«Terreno Selvagem»

ART - Andreia Filipa - Terreno Selvagem - imagem corpo 1

Imagem arquivo TNDM II

Duas vozes em duas pessoas que representam três numa demonstração do quotidiano que corre e que cala os demais: falamos de «Terreno Selvagem». Escrita por Miguel Castro Caldas e interpretada por Pedro Gil e Raquel Castro, a peça esteve em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II até ao dia 31 de janeiro.

Quatro paredes. Ao fundo, a porta que conduz ao hall. Ao lado, um bengaleiro com casacos pendurados. Um sofá que divide o espaço em dois: a sala de estar, com uma televisão e uma poltrona, e a sala de jantar, com uma mesa e quatro cadeiras. Um tapete. Um piano. Ao lado, uma estante com livros. Na parede um cartaz de um filme. No chão uma planta. Na verdade, a caracterização do espaço é tão importante quanto a história pois o espaço traça a narrativa.

Inicialmente, a peça refugia-se no humor, relatando acontecimentos habituais: o pequeno-almoço da família, a febre da filha, a discussão sobre quem fica a tomar conta da mesma, o trabalho, a rotina. Nada mais parece senão uma família normal, numa casa normal, com as preocupações comuns.

Nada parece surpreender. É como se a sociedade estivesse padronizada, sendo possível saber qual o comportamento seguinte, a palavra e o pretexto. Torna-se aceitável ouvir o pai dizer à filha “não olhes para a televisão, não podes ver isto” sem uma justificação; apenas porque é assim que deve ser.

O tom irónico vai diminuindo ao longo da peça. A voz-off – Joana Bárcia – torna-se o pilar de toda a acção, complementando-a.

As encomendas chegam uma, outra e outra vez. Surgem quase sempre no centro da sala, no espaço entre o sofá e a mesa com as quatro cadeiras. Surgem como parte irónica da história – tendo em conta as justificações dadas por quem chega – e como retrato da realidade – tendo em conta a última, a certa.

«Quem és tu?»
«Sou uma menina.»

Captura de ecrã 2016-02-6, às 19.32.40

Imagem almanaque.colectivo7186.com

A criança perdeu a ingenuidade quando isso não deveria acontecer; a mudez dos pais (ou dos progenitores?) fê-la não duvidar do abandono. Quando se viu sozinha na praia, não questionou. Na verdade, já o tinha descoberto na noite anterior.

«À noite, os cowboys não tiram as botas.»

À noite, os pais calam-se e concordam em abandonar a filha; à noite, os pais abandonam a música e a sala e vão para o quarto; à noite, a criança ganha uma outra casa, alguém que a proteja dos monstros que dormem debaixo da sua cama.

É selvagem abandonar, esquecer, colocar de parte. É corajoso abrir a porta, receber a encomenda e não chamar a polícia. É inspirador abrir os braços, decorar o quarto, dar a escolher entre o nestum e os cereais e, à noite, ouvir alguém perguntar: «gostas de mim, mãe?» Não é o padrão.

«Os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida. (…) E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho.»
Herberto Hélder

«Terreno Selvagem» é o terreno da condição humana e da mudez; é o terreno do padrão, do sexo e do abandono.

Preenchidos os 63 lugares da Sala Estúdio, pode dizer-se que Pedro Gil e Raquel Castro foram brilhantes e tiveram a capacidade de cativar a plateia do início ao fim. «Terreno Selvagem» revela, assim, a violência e a inconsciência que existe em cada um de nós enquanto sociedade que se deixa conduzir por padrões e expectativas.

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