“QUER QUER QUER”, o primeiro disco d’A Sul
Editado a 27 de fevereiro, QUER QUER QUER marca a estreia em longa-duração d’A Sul.
Depois de já nos ter aguçado o apetite com os avanços de Metáforas, Gin e Tela, Cláudia Sul – artista portuguesa que se destaca por unir composição, produção e sonoplastia de forma intimista e cinematográfica – mostra-nos finalmente o seu primeiro disco.
O sucessor do EP “Já Agora” (2022) nasce do luto, mas rapidamente se projeta para lá dele, guiado pela necessidade de continuar e pelas formas que essa necessidade toma.
“É um exercício de aceitação, mas também de confronto. Mais do que um disco sobre a morte, é uma celebração da vida na sua forma mais crua. Um convite a desafiar a forma como olhamos para o fim, entendendo-o não como vazio, mas como matéria fértil, um território de ser e deixar de ser, onde memória e presença se tocam”.
– A Sul, em comunicado de imprensa.
Gravado entre os estúdios da Cuca Monga e de Vale de Lobos, o disco foi misturado pela artista e por Gonçalo Bicudo, ficando a masterização a cargo de Diego Salema Reis.
Faixa-a-Faixa.
Cada uma das doze faixas combina uma paleta sonora diversa, não fosse a artista sonoplasta de profissão. O resultado mistura influências de jazz, bossa nova, bedroom pop e samba.
Abre com QQQ, uma intro que nos faz pensar que será um disco mais sereno e contido, mas, de repente, em QUER QUER QUER, faixa que dá nome ao disco, mostra-nos o contrário e dá-nos logo vontade de dançar, continuando essa energia em Cepa Torta
De Mansinho faz-nos abrandar. É um “vai e vem”, uma viagem tranquila pelo caos do dia a dia.
Voltamos a dançar com Metáforas que, de forma animada, em jeito de festa, nos traz o bater à porta da morte. O título nasceu de uma expressão do avô da artista, que, já com alguma dificuldade em se expressar, disse algo como: “disseram-me que tinha metáforas na cabeça ou lá o que era…”.
Era Farfisa é um interlúdio que marca o meio do disco, a partir do qual começa a parte mais intensa do álbum.
A sétima canção é, talvez, a mais “dramática”. Tela nasceu num período de residência artística em casa dos avós d’A Sul, em Viseu, e tem um arranjo de cordas e piano da autoria de Miguel Marôco. Seguem-se Como é Bela, mantendo a delicadeza e introspeção, e, entre memórias doces e amargas, Agridoce, que ecoa com um refrão insistente, “Eu sinto-a comigo / Sai fora do meu cantinho”.
Acumulador transmite o peso de uma luta interna, com contrastes que oscilam entre a leveza da memória e o peso da dor, como se cada instante fosse ao mesmo tempo delicado e sufocante: “Ao pé do mar / Só vejo areia / Que pesa e dói / Como uma manta”.
Em Vinho de Caixa, dizer que “Não devia fazer parte / Ficar sem o meu amor” surge como uma forma de aceitar a presença inevitável da dor, por muito injusta que esta seja.
Por fim, Gin reflete sobre um tema vulnerável e inevitável à medida que a idade passa por nós e por aqueles de quem mais gostamos, “lidar com isso, torna-se uma tarefa complicada de gerir e por vezes tentamo-nos adormecer do azul que há em nós.”.
Tal como no “cinema de autor, o subjetivo é que traz valor”, é precisamente nesta lógica que é construído todo o disco. A Sul pega na dor e transforma-a em festa de uma forma bonita. Letras densas convivem com arranjos leves e dançáveis, num contraste que desafia o peso do que é dito e que dá ritmo à tristeza.
QUER QUER QUER, o primeiro disco de A Sul, já está disponível em todas as plataformas digitais.
Fonte da Capa: Azáfama
Artigo revisto por André Nunes
AUTORIA
A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e para aperfeiçoar a sua escrita e a dos outros em Correção Linguística. Sem dar por isso, a Magazine tornou-se muito mais do que o lugar onde apenas escrevia. Um ano depois de entrar, tornou-se Editora de Música e, no seguinte, Vice-Diretora.
Ao longo de três anos, escreveu muito, aprendeu ainda mais e colecionou experiências que vão muito além dos artigos publicados. Despede-se da Magazine com a certeza de que esta foi uma viagem muito bonita. Quanto ao resto, basta dizer que se houver música a tocar há uma boa hipótese de estar por perto.



