“Sobrevive ao ano escolar com estes essenciais de regresso às aulas”

A 18 de setembro foi publicado o seguinte tweet:

Fonte: Twitter @sandyhook

Em anexo, encontra-se um vídeo, com um minuto de duração, que começa com a típica música dos anúncios de regresso às aulas.

Até aos dez segundos, essa ilusão mantém-se. Depois, corta para um rapaz a promover os seus auscultadores que, não só são ótimos para o estudo, como para abafar os tiros e gritos ensurdecedores. Começamos a ver jovens a correr, a cair no chão, a partir janelas para fugir e a barricar-se nas salas. O terror estampado nas suas caras rapidamente nos dá a volta à barriga. Desde calçado ótimo para correr a meias úteis para estancar feridas, são vários os objetos do quotidiano dos estudantes usados para fazer o paralelo entre o material escolar “normal” e o material escolar agora “necessário”.

 Acredito que sejam poucos aqueles que conseguem terminar o vídeo sem lágrimas nos olhos, principalmente depois da parte final – eu, pelo menos, não consegui essa proeza. Vemos uma menina a enviar uma mensagem à mãe (“Amo-te, mãe”) através do telemóvel que o recebeu recentemente para se manter em contacto com a mesma. O desespero com que fala mostra que sente que se trata da última mensagem que enviará. Uma porta abre-se e ouvem-se passos do atirador. 

Melhor do que descrever o vídeo é vê-lo pelos próprios olhos. Volto a colocar o link: https://twitter.com/sandyhook/status/1174291982857883653. Cruzei-me com o tweet no dia em que saiu, mas só agora, mais de um mês depois, é que ganhei coragem para escrever acerca disto. Lembro-me de que na altura fiquei sem palavras. Às vezes somos envolvidos de tal maneira pela nossa vida, pelos nossos “problemas” pessoais, pelas situações mais stressantes, e nem nos ocorre a sorte que temos em considerar algo tão trivial “um dia mau”.

Tenho a sorte de, aos 20 anos, nunca me ter deparado com uma situação de perigo. Nunca fui assaltada, agredida, nem nunca andei numa ambulância desde que estive na barriga da minha mãe. No entanto, também eu choro de raiva, frustração; também penso que tenho o mundo inteiro contra mim e que nada corre a meu favor. Não quero ser hipócrita: eu, tal como vocês, sou uma millennial da sociedade ocidental que gosta que tudo corra às mil maravilhas, sem qualquer contratempo que me aflija. E são tão ínfimos…

Não vou entrar pela questão dos refugiados; isso fica para outro texto. Não vou falar da guerra – é um tema para depois. Neste caso, mesmo tratando-se de tiroteios em escolas (school shootings), vou focar-me no que despoletou este artigo: o vídeo que tem conteúdo gráfico relacionado com tiroteios escolares e que avisa: “se se trata de um tema sensível para si, talvez seja melhor não assistir.” O vídeo cujo mote é “Sobrevive a este ano escolar com estes essenciais de regresso às aulas.

O tweet em causa ultrapassou os 120 mil retweets e os 200 mil favoritos. Não há nada como um bom choque para mobilizar as pessoas, e as redes sociais tornaram-se o veículo perfeito para tal. A verdade é que algo como o assassínio de crianças é chocante por si só. No entanto, acho que ninguém (pelo menos, falo por mim) pensa diariamente nisso: no facto de, de um momento para o outro, um indivíduo entrar por uma escola adentro e começar aos tiros nos estudantes. Ninguém está preparado para ler a contagem de vítimas. Ninguém tem estômago para ver as imagens horroríficas do massacre. Mas também ninguém está disposto a fazer algo para o mudar.

Como é lógico, não és tu, que estás a ler, nem eu, que estou a escrever, que vamos impedir alguma coisa. Muito menos se tu continuares aqui a ler e eu a escrever. Falar e escrever é fácil, mas não evita tragédias. Mais uma vez, o meu objetivo com este texto não é ser hipócrita: é escrever sobre algo que me impactou, na esperança de impactar outrem. Fiz a minha parte pela causa e tu também podes fazê-lo. Não precisas de apanhar um voo para os EUA nem de doar todas as tuas poupanças. Estar informado – parecendo que não – já ajuda. Não virar a cara já contribui. Divulgar, mostrar indignação e pesquisar são passos relevantes.

