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Uma questão de perspetiva

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Numa altura onde se discutem soluções de governo à esquerda e à direita, questões de legitimidade governativa e de previsões de futuro, aquilo que é certo é a existência de uma grande diversidade de opiniões, pontos de vista e perspetivas. Pois bem, é precisamente sobre a dificuldade de haver uma visão isenta e descomprometida e a facilidade que existe em confiarmos cegamente nas nossas próprias perspetivas que trata o nosso livro.

Flatland: A Romance of Many Dimensions é uma novela satírica escrita pelo professor, matemático e teólogo inglês Edwin Abbott Abbott (1838-1926) no ano de 1886 sob o pseudónimo de A. Square. Um quadrado é, também, o narrador desta história tão peculiar que, segundo alguns críticos, é mais uma obra de “ficção matemática” do que de ficção científica. Square é, então, uma forma geométrica que vive num mundo a duas dimensões coabitado por outras figuras suas semelhantes. Nas palavras do narrador:

“Imagina uma vasta folha de papel na qual Linhas retas, Triângulos, Quadrados, Pentágonos, Hexágonos e outras figuras, em vez de permanecerem fixas nos seus lugares, se movimentam livremente, sob ou sobre a superfície, mas sem a capacidade de se elevarem ou de mergulharem em relação a esta, tal como uma sombra – só que rígida e com limites brilhantes – e terão uma ideia bastante precisa do meu país e dos meus compatriotas”

Imaginem ainda que têm uma folha de papel na vossa mão e que a colocam de perfil ao nível dos olhos. Agora imaginem que nessa folha estavam desenhadas diversas formas geométricas. O que é que veriam? Veriam os quadrados e os triângulos que desenharam? Não. Veriam, única e exclusivamente, as linhas que formam o perímetro dessas figuras geométricas. Pois é dessa forma que Square e os seus conterrâneos se veem uns aos outros.

Flatland, como é chamado esse país, encontra-se num universo onde não existe a terceira dimensão, e muito menos a noção ou a ideia do que isso poderá ser. Para estas figuras, imaginar uma terceira dimensão seria o mesmo que imaginar uma dimensão fora do tempo e do espaço para nós, humanos. É deste ponto de partida que a nossa história se vai desenvolver. Em Flatland tudo é tomado por garantido e existe uma rígida e inquestionável estrutura social: as mulheres, os seres mais baixos e de menos importância, são meras linhas retas; as classes masculinas mais baixas, soldados e operários, são triângulos isósceles; os artesãos são triângulos equiláteros; e a importância das pessoas vai aumentado conforme o número de lados que tiver, sendo o círculo, o clero, considerado a forma perfeita.

O nosso narrador, sendo um simples quadrado, pertence à classe dos cavalheiros, e era um habitante de Flatland como qualquer outro, até ao dia em que teve um Encontro Imediato do 3º Grau (ou da 3ª Dimensão neste caso): depois de ter sonhado que tinha viajado para um país com apenas uma dimensão, Square tem uma visão de um círculo que aumenta e diminui de diâmetro a entrar-lhe pelo teto (ou será pelo chão?) que lhe diz vir de um mundo a 3 dimensões. Para alguém que sempre viveu a duas dimensões, o conceito da tridimensionalidade é algo completamente estranho e inconcebível. É então por isso que a Esfera que visitou o Square o leva para Spaceland, terra onde Pirâmides convivem com Cubos, Prismas e Esferas. A Esfera ensina, assim, ao nosso narrador que os sólidos se constroem pela conjugação de planos e que estes, por sua vez, são sequências de linhas retas e que estas são, ainda, compostas pela sucessão de pontos.

O nosso narrador torna-se o portador de um evangelho que sente a obrigação de anunciar, ao aperceber-se da pequenez do seu mundo e da verdade que por aí andava incógnita. Tal missão vai valer-lhe uma prisão sumária, sem direito a julgamento, por blasfemar contra tudo o que estava instituído e inventar conceitos “impossíveis”.

É desta forma que o autor desta brilhante novela consegue abordar temas religiosos sobre a transcendência e o que está sobre nós; sobre política e cultura e a forma como a sociedade vitoriana do século XIX estava organizada; consegue mesmo pôr em causa a nossa própria existência e obrigar-nos a refletir sobre o nosso lugar no mundo. Um livro desafiante, cheio de interrogações e dilemas, Flatland: A Romace of Many Dimensions é o livro ideal para quem gosta de pensar sobre a vida e o mundo que o rodeia.

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