Música

Femme Falafel expõe as suas feridas em “Dói-Dói Proibido”

Lançado em outubro de 2025, Dói-Dói Proibido é o primeiro álbum de estúdio de Femme Falafel.

Foi com as teclas italo-house de Depressão, editado em dezembro de 2022, que Femme Falafel (alter-ego de Raquel Pimpão) se apresentou ao público, fazendo-nos, pela primeira vez, rir e não resistir a dançar. Durante algum tempo, o projeto pareceu condenado ao estatuto de one-hit wonder, mas os dois anos seguintes a tocar ao vivo e o lançamento deste disco provaram exatamente o contrário. 

Femme Falafel volta a pôr o dedo na ferida e a transformá-la em arte, usando a ironia e o sarcasmo como antídotos para as amarguras da vida. Em Dói-Dói Proibido, produzido pela artista e por Luís Montenegro (Rapaz Ego), ganham forma histórias cheias de cor sobre os tropeços, desvios e contradições do (des)amor. 

“Entre mansos senhoriais, crises climáticas, problemas cardiovasculares, mitras intelectualizados, depressões amazónicas” e uma data de metáforas inesperadas que dão corpo à tragicomédia deste universo sentimental, Femme Falafel equilibra humor, caos e vulnerabilidade em doses iguais. 

A música é contagiante e reflete bem as contradições da artista. Com uma base claramente jazz, fruto da formação de Raquel, as dez faixas que compõem o disco expandem-se, sem pudor, entre hip-hop, disco, house e MPB.

No fim de 2024, o lançamento de Romance Feudal indicou que o tão aguardado álbum de estreia estava próximo. Neste single repleto de sintetizadores e com um trap “malandrinho”, a artista explora uma utopia feudalista matriarcal, inspirada de forma subtil por um excerto d’ O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir.

Ao som de um funk cósmico que convida à dança, Eletrocardiodrama é um disco-house sobre os altos e baixos do coração, tanto o físico quanto o sentimental, e mergulha-nos num “caldeirão fantasioso” onde qualquer resquício de racionalidade se perde.

Em Camada de Ozone, a artista explora a ansiedade climática. Nesta canção, confessa que, quando se apaixona, ignora as possíveis contraindicações, expondo-se a fenómenos dolorosos como a friendzone ou até mesmo a chamada “cultura de hook-up”.

Segue-se Mitra Indie, onde brinca com clichês, faz referências pop, literárias e artísticas, assim como a hábitos do quotidiano, refletindo o ecletismo e as contradições do personagem. Este é apresentado como um híbrido entre a intelectualidade e a rebeldia: é introspetivo, pensa em filosofia e arte, vai a museus, lê Bukowski, mas também se interessa por festas e flirts.

Rio mostra uma Femme Falafel em paz com ideia de que “mais vale só do que mal-acompanhada”, enquanto Livre-arbítrio reflete sobre o peso e a responsabilidade de tomar decisões, como a escolha de ingredientes para um prato ou até mesmo do curso científico-humanístico no 9.º ano. 

O disco é composto ainda por dois instrumentais (Intro Feudalizante e Envenenados por Mercúrio) e um interlúdio (Floresta da Amazónia).

O que mais nos prende a este álbum é a forma leve e festiva com que Femme Falafel trata temas densos. Dói-Dói Proibido é uma queixa das almas jovens ansiosas, desgastadas pela crise climática e pelos pequenos dramas do dia a dia. Raquel Pimpão mostra as suas dores de forma leve, lembrando-nos que talvez dançar e rir dos pequenos “dói-dóis” da vida seja mesmo a melhor forma de lidar com eles. 

Após uma longa espera “em lume brando”, o disco já pode ser ouvido em todas as plataformas digitais e em CD

Fonte da Capa: Rimas e Batidas

Artigo revisto por: Constança Alves

AUTORIA

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A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e, após um ano como redatora de Música, aceitou o desafio de ser editora no mesmo ramo, mas não se ficou por aí! No futuro, espera vir a unir o gosto pela escrita e pela música à Publicidade e ao Marketing, mas, por enquanto, é Vice-Diretora da melhor revista de Benfica, a ESCS Magazine.