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Teatro “Comuna”: a expressão natural da cultura


Desta vez, a ESCS MAGAZINE foi até ao “Comuna – Teatro de Pesquisa”, que se encontra na Praça de Espanha.

Este espaço cultural, despojado de grandes ornamentos, procura transmitir a simplicidade e a naturalidade que são o teatro e a poesia. Num ambiente descontraído e íntimo, a ESCS MAGAZINE teve a oportunidade de entrevistar Carlos Paulo, ator há 48 anos e um dos fundadores do “Comuna”.

Numa conversa agradável o ator deu-nos a conhecer os princípios que definem o teatro “Comuna” e a realidade que a cultura enfrenta atualmente.

Qual o conceito que deu vida ao teatro “Comuna – Teatro de Pesquisa”?
Nós fundámos a Comuna em 72. Eu, o João Mota, o Manuel de Freitas (…) estávamos a trabalhar em Teatro, em diversas companhias. Uma vez encontrámo-nos e percebemos que estávamos numa altura em que queríamos falar sobre aquilo que preocupava a nossa geração. Percebemos que o teatro não podia ser nos termos em que estava a ser feito: fechado em salas tradicionais para um determinado público. Então, decidimos criar a “Comuna –Teatro de Pesquisa”.

“Pesquisa” no sentido de procura. De estarmos abertos a novos textos, novas dramaturgias, sobretudo de autores portugueses, pois temos de nos lembrar que nessa altura havia ditadura, Estado único e censura. A nossa ideia era criar dramaturgia portuguesa, começar a olhar para nós através de uma cultura nossa (…) e procurar criar uma nova relação com o público que havia e que estava muito afastado das coisas culturais por imposição do regime.

O nome “Comuna” surgiu porque nesse tempo era a altura dos hippies, das comunidades, e nós decidimos ser uma comunidade de atores invés de uma companhia. Todos iguais (…). Fomos à Rádio Renascença, que era a emissora católica, fazer uma entrevista onde demos a escolher ao público dois nomes: um era os “Cómicos” (…) e o outro era o “Comuna”. Explicámos que éramos uma comunidade, um coletivo, e na altura, o público escolheu o “Comuna”.


Relativamente ao público jovem, existe muita afluência? Como procuram difundir o teatro e a cultura pelo público mais jovem?
A nossa ideia foi sempre atingir a maior diversidade de público possível, obviamente captando, em especial, o público mais jovem. Nós privilegiamos (…) fazer espetáculos para o público que nós consideramos infantojuvenil – o pai que pode trazer o filho de seis, sete, dez anos – mas também interessa atrair uma camada mais velha, para que não seja apenas aquele espetáculo infantil. Isso foi uma coisa que fizemos sempre. Fazer espetáculos normais e depois intercalar. O que acontece neste momento é que a promoção, a nível de jornais, televisão (…), deixou praticamente de existir. A divulgação é muito difícil, sobretudo a nível dos mais jovens, que não leem jornais, não veem televisão… Hoje é tudo via internet e novas tecnologias. (…) O que se faz aqui no “Comuna” e que privilegiamos é o “boca-a-boca”. Pedimos às pessoas que vêm ao espetáculo para passarem a palavra aos amigos. Ao fim de 40 e tal anos nós já temos um público fiel. Temos pessoas que vieram aqui em crianças com os pais e que agora trazem os filhos.

Já reiniciaram as declamações de poesia. Para o Teatro “Comuna” qual é a importância que a poesia tem?
Isso é uma paixão minha que já faço há 15 anos – “A palavra dos Poetas”. (…) A poesia tem uma coisa fantástica que é a palavra e a presença. (…) Comecei este projeto aqui no espaço do café teatro, com um músico que nos acompanha e os atores. Além dos poemas eu falo sobre a vida dos poetas para situar quer no tempo quer a nível da personalidade, para se perceber como a obra não está separada de um tempo, de um conteúdo. (…) No fundo é dar a conhecer e despertar nas pessoas esse gosto, porque a poesia é uma coisa (…) linda que se pode fazer olhos nos olhos.

O que é que a cultura representa para o teatro comuna e para si?
A cultura é a nossa forma de estar e de nos relacionarmos. (…) A cultura não é só o conhecimento, a cultura é a forma como vivemos e nos relacionamos; é por isso que existe cultura ligada à gastronomia, à música, à fala. (…) A cultura é o lado que mais humaniza as pessoas, que mais nos aproxima, que mais nos faz olhar para o outro.

Na sua opinião, qual a importância que o Estado dá à cultura?
Nenhuma, nenhuma, nenhuma. E por uma razão muito simples: a nova geração que nos governa é inculta. A cultura nunca fez parte das suas preocupações. (…) não têm a necessidade de ir a um concerto, ler um livro, ir a uma exposição(…). Quando fundámos o “Comuna”, todos os Presidentes da República que foram eleitos desde então vinham aqui ver os espetáculos, as estreias… Hoje? Nem põem aqui os pés. Nós mandamos convites, porque são entidades oficiais, mas eles nem sabem o que é isso. (…) Não tem a ver com partidos políticos, porque isto é transversal a todos, tem a ver com uma nova geração que foi exatamente formada para ocupar aqueles lugares e poder governar. (…) Obviamente que não tendo necessidades culturais, não podem estar atentos à cultura do país.(…) Quantos intelectuais portugueses tiveram de emigrar(…)? Porque era a forma que eles tinham de resistir à ditadura, mas agora que vivemos numa democracia, acontece o mesmo? Temos de perguntar o que é que se passa. (…) O grande problema é que eles estão divorciados de uma realidade que é concreta (…), eles não sabem onde vivem nem o que os rodeia.

No dia 26 o teatro “Comuna – Teatro de Pesquisa” vai estrear a peça “Depois o Silêncio” de Arne Lygre, uma ótima oportunidade para visitar ou revisitar este espaço emblemático da cultura portuguesa que tem cinco euros como preço de bilhete único às quartas e quintas-feiras.

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