Opinião

Solidão na Era Digital: A desconexão é possível

Se, por um lado, a Internet e as redes sociais permitiram uma aproximação entre as pessoas, por outro lado, também vieram prejudicar a espontaneidade das relações. A verdade é que cada vez mais somos dependentes da tecnologia. Parece que de repente tornou-se estranho conviver com as pessoas sem ser através desses meios tecnológicos.

Muitas vezes, as pessoas estão juntas e não conseguem aproveitar o momento, pois estão mais interessadas naquilo que se passa nas redes sociais. O interesse por saber a que se deve a nova notificação parece ter mais peso do que ter uma conversa cara a cara sobre coisas que realmente importam. Estar presente em corpo e ausente em espírito é o que acontece cada vez mais.

A Internet já foi um refúgio da vida real, mas agora é o oposto. Se, por um lado, as pessoas estão dependentes da tecnologia, por outro, quando estão desconectadas percebem que se conectam verdadeiramente com o que as rodeia. Por vezes, é reconfortante não olhar para as redes sociais, nem usar o telemóvel ou o computador. É uma sensação de liberdade e de bem-estar.

A verdade é que somos responsáveis pelas nossas próprias escolhas. Escolher sermos livres depende de nós. Temos de nos desprender desses hábitos. Penso que conectarmo-nos completamente com o mundo tecnológico equivale a perder experiências, novas sensações, formas mais puras e genuínas de estar.

Somos tão dependentes e não nos apercebemos disso. Porque é que não podemos simplesmente sentar-nos num banco de jardim e olhar para o que está à nossa volta? Estamos realmente preocupados com o que os outros possam pensar dessa atitude? Preferimos pegar no telemóvel para fingir que estamos a fazer alguma coisa? Não dá para simplesmente estar e isso ser suficiente?

A Internet veio garantir o contacto permanente. Sabemos que as pessoas estão à distância de um ‘click‘. Será por isso que não fazemos esforços para manter contactos? É por isso que não combinamos encontros cara a cara com as pessoas? Preferimos explicar o que sentimos através de mensagens, porque achamos mais fácil comunicar dessa forma?

Nada é mais genuíno do que uma conversa real e profunda sobre tudo. Não podemos ser completamente genuínos através de ecrãs. Aliás, as redes sociais vieram mascarar as pessoas daquilo que parece ser melhor aos olhos dos outros. Há quem prefira criar um modelo de vida ideal para mostrar aos outros e que não corresponde à realidade. É uma felicidade mascarada à espera de aprovação.

Solidão na era digital: nunca estivemos tão conectados e tão sós –  Observador
Fonte da imagem: ISTOCKPHOTO/JAKUBZAK

Porque será que nos preocupamos tanto com o que os outros pensam ou dizem? Temos uma espécie de meia culpa em viver de acordo com o que os outros querem ou consideram ser o mais correto. Sermos nós próprios deveria ser suficiente. O padrão deveria corresponder ao que vai ao encontro do que nós somos e não ao encontro do que os outros esperam que sejamos.

Continuamos sozinhos nesta nova era digital. Apenas estamos acompanhados nessa solidão, porque há outras pessoas que também escolheram manter relações vazias e superficiais.

Também existe agora uma espécie de ditadura do ‘like’. Esperamos o like para sermos aprovados pela sociedade. Como é que o “botão do like” pode ter tanto impacto na vida das pessoas? O que quer dizer isso em relação à forma como nos vemos? Só temos valor se os outros o disserem? Parece-me bastante cruel viver desta maneira.

Muitas mulheres, especialmente figuras públicas, são elogiadas quando colocam imagens nas redes sociais a mostrar caras desmaquilhadas e corpos imperfeitos. É visto como um ato de coragem. Coragem para quê? Para se mostrarem como realmente são? Isto não deveria ser considerado um ato de coragem. Somos nós, isto somos nós. É isto.

Toda esta pressão social causa nas pessoas sentimentos de insegurança, de pouca estabilidade emocional. Estes estereótipos criados pela sociedade fazem com que muita gente se sinta sozinha, perdida, triste. Não podemos continuar a alimentar este tipo de coisas. Devemos promover iniciativas que façam as pessoas valorizarem-se por serem elas mesmas. Não existe perfeição, não existem padrões ideais, não existe um modo certo de viver.

Temos medo do julgamento dos outros. Porém, permitimos a autossabotagem. Dizemos a nós mesmos que temos de ser perfeitos. Temos mesmo de o ser? Ser perfeito parece ser uma seca. Como nos íamos melhorar a nós próprios se já somos tudo e mais alguma coisa? Como íamos ter novas experiências? Se somos perfeitos não precisamos de fazer mais nada.

A culpa não é da Internet ou das redes sociais. Toda a inovação da tecnologia é vantajosa. O problema está em como usamos estes meios e a forma como deixamos que estes nos dominem. O problema não é criar uma conta de Instagram. O problema é colocar fotografias e, se ninguém gostar delas, acharmos que não somos bonitos o suficiente, originais o suficiente, espetaculares o suficiente. Apagamos as fotografias, porque não fomos aprovados.

Temos de parar de nos menosprezar. Se ninguém gostou, nós gostámos. Parece-me um motivo bom o suficiente para nos mantermos felizes.

Acredito que a desconexão é possível. Podemos usar a tecnologia, devemos usá-la. O avanço tecnológico é uma mais-valia cada vez mais. O que devemos pensar é que não podemos viver de acordo com o que os outros pensam, não podemos alimentar estereótipos ao contribuir para que eles se mantenham. Quando limitamos a nossa existência à forma como achamos que vamos ser aprovados, estamos a concordar com a sociedade. Somos muito mais do que isso.

Fonte da imagem de destaque: POIKE/ISTOCK/MARIA GRALHEIRO

Artigo revisto por Constança Lopes

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