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A Carris não é um bordel

Não gosto particularmente de andar de transportes públicos. O metro deixa-me claustrofóbica e os autocarros da Carris cheiram-me sempre a uma mistura de suor com caixote do lixo.

Infelizmente, tenho de os utilizar para me deslocar todos os dias para a escola. Em especial, os autocarros. E não era já suficiente o facto de cheirarem mal, mas têm também o problema de nunca chegarem a horas. Para piorar ainda mais a situação, que já está no cúmulo do mau, as pessoas que utilizam estes autocarros são do pior que há. Já nem falo dos carteiristas que gostam de viajar nestes autocarros ou das senhoras cujas vozes se aproximam muito da típica peixeira portuguesa – não, aquilo de que falo é toda uma outra questão.

Vou directa ao assunto: já alguém disse aos senhores de idade que nenhuma rapariga, mas mesmo nenhuma rapariga, gosta de que se rocem nela? Já alguém lhes explicou que, se eu quiser que alguém se roce em mim, arranjo um gato fofo que certamente fará o trabalho de forma muito mais subtil e muito menos indutora de vómito?

Existe uma razão pela qual eu vou muitas vezes em pé nos autocarros. Quero que os lugares fiquem vagos para senhoras grávidas, crianças, pessoas de idade que, mesmo sem qualquer deficiência motora, já têm dificuldade em ficar de pé durante demasiado tempo. Eu não fico de pé para que aconteçam as seguintes coisas:

  • Ser assediada por pessoas que têm idade para ser meus avós (a sério, arranjem uma vida. Ou uma prostituta. Para mim tanto me faz, já diziam os D’ZRT quando eu tinha nove anos);

  • Ser assediada, independentemente da idade ou aspecto físico das pessoas que me estão a tentar assediar. Podia ser o Robert Downey Jr. a assediar-me no autocarro e eu continuaria a ter vontade de vomitar.

  • Ser assediada verbalmente, seja por quem for. Não, também não quero os vossos elogios. Já me basta ter de ouvir os senhores dos camiões quando vou a passar na rua (esses senhores são também uma outra espécie que, eventualmente, terei também de tratar nas minhas crónicas).

O meu nome é Marta e não sou uma boneca insuflável. Não quero que façam de mim tal. Não façam de mim a receptora dos vossos desejos e caprichos sexuais. Se têm dificuldade em arranjar mulher que vos queira a partir de certa idade, saibam que não é assim que vão arranjar alguém. Os autocarros da Carris são transportes públicos, não são bordéis.

A Marta Silva escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

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