A ESCRITORA DO MAR

Nascida no Porto, a seis de novembro de 1919, Sophia de Mello Breyner Andresen não sabia que um dia o seu nome seria conhecido por Portugal inteiro. Ao escrever os seus primeiros versos, não sonhava que lhe valeriam o Prémio Camões (que ganhou em 1999). Quando finalmente escreveu a última frase de “A Fada Oriana”, não esperava ter uma biblioteca batizada com o seu nome. E, por não saber nada disso, é que foi quem foi.

O primeiro livro que li do início ao fim sem ajuda foi, precisamente, “A Fada Oriana”. Acho que o li tantas vezes que amarelei as páginas, as amoleci, as dobrei e as gastei. Hoje em dia continua a ser um dos meus livros favoritos, apesar de já não o ler há algum tempo – há demasiado, se me perguntarem. Sophia tinha o dom de cativar os seus leitores porque apresentava lições de vida disfarçadas de contos de fada.

A “sua vida era o mar” e também o mar era a sua maior fonte de inspiração. Há quem diga que o amor que sentia pelo mar era quase uma obsessão. Contudo, eu entendo o porquê de a autora gostar tanto do mar: é o princípio e o fim da tranquilidade. É uma metáfora para a vida, no fundo. É infinito à sua maneira: não sabemos bem onde começa nem onde acaba. Apesar disto, os temas sobre os quais escrevia não se restringiam ao mar. Falava de amor, da infância, do humanismo cristão, da crença em valores sebastianistas, de separação, de casas, da tomada de consciência do tempo, da natureza, da harmonia, da busca da justiça.

Foi educada no mundo aristocrático português, levando sempre consigo os seus princípios católicos e afirmando nos seus poemas que “não trazia Deus em si, mas no mundo o procurava”.

Já li muitos poemas de Sophia. Já li “O Cavaleiro da Dinamarca”, “A Fada Oriana”, “A Menina do Mar”, “A Floresta” e “A Árvore”. Ainda não li tudo. E ainda bem. É sempre reconfortante ler Sophia: lembra-me da minha infância, cheira-me a inocência e remete-me para um sítio acolhedor, quente e bom. Acho que era assim que a autora se sentia ao olhar para o mar. E é também por isso que lhe gosto de chamar A Escritora do Mar.

Sophia faleceu a dois de julho de 2004, mas as suas obras continuam bem vivas na minha estante. E, se não estão nas vossas, ainda vão a tempo. Afinal, a arte é eterna e, tal como as fadas, acredito que a escritora só falecerá realmente quando deixarmos de falar nela.

Fotografia “thumbnail”:

Fonte– Jornal de Notícias, retirado de: https://www.jn.pt/artes/interior/sophia-de-mello-breyner-o-centenario-da-poetisa-situada-para-la-do-tempo-10429832.html

Créditos– Arquivo Global Imagens

Artigo revisto por: Beatriz Pardal

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