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Sei lá o que é o feminismo

Outro dia disseram-me (na internet) que eu não era uma verdadeira feminista. Fiquei tão chocada quanto ofendida porque, em primeiro lugar, sou das pessoas mais feministas que conheço e, em segundo lugar, não conhecia a pessoa de lado nenhum. Mas ela (repita-se, ela, rapariga) parecia conhecer-me muito bem.

O contexto da conversa não tem qualquer importância; sei que a certa altura devo ter dito algo como “adoro camisolas de gola alta”. Nem sequer é verdade – mas não interessa. Interessa que a rapariga levou isso a peito e resolveu explicar-me porque é que eu, feminista, não o podia ser se gostasse de camisolas que tapam o pescoço.

A explicação foi longa, detalhada, e incluiu outros argumentos em nada relacionados com roupa; a certa altura já se falava na importância da música da Halsey e no livro autobiográfico da Lena Dunham. Não sei quem é a Halsey, nem a Lena Dunham. O problema é meu.

À parte isso, acho que percebi tudo. Aliás, para provar que entendi plenamente os argumentos da menina-mulher-qualquer coisa, resolvi criar uma lista com os parâmetros a seguir para alguém que deseje, realmente, tornar-se feminista. Não uma feminista qualquer, mas uma feminista ciente das suas capacidades de teclar muito rápido, que quer mudar o mundo através de discussões agressivas no Facebook e no Tumblr. Uma feminista da internet.

Aviso: a seguinte lista é patrocinada por sjws (social justice workers) e mulheres que dançam nuas em igrejas.

1) Andar nua é importante. Nenhuma mulher se pode chamar feminista se estiver coberta de roupa até aos olhos. Dispam-se! Mostrem os peitos! Vão para a rua gritar “o meu corpo é lindo”! E se forem presas por atentado ao pudor, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.

2) Façam sexo. A sério, louvar a virgindade só ajuda a prolongar a ideia de que as mulheres que já não são virgens são impuras (qualquer coisa a ver com religião, ou assim, já não me lembro). Por isso façam sexo. Muito sexo. Com muitos homens diferentes. Sejam impuras, é óptimo! Se forem insultadas, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.

3) Não se depilem. A depilação é uma forma de tortura inventada por uma sociedade altamente paternal que apenas vê as mulheres como objectos sexuais. Quem se depila é, obviamente, contra o feminismo. Se ninguém vos der o devido crédito por não se depilarem, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.

4) Nunca usem a expressão “nem todos os homens são assim”. Está errada. Todos os homens são assim. Não há excepções. Se alguém vos acusar de generalização precipitada, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.
4.1) Por outro lado, o uso da expressão “nem todas as feministas são assim” é obrigatório. Nem todas as feministas são assim. Nem todas falam mal dos homens, nem todas andam nuas, nem todas respiram. Achamos isso por culpa da patriarquia.

5) Batam em qualquer homem que vos elogie sem que vocês o peçam. Mas batam a sério, tipo violência doméstica. Só que não é violência doméstica, porque vocês são mulheres e as mulheres não cometem crimes desses, só os homens. Se forem presas, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.
5.1) Mas elogiem todos os homens com quem queiram ir para a cama. Peçam fotografias provocadoras, dêem-lhes palmadinhas no traseiro, agarrem-nos com força. Se eles vos acharem loucas, não se esqueçam de que a culpa é da patriarquia.

6) Por último, a regra mais importante de todas: a culpa é sempre da patriarquia. Se um homem vos cumprimentar na rua, a culpa é da patriarquia. Se forem despedidas por incompetência, a culpa é da patriarquia. Se tiverem um acidente de carro, a culpa é da patriarquia. O que é a patriarquia? Sei lá. Mas a culpa é sempre dela.

Não sei se esta lista está completa. Se calhar não, não me lembro de ter mencionado a Halsey. Ela provavelmente também não é muito importante – ou, pelo menos, para mim não é. Ela significa tanto para mim como significa para as feministas da internet a igualdade de salários ou a igualdade dos sexos perante a lei. Porque, afinal, feminismo é a defesa de uns quantos ideais meio elitistas de um grupo de raparigas brancas que gostam de fumar umas coisas estranhas enquanto escrevem longos textos com “factos comprovados”. Feminismo, na internet, no mundo de hoje, no seio deste grupo elitista, nada tem a ver com igualdade.

Porquê? Sei lá. Porque a culpa é da patriarquia?

A Marta Silva escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

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