Opinião

Um clichê ambulante

As coisas boas acontecem quando menos se espera. Quem diria que eu, na minha vida, começaria o que quer que fosse desta forma? Isto vai contra os meus princípios básicos: pronunciar-me em clichês. Mas aqui estou hoje a ir contra os meus motes e a dizer que o inesperado, afinal, até traz algo de bom. Quer dizer, como controladora nata que sou, não gosto de que as coisas me escapem. Mas elas escapam, porque ainda não tenho superpoderes que me ajudem a controlar a mente e as ações dos outros. E não me decidi ainda se gostaria de os ter ou não.

Atentem! Gosto de saber o que se vai passar. Correção: gosto de formular pensamentos que me assegurem que nada me vai escapar. Um exemplo prático é o facto de eu ter a maior parte das coisas que vou fazer no próximo mês já adiantadas. Afinal, se estiverem adiantadas, o que pode correr mal? Muita coisa, na verdade. Mas, mesmo assim, essa “muita coisa” é limitada, porque já teria previamente em consideração o que poderia correr mal. E, provavelmente, eu já teria pensado numa solução. Agora, lidar com incertos absolutos, sobre os quais são os outros a tomar as decisões, é um “não, obrigada”. 

Correção: é um “não, obrigada” no momento em que me deparo com uma situação que não posso contornar. Porque quero que algo aconteça e não tenho como saltar do lugar do passageiro para o volante, quando o condutor até está a conduzir bem e, se eu tentar tomar o controlo, acabo por despistar o carro. E ninguém quer isso. Ninguém o faria na vida real. Porque haveria eu de o fazer num universo metafórico de uma situação? Porque estar tanto tempo parada me começou a dar – literalmente – comichão. Mas fazer alguma coisa não é opção. Ou é?

O que fazem as pessoas normais quando as situações lhes escapam? Ficam só a viver a sua vida como se nada fosse? É que é o que eu estou a fazer, mas os tempos livres e mortos existem. O famoso “Carpe Diem” não foi, de todo, feito para mim. O Ricardo Reis é que gostava de ficar sentado à beira do rio e vê-lo passar, com a Lídia sentadinha e quieta, como uma mulher recatada do lar – que eu não sou – e não lhe toca na mão porque o destino final de todos os seres humanos é a morte. Grande novidade. Isso não significa que, até bater a caçoleta, deva ficar paradinha à espera de que ela chegue, enquanto sinto a vida a passar por mim, movida pelas ações dos outros. Mas há alguém que viva assim? 

Eu acho que, neste momento da vida poética, o Fernando Pessoa exagerou no Ópio. Estava a desfrutar tanto o seu momento mocado que nem se apercebeu de que estava a insinuar que não fazer nada é a melhor opção. Não devemos deixar para amanhã o que não se pode fazer hoje. A inércia não faz com que as carruagens andem. E já o ditado nos conta: quem não arrisca não petisca. Porque não arriscar é conformarmo-nos com o que nos trazem ao cesto. Se a vida nos dá um limoeiro, não ficamos na sombra à espera de que os limões nos caiam ao colo. Afinal, se eles vierem ao chão, significa que estão já fora do seu tempo. E a limonada serve-se com limões no ponto.

Artigo revisto por Beatriz Campos

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