Será que o consumismo chegou ao amor?

Não conheço ninguém que não tenha sentido algures na sua vida qualquer tipo de amor. De certa forma, parece que estamos programados para o sentir, e parece ser este o sentimento que mais nos move, ou pelo menos assim nos faz crer a cultura onde nos inserimos. O amor surge representado de diferentes formas consoante as diferentes culturas. Sentimos, exteriorizamos e temos preconceitos que vamos aprendendo, observando à nossa volta. No mundo ocidental, onde a religião católica predomina, um conjunto de regras sociais bastante explícito guiou durante séculos a forma como as pessoas se deveriam comportar, agir e sentir, até mesmo no amor. Todas essas regras ofereciam às pessoas um sentimento de segurança, de pertença, uma noção dualista muito bem definida de certo e errado, ao ponto de elas não precisarem de pensar sobre estas temáticas, tendo apenas que agir conforme o que era suposto. Obviamente que a liberdade estava muito condicionada, mas no geral tudo era bastante bem definido e aceite. Mas e quando o paradigma muda? E quando, de repente, todas estas regras que até agora nos guiavam são postas em causa e temos nós que decidir o que queremos para as nossas vidas, o que é ou não correto, o que podemos ou não fazer? E mais ainda, quando temos que o fazer em conjunto com outras pessoas, que têm ideias diferentes das nossas, formas de estar e de comunicar diferentes?

De repente somos livres e o Mundo enche-se de possibilidades e de expectativas, a escolha está presente no nosso dia-a-dia. Que curso quero tirar? Será que devo fazer Mestrado ou Pós-Graduação? Quero namorar com aquele rapaz que conheço há anos e que cresceu comigo, ou será que quero alguém completamente novo, desconhecido, uma aventura? E será que quero namorar com um rapaz ou com uma rapariga? Devo casar, ou é melhor focar-me apenas na minha carreira, pelo menos para já? E filhos, para quando? Será que os quero ter sequer? E quem ficará mais responsável por eles se os tiver, eu ou o pai? Que tipo de comportamentos estarei disposta a aceitar e tolerar da pessoa que estiver ao meu lado? Que qualidades terá ela que ter e com que defeitos não quererei conviver? Será que sou bem-sucedida? Será que sou feliz? E serei feliz que chegue, ou devo lutar por mais? Toda a gente parece sempre tão feliz nos seus feeds de Instagram, serei suficiente?

Como tudo na vida, as escolhas têm o seu lado bom e o seu lado mau. Costuma dizer-se que liberdade não tem preço e eu concordo, não há nada que a pague nem nada pela qual valha a pena abdicar da nossa liberdade. Mas e como é que fica o amor no meio desta encruzilhada de escolhas, opções, neste salve-se quem puder onde tudo pode acontecer? Durante quase toda a minha vida ouvi pessoas à minha volta a falar de amor e de relações amorosas. Parece ser algo muito importante na vida da maior parte das pessoas, tanto homens quanto mulheres. Mas cheguei a uma fase, talvez por causa desta mudança de paradigma, em que parece ensurdecedor! Como é que nós, Millennials, vivemos o amor, e que futuro terão as nossas relações amorosas? O que é que mudou? A verdade é que as escolhas são ótimas, mas nós temos uma relação difícil com elas. Escolher envolve pensar, refletir, comparar, ponderar. Escolher é desgastante e pode ser até frustrante, se chegarmos à conclusão que a oferta é tão vasta que nunca poderemos estar satisfeitos com a escolha que fizemos, pois nada nos garante de que foi a escolha certa. Os “ses” ecoam constantemente nas nossas cabeças quando as opções são demasiadas porque é impossível compararmos todas as hipóteses entre si, ninguém tem capacidade mental para tanto.

