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Tuna estás à janela, com o teu som à lua

“Presumo que no dicionário diga uma espécie de coisa como uma canção de amor dedicada a uma pessoa”, mas uma serenata é mais que isso. “É uma homenagem a algo ou a alguém que nós amamos” – assim descreve Raquel Soares, 21 anos, da escstunis, aquilo que a traz à Igreja de Benfica nesta noite que, não fosse o calendário, se confundiria com uma das melhores de verão.

Dedicado à sabedoria popular, o 19.º Tuna M’Isto, organizado pela tuna da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), regressa literalmente às origens. Ainda antes da hora já se ouviam, espalhados pelos cantos e recortes de Benfica, pequenos grupos de tunantes, em fina harmonia, entoando, sibilando ou simplesmente afinando os últimos pormenores. Os funcionários da Junta de Freguesia de Benfica (JFB), com a ajuda de alguns membros da escstunis, iam preparando o cenário e os materiais: espalhando as cadeiras brancas pela calçada, montando o material de som em frente aos painéis de azulejos de Eva Nunes e José Luís Campinas, numa das principais artérias da freguesia.

Hugo "Norreias" Marques e Rute "Marlene" Cotrim, os dois apresentadores da noite
Hugo “Norreias” Marques e Rute “Marlene” Cotrim, os dois apresentadores da noite.

“A sabedoria popular é basicamente tudo aquilo que passa de geração em geração”, diz Ana Claúdia Ameixa, a presidente da escstunis. Para esta licenciada de Jornalismo, a sabedoria popular é aquilo que se recebe e se passa aos outros: “acho que é por aí, não é algo estático, mas sim: é algo que vai sempre evoluindo e tornando-se cada vez maior”.

A noite das serenatas do Tuna M’Isto é, segundo Inês Coelho, com o pelouro da Educação na JFB, “de extrema importância”. “Traz uma vida muito grande à freguesia”. Numa zona fortemente envelhecida, “fazem falta iniciativas destas para dinamizar Benfica”. E a população envolve-se: ao longo de toda a noite, as luzes acendem-se nas janelas dos prédios; as pessoas empoleiram-se nas varandas e varandins, nos postigos e nas soleiras das portas para ver essa gente trajada de preto e sempre envolta em grande misticismo.

Vir para o meio da rua é a forma de retribuir à comunidade. “Esta é a comunidade que nos acolhe, é a terra onde nós estamos, onde passamos todos os dias, são as pessoas que nós vemos, mesmo que seja só a passar”, diz Raquel. “É a nossa casa”. E a melhor maneira de ir ao encontro da comunidade é mesmo ir literalmente para o meio da rua, à beira da estrada, em frente à Igreja Paroquial, às confecções Ficabem (Benfica com as sílabas invertidas), entre árvores altas e paragens de autocarro, entre a azáfama suburbana de estar na raia do centro de Lisboa e a pasmacenta calma duma reforma há muito chegada e que se resume agora a uma espera pelo mais que se pensa vir depois do tudo que já veio.

Então, acordam os velhotes? “Também”, diz Inês Coelho. “Mas como vês estão aqui muitos. É importante para eles terem iniciativas destas, que não chocam ninguém. Eles gostam e acaba por agradar-se um bocadinho a todos: aos jovens e aos menos jovens”, acrescenta.

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A actuação da escstunis fechou a noite de serenatas do 19.º Tuna M’Isto

Ana, que veio a Benfica com o marido para um espectáculo no Teatro Turim, acabou por ficar para as serenatas e gostou da surpresa: “é giro ver as pessoas à janela e os carros a parar”. “É bom não só para as pessoas que têm aqui um espetáculo, mas também para as tunas que saem à rua”, diz. Fernanda, de Benfica, também estava a gostar, apesar de estar aqui quase por acidente: “foi muito pouco divulgado. Calhou a sabermos disto”, diz balançando ao ritmo da TAISTCE.

Actuaram, para além da tuna da ESCS, a TMIST, do Instituto Superior Técnico, a FORTUNA, da Nova SBE, a TAISCTE, do ISCTE-IUL, e a Tuna Médica de Lisboa, que junta a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

“Actuámos para um autocarro da Carris!”, diz “Pixote”, da Tuna Médica, com entusiasmo. “E para os cães!”, acrescenta o colega “Timon”, igualmente feliz, rebatizando a canção “Dulcineia” como “Ahuucineia”. Mas no fundo, gostaram. “Foi diferente”, destacam, enquanto reúnem meia tuna para uma interpretação exclusiva de “Os Tomates” para as ESCS MAGAZINE e ESCS FM – apesar dos protestos da organização que geria as dezenas de tunantes nas traseiras da Igreja.

O encerramento da noite, antes da after-party, no campus do IPL, ficou a cargo da escstunis. Por entre agradecimentos e aplausos, foram promovidos, com grande carga simbólica, dois candidatos que passam, agora, a ser os mais recentes caloiros da tuna da ESCS, tendo a sua estreia já no Tuna M’Isto, no Auditório Vítor Macieira.

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