Ver com outros Olhos: de todos para todos

Que perceção terá da imagem uma pessoa que não vê ou que vê muito pouco?

É ao entrar numa grande sala com diversas fotografias, no edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, que se pode ter essa noção.

A exposição “Ver com Outros Olhos” trata-se de um trabalho fotográfico realizado com pessoas cegas ou de baixa visão. Com recurso a imagens táteis com audiodescrição, é acessível ao público com deficiência visual.

 

Imagem com ecrã tátil e audiodescrição.

 

Com o objetivo de mostrar ao mundo que a cegueira não é escura, mas que “tem luz, cor e beleza”, são retratados medos, desejos, ambições, memórias e fascínios, fazendo-se “a construção do ver, não vendo”.

Através das fotografias desta exposição, o público pode conhecer um pouco da vida de cada participante: o seu percurso de vida – antes e depois da cegueira -, obstáculos e dificuldades.  Maria, de sete anos, Natália, de quinze, João Sabino, de trinta e oito e Maria de Fátima, de cinquenta e quatro, são apenas quatro dos sessenta e três protagonistas deste projeto.

 

São retratados medos, desejos, ambições, memórias e fascínios.

 

Ao percorrer a sala, com grande acessibilidade, pode ler-se frases proferidas por estas pessoas, o que contribui para uma melhor perceção dos seus pensamentos: As pessoas cegas e com baixa visão não são inúteis; não gostam de ser colocadas de parte e de ficar paradas. Estamos cá e continuamos a ter capacidades”; “Uma pessoa cega também pode fotografar”; “Fazemos o mesmo que os outros. Somos todos iguais, todos temos as nossas limitações”.

Esta é uma exposição que revela o que é viver sem um dos sentidos, que grande parte da população tem como adquirido. Se alguns consideram que se sentem “presos e antes eram livres” e que há coisas que se perde porque a falta de visão já não permite”, outros defendem que têm de olhar para o futuro”.

Num local onde “Inclusão” é a palavra de ordem, a ideia era levar a produção artística, o contacto com a arte e a aprendizagem sobre alguns movimentos estéticos relevantes a um grupo de pessoas com maior dificuldade no acesso às imagens.

Este mesmo fator não pôde deixar de ser referido por uma das colaboradoras da exposição, que fez questão de representar a falta de acessibilidade a coisas simples do quotidiano comum: “A falta de acessibilidade nos supermercados é o tema do meu trabalho. O cego à espera para entrar, à espera para ter acesso aos produtos para poder comprar”.

Grande sala com fácil acessibilidade.

 

Para além das fotografias, é ainda possível visualizar um pequeno filme, no qual se mostra todo o processo da elaboração deste projeto com respetiva audiodescrição.

A exposição, que se encontrará aberta até ao dia 12 de novembro do presente ano, apresenta um conjunto de obras que reflete a condição complexa, difícil e presente de pessoas que lutam diariamente pela liberdade e independência. É uma exposição que desafia o provável e que inspira aqueles que querem quebrar barreiras, podendo mesmo servir de alavanca para expandir a arte para grupos excluídos.

Arte acessível a todos.

(Este projeto foi desenvolvido pelo MEF – Movimento de Expressão Fotográfica –, em colaboração com a Fundação Calouse Gulbenkian, através da iniciativa PRATIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social.)

 

Fotografias captadas por Joana Almada, fotógrafa do núcleo de fotografia da ESCS – Número F

 

Artigo corrigido por Mariana Coelho

Artigos recentes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *