Literatura

A Geração Beat

América, anos 1950. Antes deles, o fim da Segunda Guerra Mundial. Com eles, o início de uma nova corrente literária que, mais do que isso, foi acima de tudo um fenómeno cultural ilustrativo da mentalidade de toda uma geração: os Beat.

O questionar a sociedade, oca, materialista, esteve na origem deste movimento literário, iniciado por estudantes que começaram a pôr em causa a forma como toda a sociedade estava construída – e a forma como esta se mantinha. Os “criadores” desta geração são ainda hoje conhecidos por todos nós: Jack Kerouac, autor do romance Pela Estrada Fora, Allen Ginsberg, autor de Howl, poema que ilustra, na perfeição, o que é a geração Beat e descreve todo o contexto em que esta surgiu, e William S. Burroughs, autor de Naked Lunch, são apenas alguns dos nomes mais conhecidos da literatura Beat.

Talvez hoje em dia não seja de admirar qualquer uma das caraterísticas dos beat. Rejeição das ideias estandardizadas da sociedade, interesse pela religião, sexo, drogas, jazz e blues. Mas estas ideias, que hoje podem parecer tão banais, eram de fato muito ilustrativas daquilo que esta geração sentia: não tinham vivido a Guerra, verdadeiramente, não tiveram de combater, não tiveram de honrar o país. Não se intitulavam Lost Generation, mas poderiam tê-lo feito, pois o seu combate passava por aí: encontrar o seu rumo, num país em recuperação de uma Guerra Mundial, num país onde as mentalidades estavam adaptadas ao clima que se tinha vivido. E encontrar, acima de tudo, o seu lugar.

Boémios, niilistas, anti-intelectuais, pseudo-intelectuais, os beat construíram (ou deixaram que se construísse) à sua volta uma amálgama de ideias sobre eles, as suas obras, aquilo que as obras representavam. Contudo, o verdadeiro significado por detrás desta geração é bem mais simples (ou mais complicado): beat, de deitados abaixo, de cansados (beaten down) foi o nome escolhido por Kerouac, que apresentou o nome “Geração Beat” precisamente para descrever o movimento de jovens inconformistas americanos.

Em várias obras beat sentimos o cansaço, a fraqueza caraterística da Geração Beat – como se, na ânsia desenfreada de encontrar uma qualquer paz interior, um qualquer descanso merecido de uma vida que deu mais trabalho do que era suposto, estivesse escondida a certeza de que o cansaço não desaparece. Talvez o coração não bata tão depressa como se estivesse a recuperar de uma corrida; talvez se trate de uma caminhada demasiado longa, um passo demasiado lento, em direcção a um ponto demasiado longínquo.

As obras beat parecem resultar de uma fusão entre metáforas para questões existencialistas e respostas cruas às perguntas que ocupam a mente da geração (ou meias respostas, ou respostas que a nada respondem). Acima de tudo, nelas deparamo-nos com a constante amargura que a existência implica. Para um beat, nada importa mas algo tem de importar; para um beat, também, a dificuldade está em encontrar algo que tenha importância.

Os beat eram, assim, o resultado de uma mistura de todo o tipo de inspirações (desde autores como Thoreau, Whitman, ou Dickinson, a artistas surrealistas como Duchamp, Rimbaud e Baudelaire, passando por modernistas como Ezra Pound, Proust, Hemingway), ao mesmo tempo que eram o objecto de inspiração para outros movimentos posteriores: de beatniks a hippies, de uma maneira mais ou menos evidente, as referências estão lá. E, de fato, tão influentes foram que os próprios Beatles lhes devem o seu nome (ainda que não o seu sucesso) – os músicos afirmaram que o nome da banda se escrevia com “a” parcialmente enquanto referência à geração beat.

Não há melhor literatura do que aquela que é intemporal. Não há melhor sensação do que pegar num livro e pensar: “Isto acontece ainda hoje. Talvez eu também me arraste por aí sem saber bem o que procuro. Se calhar, também eu me sinto cansado e espezinhado. Se calhar, o futuro, e tudo o que ele representa, também me assusta. Se calhar, a minha geração, que não passou por guerra nenhuma, esteja a ser obrigada a lutar, também. Não saímos de nenhuma guerra, e não temos nome ainda; nem Lost, nem Beat, mas a nossa geração pode muito bem ser ambas.”

Entre outras coisas, é isto que os Beat oferecem nas suas obras: não só uma perfeita ilustração do pensamento de toda uma geração (e de tantas outras que lhe antecederam), mas também uma espécie de premonição, não necessariamente intencional, como que para mostrar que mesmo que se mudem os tempos e as vontades, o Homem não muda.

Avatar

Leonor Fernandes é alentejana de gema. Veio para Lisboa para estudar Jornalismo, em 2011, mas não a impede de “tirar o ‘i’ do lête para pôr no caféi”. Editora da secção de Literatura da ESCS MAGAZINE desde o retorno da revista, faz também rádio – na ESCSFM, o programa cultural Sala de Projeção – e faz parte do número f, o núcleo de fotografia da Escola Superior de Comunicação Social. Para além disso, escreveu ocasionalmente para a obvious e publicou um artigo na Hush Magazine. Até escrever um livro que ninguém vai comprar, escreve sobre livros que todos devem ler.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *