterónimos e semi-heterónimos, o autor chegou a publicar apenas uma obra completa: a Mensagem. Esta obra retrata personalidades portuguesas como o Infante D. Henrique e Vasco da Gama, como heróis míticos, exalta a sua coragem, louva o espírito patriota, demonstra a sua esperança no ressurgimento da nação e refere o possível alcance do Quinto Império, aludindo ao simbolismo e esoterismo.

Outro facto sobre as suas composições é que, embora haja muitos livros publicados com poemas do autor e edições do famoso Livro do Desassossego, estes foram publicados após a recolha e organização dos textos por parte dos editores e não pelo poeta. Pessoa escrevia apenas poemas e textos soltos, alguns com notas do que viria a ser o Livro do Desassossego, outros publicados nas revistas onde trabalhou… No entanto, muitos não foram sequer publicados ou divulgados na altura. Além de composições em folhas soltas, Pessoa também fazia anotações nos seus próprios livros e não deixou de escrever até ao momento da sua morte, deixando um papel com a frase «I know not what tomorrow will bring». Muitos dos seus textos e anotações encontram-se disponíveis no site da Casa Fernando Pessoa.

Fotografia de Daniela Filipa
“I know not what tomorrow will bring”, Casa Fernando Pessoa

Casa Fernando Pessoa

Para concluir este artigo, destaco também a Casa Fernando Pessoa em Lisboa, no Bairro de Campo de Ourique. A Casa foi habitada pelo autor nos seus últimos 15 anos de vida e, para os amantes da poesia, possui uma biblioteca com autores mundiais e uma exposição de três pisos sobre Pessoa. Devido à atual situação de pandemia, a Casa encontra-se temporariamente fechada ao público, mas a sua exposição incide principalmente sobre o seu percurso de vida e os seus heterónimos, dando-nos a conhecer alguns objetos da sua vida pessoal, cartas escritas pelo mesmo, a sua própria biblioteca, a biografia dos seus principais heterónimos e as revistas onde trabalhou. Além disto, os visitantes podem ouvir alguns poemas assinados por Fernando Pessoa Ortónimo ou por alguns dos seus heterónimos e conhecer como era a casa onde habitou o poeta durante a sua vida. Também é possível ouvir o testemunho da sua sobrinha, revelando mais um pouco da sua vida pessoal.

Fotografia de Daniela Filipa
Retrato de Fernando Pessoa, de Adolfo Rodríguez Castañé

Fotografia de capa de Daniela Filipa

Artigo escrito por Daniela Filipa

Artigo revisto por Rita Asseiceiro

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