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Um corredor silencioso, luz e arte

Antagonismo extremo é aquilo que encontramos na Fundação Calouste Gulbenkian – antagonismo entre a natureza viva do exterior do edifício e a natureza morta do interior, perceptível através da exposição intitulada Meeting Point 2, aberta ao público até 26 de Outubro.

Meeting Point 2 é a segunda de um ciclo de pequenas exposições, cujo objectivo principal é criar um confronto entre as colecções do Museu Gulbenkian e do Centro de Arte Moderna, permitindo ao público conhecer melhor os artistas e a obra que os caracteriza.

Depois de um confronto entre o trabalho de Rembrandt e de Paula Rego, no ano passado, podemos, agora, presenciar um diálogo pleno entre a obra de Manuel Botelho – artista plástico português do século XXI – e de Henri Fantin Latour – pintor francês do século XIX.

Desde questões religiosas a questões sexuais, são vários os temas que Manuel Botelho aborda, ao longo dos anos, através da arte nas suas mais variadas formas – desenho, pintura e fotografia.

Com um respeito imenso pela obra de Goya – pintor espanhol do século XVIII –, Botelho revela um interesse particular pelo inconsciente e por tudo aquilo que daí advém. Contudo, aquilo que o acompanha e o inquieta até à actualidade é a questão da Guerra: a do Vietname e a Colonial, sendo esta última o tema central da Série Confidencial/Desclassificado – Ração de Combate, da qual fazem parte “100.rç-cmb” (imagem1) e “101.rç.cmb” (imagem2), apresentadas no Meeting Point 2.

ART - Andreia Filipa - Exposição - imagem corpo 1

ART - Andreia Filipa - Exposição - imagem corpo 2

Imagem 1 e imagem 2 (retiradas de museu.gulbenkian.pt)

Este é um trabalho fotográfico que ganha uma dimensão cinematográfica, na medida em que nos é contada uma história: o close-up da imagem – reduzida ao essencial –, a luz intensa e propositada, bem como os elementos que nos transmitem a ideia de uma ausência repentina, a ideia de movimento – os cigarros apagados, os óculos deixados à pressa e o vinho por beber.

Por outro lado, os objectos são escolhidos de forma a revelar a morte dada pelo ambiente de guerra, mas também a camaradagem existente entre os homens “da guerra”, dando a ideia de que estavam unidos na vida e na morte. Tudo é colocado com uma exactidão que se revela fundamental para que o resultado seja este. Manuel Botelho consegue, assim, dar-nos uma imagem real, apelando à sensibilidade do público para o entendimento do que foi a guerra.

Relativamente a Henri Fantin Latour, este foi um pintor da época do Romantismo – caracterizada, essencialmente, pela exaltação da Natureza e dos ideais nacionalistas, bem como pela subjectividade do pintor.

Fantin Latour, considerado um “observador silencioso da vida”, era um apaixonado por música, o que o inspirou na sua arte. Por outro lado, tudo era pintado com um rigor imenso e com uma particular atenção dada ao pormenor, de forma a existir uma réplica da realidade. Assim, as flores surgem constantemente na sua obra devido à exactidão que é exigida.

Na obra “Natureza-Morta ou La Table Garnie” (imagem3) são apresentadas as flores que já se encontram mortas, que foram roubadas à vida devido a factores exteriores e, talvez, humanos; contudo, estas continuam a revelar o perfume e brilho da sua vida que passou e já não volta. Assim, é quase como se a morte fosse escondida pela aparente normalidade que existe devido à cópia exacta do quotidiano.

ART - Andreia Filipa - Exposição - imagem corpo 3

Imagem 3

Com técnicas distintas, Manuel Botelho e Henri Fantin Latour apresentam-nos pontos comuns: o fundo preto como indicador de morte, presente ou futura; a faca como elemento que poderá, eventualmente, conduzir ao final, dependendo da interpretação e escolha de cada um; e a atenção ao pormenor.

Em suma, a natureza morta – imprevisível na obra de Fantin Latour e inegável como sendo o futuro na obra de Botelho – é-nos aqui dada a conhecer numa exposição que tudo tem para dar certo: um corredor silencioso, luz e arte.

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