É a Sandy Hook Promise quem está por detrás deste vídeo desconcertante. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos sediada em Newtown, no Connecticut, EUA. Embora a sua origem não tenha sido devido aos melhores motivos, têm a melhor das intenções. A organização foi fundada e é gerida por familiares de vítimas do atentado que decorreu a 14 de dezembro de 2012 na escola primária de Sandy Hook e que ceifou a vida a 26 pessoas – 20 crianças e seis adultos (fotografias abaixo). São 28 se contarmos com o atirador, Adam Lanza, que se suicidou, e a sua mãe, que matou antes de seguir para a escola.

Fonte: Kveller

A Sandy Hook Promise almeja honrar as vítimas de violência armada. Para tal, e uma vez incapazes de impedir ou reverter a tragédia, tentam torná-la um “momento de transformação”. Fazem-no desenvolvendo programas e práticas que protejam os jovens da violência armada e a evitem.

A sua missão, acima de tudo, é criar uma cultura de prevenção a tiroteios. Aliás, a qualquer tipo de atos violentos nas escolas – algo que tem vindo a sofrer um aumento exponencial, como qualquer pessoa que veja as notícias ou que tenha Internet sabe. Suprapolítica, a Sandy Hook Promise apoia programas de sensibilização e políticas que, baseando-se no lado humano da violência armada, procuram impedir que os indivíduos cheguem sequer ao ponto de recorrer a uma arma para causar danos em si ou noutros. “A proteger crianças da violência com armas com programas que resultam” é um dos seus slogans.

Através destes programas que ensinam práticas de segurança contra armas aos alunos, como manterem-se seguros e zelarem pela sua saúde mental, a Sandy Hook Promise já evitou umas quantas tragédias. Um dos pilares da organização é o de acreditarem que, para salvar vidas, há que conhecer os sinais – “Os tiroteios são evitáveis se se conhecerem os sinais”. Estes sinais são aqueles que as pessoas que estão em vias de infligir dor a si próprias e/ou aos outros mostram antes de agirem efetivamente. Para tal, criaram um programa que ensina a reconhecer esses sinais, pois sem os conhecer é impossível saber o que procurar. Querem que todos o saibam para que possam intervir antes que seja tarde demais.

Legenda: Desde o primeiro dia deste ano até dia 30 de outubro foram registadas 32.432 mortes cuja causa foi uma arma. Números com a duração de apenas dez meses.

Fonte: Gun Violence Archive

Para apoiarmos a organização não precisamos de doar (claro, quem quiser fazê-lo, está mais do que à vontade). Podemos prometer. A Sandy Hook Promise já conta com mais de quatro milhões e meio de pessoas que prometeram. Prometeram que conseguirão seguir em frente com propósito e força; prometeram honrar quem partiu, tornando a tragédia numa transformação; prometeram falar e ouvir, debater independentemente dos pontos de vista contrários; prometeram transformar as conversas em atos; prometeram optar pelo amor, pela crença e pela esperança em vez de pela raiva… entre outros compromissos. Promete também: https://www.sandyhookpromise.org/campaign.

É macabro que exista uma organização composta por familiares de vítimas de tiroteios, mas é ainda pior saber que faz todo o sentido por se ter tornado uma realidade. Poderem afirmar que “Está na altura do regresso às aulas e sabes o que isso significa”, certos de que de facto saberemos, é perturbador. A angústia que sentimos por este que é só mais um dos problemas do mundo para o qual não temos solução. Mais um cuja resolução não está ao nosso alcance. Mais um para nos fazer sentir impotentes.

Eu senti-me extremamente impotente depois de ler o tweet na minha timeline. Estava de certeza com o Twitter aberto para procrastinar, para me distrair ou por simples aborrecimento. Contudo, parei de deslizar o dedo quando vi aquele tweet e a disposição com que fechei a aplicação não foi a mesma da que tinha quando a abri. Penso que não está ao nosso alcance visualizarmos o vídeo e conseguirmos, de imediato, seguir com as nossas vidas – como fazemos com a maioria do conteúdo das redes. Foi uma campanha de marketing genial e necessária que aumentou drasticamente o número de adesões à campanha. Foi uma campanha que, durante uns minutos, foi bem sucedida na sua missão de chegar às pessoas. Agora cada um faz o que bem entende com aquilo que viu.

Artigo revisto por Ana Rita Sebastião.

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