Já não bastava podermos decidir toda a nossa vida, e não termos uma estrutura rígida que nos guie, também estamos em permanente contacto com todo o Mundo. A Internet veio conectar-nos, e isso aumentou ainda mais as nossas possibilidades. Já não temos que nos cingir aos dois ou três rapazes que achamos interessantes na escola que frequentámos, nem às miúdas que conhecemos no bar onde costumamos sair. Nas redes sociais ou até em apps desenhadas com esse propósito, temos infinitas possibilidades de encontrar aquela pessoa, a tal, aquela que nos vai fazer querer parar de procurar. Mas será que vai? A perfeição não existe, e, portanto, quando dermos de caras com a primeira dificuldade na relação, será que vamos querer que aquilo permaneça nas nossas vidas, será que vale a pena o esforço? Ou ligamos novamente a app e procuramos outra opção como quem compra uma camisola nova porque a que tem já está com borbotos? Segundo um estudo realizado pela rede social Badoo, os Millennials passam 10 horas por semana à procura do amor em apps, o que significará isto?

Um exemplo que muito bem caracteriza esta sensação de incerteza, e que certamente já terá acontecido a toda a gente, é estarmos cheios de fome e prepararmo-nos para comer uma refeição, à nossa escolha temos dois pratos: um bitoque com ovo a cavalo, ou uma pescada cozida com legumes. Certamente muitos gostarão de pescada cozida com legumes, mas não é o meu caso, e portanto escolheria o bitoque e comê-lo-ia com a satisfação de me ter livrado de uma desagradável pescada, seguríssima de que a minha escolha foi a melhor opção que poderia ter tomado. Agora imaginem a mesma situação, mas à nossa escolha temos, em vez de dois pratos, cinquenta variedades de comida. Lasanha, caldeirada de peixe, bacalhau com natas, bifinhos com cogumelos, arroz de marisco, caril de gambas, hambúrguer com batatas fritas, pizza e mais uma infinidade de pratos, uns que nos agradam, outros não tanto, outros até que nunca experimentámos. Eu iria escolher a lasanha, mas ficaria a olhar para o caril de gambas, que também gosto tanto. E aquele hambúrguer também tem um aspeto bastante suculento. Às tantas não sei se fiz bem em escolher a lasanha, parece-me um pouco seca, já comi melhor, e aquele arroz de marisco malandrinho está a fazer-me água na boca. Basicamente é isto que acontece em quase todas as decisões que tomamos hoje em dia. A variedade é tanta que é quase impossível sentirmo-nos 100% seguros da nossa escolha, e sobretudo quando se trata de pessoas, sabemos que a perfeição não existe, pelo que a probabilidade de a certa altura duvidarmos da opção que tomámos é bastante maior.

Nenhuma geração antes de nós teve acesso com tanta facilidade a bens materiais e de consumo. Somos também a primeira geração a ter nascido e crescido com a tecnologia e a Internet na ponta dos dedos. Será que transformámos a forma como vivemos o amor em algo consumível, tão fácil de substituir como um par de calças velho à distância de um clique? Se nada nos garante que a pessoa que escolhemos é a mais acertada, o que nos leva a crer que a próxima será? Terá todo este imediatismo das redes sociais e facilitismo do consumo em massa entrado nas nossas relações? Seremos nós a geração da relação fugaz e descartável, onde o amor começa a ser visto como utopia?

Acredito que agora, mais do que nunca, temos que parar para pensar, refletir e de seguida comunicar. A comunicação é a chave. É necessário, mais do que nunca, ser capaz de escutar o outro, de empatizar, e acima de tudo de respeitar as diferenças. Creio que antes disso é necessário que nos conheçamos a nós próprios. É muito importante que sejamos honestos, sobretudo connosco. As escolhas são infinitas e teremos que aprender a lidar com elas. Mas assim como começamos a tomar consciência dos malefícios do consumo excessivo, é importante refletirmos nas consequências de vivermos a nossa vida amorosa da mesma forma como tratamos o nosso closet, afinal, somos animais sociais e são as nossas relações num todo que dão suporte à nossa saúde emocional (incluindo a relação que temos connosco próprios). Talvez devêssemos seguir a tendência que começa a aparecer de desacelerar deste ritmo desenfreado e vazio, de parar de massificar e aprender a contruir algo à nossa medida, e à medida da pessoa que escolhemos, que tal como nós não será perfeita, mas que pode ter vontade de construir connosco a relação que melhor assente aos dois.

 

Filipa Pereira Carrêlo

Artigo corrigido por Ana Rita Curtinha

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